Categoria "Saúde mental"
24 out 2017

Síndrome pânico afastou 20 mil pessoas do trabalho entre 2012 e 2017

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Foto: Getty Images

Por Maria Inês Vasconcelos – Advogada Trabalhista, especialista em direito do trabalho, professora universitária, escritora

O novo modelo empresarial do século 21 vem sendo baseado em trabalhadores saudáveis, que atuam em organizações sustentáveis. Já se fala em sustentabilidade empresarial no campo do trabalho.  Sustentável, neste aspecto, é a empresa que se preocupa com a qualidade do ambiente de trabalho, propiciando condições favoráveis à manutenção da saúde física e mental de seus empregados.

Contudo, algumas empresas brasileiras vêm andando na contramão. Segundo dados da Previdência Social, a síndrome do pânico afastou cerca de 20 mil pessoas do trabalho entre 2012 e 2017. O transtorno, geralmente desencadeado por estresse ou propensão genética, causa sintomas de ansiedade intensa, falta de ar e aceleração dos batimentos cardíacos. Atualmente, um dos principais fatores que influenciam o desenvolvimento da doença é um ambiente de trabalho permeado por cobranças intensas, exageradas e insuportáveis.

Por meio de formas de gestão obsoletas e indignas, e adotando uma visão completamente desfocada dos princípios que norteiam a relação de trabalho, as empresas atuais “coisificam” seus empregados e exploram a mão de obra além dos limites. Uma das piores e mais nefastas formas de exploração é a violência psicológica.

A violência psicológica se faz de diferentes e ilimitadas formas. Assim, tudo que possa abalar o psiquismo do empregado, causando ou agravando sua doença mental nesta categoria, se enquadra. Podemos exemplificar essa situação de violência psicológica com um “padrão gerencial” que vem literalmente “nocauteando” a mão de obra e trazendo enormes danos ao psiquismo do trabalhador.

Com uma cobrança intensa, as empresas exigem resultados impossíveis de seus trabalhadores, fazendo uso de técnicas levianas e imorais, que até podem culminar na ameaça do corte demissional. Essa pressão constante, para o atingimento de metas, leva o trabalhador à verdadeira “loucura”! Muitos sucumbem com menos de um ano, contraindo em geral, a síndrome do pânico e depressão.

Neste cenário, também se destaca a imposição de jornadas muito longas e ritmo “alucinante” de tarefas. Atualmente, além de fazer muitas horas extras, o trabalhador ainda é mantido “plugado” ao trabalho, fora de seu horário, por meio do uso de celulares e computadores. Ao longo dos anos se tornou popular o chamado “plantão”, que é vedado pela lei, pois entre um turno e outro de trabalho, há de se ter um intervalo de onze horas.

Certo é que o crescimento dos índices de adoecimento mental do trabalhador é um fato que não pode passar despercebido pelos empresários, trabalhadores e judiciário. Se o cenário da doença do trabalhador era antes dominado pela Lesão por esforço repetitivo (LER), hoje não mais o é.  A depressão e as doenças de ordem ansiosa, onde se inserem a Síndrome do Pânico, o estresse pós-traumático e o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), vem “roubando a cena”, não havendo dúvidas do acréscimo de patologias mentais.

Como afirmo anteriormente, o modelo empresarial do século 21 não retrata a realidade do cenário atual.   O índice de crescimento no adoecimento mental do trabalhador é um indício de que as coisas não vão bem, por isso é preciso que as empresas se conscientizem de que explorar a mão de obra de maneira abusiva, é um enorme “nonsense”, isso se levarmos em consideração o alto custo social da reparação destas doenças e os reflexos negativos que atingem até mesmo o seio familiar. Como registrou a advogada, Tallita Massuci Toledo, “o empregador não pode se furtar à sua responsabilidade social de manter condições de saúde e segurança a seus empregados”.

Acredito que se os empregadores não se conscientizarem de que são responsáveis não só pela qualidade da saúde física de seus trabalhadores, mas também da saúde psicológica dos mesmos, em breve a doença mental decorrente do trabalho, vai se tornar uma epidemia.

