Categoria "opinião"
06 nov 2015

Vale a pena? Biólogo questiona os impactos da tragédia de Mariana

Arquivado em Comportamento, opinião

Arquivo pessoal

OPINIÃO. Texto sobre a tragédia que atingiu o subdistrito da cidade histórica de Mariana, Bento Rodrigues, deixando centenas de desabrigados, além de desaparecidos e pelo menos uma morte.

Autor: Lucas Perillo, biólogo, licenciado pela UFMG em 2007 e Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela UFMG em 2011. Realizou sua dissertação no Caraça. Participou da confecção do Plano de Manejo da Unidade de Conservação. Atualmente é diretor da Bocaina Biologia da Conservação e aluno de doutorado na UFMG.

“Sou mineiro, parte do povo das Minas Gerais. Essa é alcunha que tenho orgulho de carregar. Indica o lugar que nasci, indica o lugar que escolhi para construir minha história de vida e remete às escolhas de vida de meus antepassados. Mas junto com esse grande orgulho vem preso um fardo pesado. Há séculos somos aqueles que sustentam o mundo com produtos vindos do minério. Seja para cobrir igreja de dourado, seja para engordar lastro de bancos europeus ou para aumentar as pilhas de minérios nos depósitos chineses. Primeiro foi o ouro e agora o famoso minério de ferro. Nada mudou. Só a escala. Agora temos que tirar toneladas no solo brasileiro, solo mineiro, para esmolar algumas centenas de dólares. Ontem, (05/11/2015), o minério de ferro fechou em alta de 0,14%! Notícia boa! O com pureza de 62% está sendo negociado no porto de Qingdao a impressionantes US$ 49,18! Bem próximo do valor que pagamos lá em casa pela conta de água e de luz por mês. O mesmo valor que custa uns 13 quilos de prego. Daqueles feitos de ferro mesmo…

Bem, no mesmo dia escuto a notícia na rádio. Barragem de rejeito rompe em Mariana. A história dessa barragem é triste, comove, mas não é a primeira na vasta biografia mineira. Ainda na graduação, fui estagiário em uma expedição para monitorar os danos do rompimento de uma barragem na Zona da Mata de Minas Gerais. Fiquei impressionado com o alcance do prejuízo ambiental, prejuízo social e prejuízo cênico. Imagens que me marcaram. Minério em Mariana; bauxita em Miraí; buracos infinitos em todo o quadrilátero. Parece ser essa a nossa sina.

Meu primeiro contato com essa mineradora foi há alguns anos. Foi em uma reunião nesta mesmíssima mina que gerou o teimoso rejeito. Fui por ser biólogo, acompanhando a Associação de Moradores de Brumal, distrito de Santa Bárbara (lugarejo que orgulho ser morador esporádico desde a infância). O assunto era sobre um projeto de captação de água para um mineroduto que levaria o produto até os portos do Espírito Santo. Primeiro fizemos um tour na mina. O passeio de ônibus foi como se fosse a bordo de um trem fantasma. O guia ia explicando e exaltando a beleza daquele magnífico empreendimento. Fomos recebidos com a maior cordialidade do mundo. Segundo a perfumada funcionária, as contrapartidas eram infinitas e o prejuízo desprezível. “O único impacto é a abertura de valas na Terra”, dizia o Gerente-geral de Meio Ambiente e Licenciamento da empresa. “É, acho que eles tem razão!” pensaram vários dos simples moradores que foram buscados em casa para o passeio e que agora estavam escutando bonitas palavras do senhor de terno, naquela sala com ar condicionado e comida e bebitda de graça. Afinal, não vejo problema algum em construir uma bomba de dezenas de metros de altura no meio de um lugarejo que tem casas do século XVIII para tirar 24 horas por dia água limpa do rio que nasce logo ali acima na serra e levar para o outro lado da montanha para servir de carregador de minério. O projeto parecia tão surreal que escutava tudo aquilo de maneira descrente. Nunca imaginei que o projeto iria pra frente. E foi. Hoje convivemos em Brumal com este monstro que foi construído sem a permissão da população. Bastou molhar a mão das pessoas certas. As reclamações dos tradicionais moradores são intermináveis. Ganhamos um vizinho, daqueles barulhentos que nunca sabem a hora de parar. E para esse não adianta chamar a polícia.

Semana passada estava em um dos picos do Caraça. Lá de cima já lamentava o tamanho da cicatriz causada pela mina, mesmo esta explorando dentro da zona de amortecimento de uma das mais importantes unidades de conservação do país. Tão perto… Dava pra escutar o constante barulho das sirenes de aviso de marcha à ré dos caminhões fora de estrada. Lá de cima nem pareciam tão grandes assim. Mas isso não é problema. RPPN não precisa de zona de amortecimento não é mesmo? Tirei algumas fotos. O céu tava carregado de impureza mas dá pra ver. E ai vai minha pergunta. Vale a pena? Sem demagogia conservacionista. Pode ser até financeiramente falando. Vale a pena? Quanto custa uma cidade? E a sua história? Quanto valeria a água que seria gerada por essa montanha em 10 anos. E 500 anos depois? Será que vale mais do que alguns bilhões de dólares? É só fazer as contas. O que vale mais: uma tonelada de minério ou um mês de passagem de ônibus? Mas o que sobra é o famoso passivo ambiental. Famoso, mas ninguém considera. Esse cálculo que nunca é feito. Ninguém pensa nisso. O minério de ferro desta mina precisa ser concentrado, é minério pobre (itabirito), tem aproximadamente 45% de teor de ferro. Nem vou levar em consideração todos os serviços ambientais prestados pelas cangas e os geossistemas ferruginosos. Tem gente mais qualificada pra isso. Quem tiver interesse basta acessar

VÍDEO

Sinto pelos afetados diretos desse rompimento. Sinto por Bento Rodrigues. Sinto por todos os mineiros por mais este capítulo impregnando nossa história com lama e metal pesado. E sinto por todos que ainda não têm a visão crítica para afirmar que tem muita coisa errada neste processo.

Quero saber: só os mineiros vão pagar a conta desta vez”.

perillofoto

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