23 out 2017

SAÚDE E LITERATURA: Psicólogos lançam livro sobre redução dos riscos de desastres

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As catástrofes, sejam elas naturais ou provocadas pela ação do homem, sempre fizeram parte da história da humanidade.  Considerando a realidade de vulnerabilidade relacionada à ocorrência de desastres, em particular no Brasil, tornou-se evidente a necessidade de uma gestão integrada formada por profissionais multidisciplinares.

O livro O psicólogo na redução dos riscos de desastres: Teoria e prática, destinado a professores, estudantes, psicólogos e demais profissionais ligados à Proteção e Defesa Civil, oferece diferentes possibilidades de intervenção do psicólogo nas ações para prevenir e minimizar desastres, antes, durante e após eventos adversos, buscando integrar teoria e prática, criando novas oportunidades àqueles que estão expostos a cenários de desastres, ajudando-os a se preparar, responder e reduzir os impactos de uma catástrofe.

A obra reúne importantes artigos sobre a atuação do psicólogo na Redução dos Riscos de Desastres, foi organizada pelos pesquisadores Daniela da Cunha Lopes e Olavo Santanna Filho e já é considerada uma grande contribuição aos profissionais da área. O livro é dividido em três partes.

Parte 1 – Fundamentos teóricos da psicologia nas emergências e nos desastres
Capítulo 1 – A psicologia nas emergências, nos desastres e nos incidentes críticos
Capítulo 2 – Psicodinâmica decorrente de situações traumáticas e o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT)
Capítulo 3 – Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil
Capítulo 4 – Profissionais de primeira resposta, de Defesa Civil, de resgate médico de urgência e demais profissionais da área da saúde que atuam em situações traumáticas.

Parte 2 – O fazer do psicólogo em cenários de emergências, desastres e incidentes críticos: da teoria à prática

Capítulo 5 – Suporte psicológico a bombeiros militares
Capítulo 6 – Psicologia na gestão integral do risco de desastres: o caso do terremoto em Caraíbas (MG)
Capítulo 7 – Gestão de riscos de desastres baseada na comunidade: contribuições da/para a psicologia
Capítulo 8 – Desastres aéreos e suas implicações na atenção integral
Capítulo 9 – Intervenções da psicologia na tragédia da boate Kiss
Capítulo 10 – O megadesastre de 2011: humanização e construção de ação centrada na pessoa
Capítulo 11 – A construção do cuidado psicossocial aos atingidos no desastre de Mariana (MG): um relato de experiência.

Parte 3 – O fazer do psicólogo em cenários de conflitos armados, epidemias e auxílios humanitários.

Capítulo 12 – Intervenção de psicólogos de organização não governamental em desastres e situações de auxílio humanitário

Capítulo 13 – Atenção psicológica em conflitos armados e desastres naturais: relatos de experiência em cenários internacionais.
Na última sexta (20/10), na Livraria do Psicólogo, estive com dois autores do livro “O psicólogo na redução dos riscos de desastres”. Eles deixaram vídeos exclusivos para o blog Saúde do Meio.
 

MARIANA

O maior desastre ambiental do Brasil foi abordado no capítulo 11, com o título: “A construção do cuidado psicossocial aos atingidos no desastre de Mariana (MG): um relato de experiência”.  A barragem do Fundão se rompeu no dia 5 de novembro de 2015, destruindo o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, e atingindo várias outras localidades. Os rejeitos também percorreram cerca de 40 cidades do Leste de Minas Gerais e do Espírito Santo. O desastre ambiental, considerado o maior e sem precedentes no país, deixou 19 mortos. Confira:

14 set 2017

Setembro Amarelo: os heróis também pedem ajuda

Arquivado em saúde, Saúde mental

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A vida do Superman não é nada fácil. Além de enfrentar vilões de carne e osso, um dos heróis mais consagrados da Terra teve uma infância bem complicada, foi separado dos pais, foi um refugiado, não pode revelar sua verdadeira identidade e acumula duas profissões. Você lembra da história? Ele nasceu no fictício planeta Krypton e foi chamado pelos seus pais de Kal-El (que significaria Filho das Estrelas no idioma kryptoniano). Foi mandado à Terra por seu pai, Jor-El, um cientista, momentos antes do planeta explodir. O foguete aterrissou na Terra na cidade de Smallville onde o jovem Kal-El foi descoberto pelo casal de fazendeiros Jonathan e Martha Kent. Conforme foi crescendo, ele descobriu que tinha habilidades diferentes dos humanos. Quando não está atuando como Super-Homem, ele vive como Clark Kent, repórter do Planeta Diário. Realmente, não está fácil para ninguém!

IMG_20170630_081358Enquanto isso, em Belo Horizonte, o sargento do Hospital Militar de Minas Gerais, Daniel Xavier, 39 anos, sendo 16 anos de polícia, enfrenta um drama pessoal, antes de assumir a identidade de Super-Herói do Projeto Social Liga da Justiça. Em 2013, o mundo parecia desabar nos ombros do jovem policial. “Fui diagnosticado com quadro de depressão. Minha mãe estava doente, meu pai em estado grave no CTI, vindo a falecer. Meu casamento já havia praticamente chegado ao fim. Além de estar passando por uma intensa pressão no meu ambiente de trabalho”, explica.

O sargento Daniel sentia que não tinha forças para continuar a viver. Foi aí que o sinal alerta foi acionado. “Quando comecei meu tratamento, já apresentava os principais sentimentos de quem pensa tirar a própria vida: depressão, desesperança, desamparo e desespero. Tanto que, ao ser abordado pelo psiquiatra sobre o que eu queria fazer a respeito de tudo aquilo, minha resposta foi: eu só queria apertar um botão e desaparecer”.

No entanto, o sargento Daniel contou com uma rede de proteção, envolvendo os amigos, os colegas de trabalho e a Mulher Maravilha.

DSC06420Nunca fiquei afastado da Polícia. No período mais difícil, tive a licença médica de alguns dias e, logo em seguida, minha chefe Ten Cel Elaine autorizou o pedido de férias prêmio. Minha amiga me incentivou a criação do Projeto Social Liga da Justiça (saiba mais).

No mês de junho de 2017, participei de um minicurso sobre Suicídio, realizado pela LASME – Liga Acadêmica de Saúde Mental da UFMG. Durante o curso, vi o quanto o tema do suicídio ainda é tabu na nossa cultura. Números são omitidos. Quando o tema é abordado pela mídia, muitas vezes é feito de forma negligente com informações distorcidas. 

Em 2016 o Projeto Social Liga da Justiça realizou seu primeiro Setembro Amarelo, no Hospital Militar, pois policiais, bombeiros e agentes de saúde estão entre as profissões mais propensas ao suicídio, fato reiterado no próprio curso da LASME.  Alguns membros da Liga já tiveram experiência de auto extermínio na família e o convite da LASME foi quase que um presente, pois nos trouxe um pouco de conforto ao sabermos que não estamos sozinhos nessa luta e que um tema tão delicado está sendo abordado por pessoas altamente qualificadas para ajudar”.

SETEMBRO AMARELO – CAMPANHA DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O SUICÍDIO

O suicídio é um fenômeno complexo, que envolve várias facetas da existência humana. No entanto, os dados recentes apontam que o assunto não pode ficar restrito aos poucos grupos de discussão acadêmica, filosófica ou religiosa. Todos devem estar atentos ao tema – que afeta direta ou indiretamente à população.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que ocorram, no Brasil, 12 mil suicídios por ano. No mundo, são mais de 800 mil ocorrências, isto é, uma morte por suicídio a cada 40 segundos, conforme o primeiro relatório mundial sobre o tema, divulgado pela OMS, em 2014.

Na maioria dos casos, a vontade de acabar com própria vida é provocada pela falta de esperança, de uma luz no fim do túnel, além de uma insustentável sensação de desamparo e angústia. O quadro de transtorno mental, quando não diagnosticado ou não tratado, como depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar afetivo, crise psicótica e transtorno de personalidade (borderline) pode levar uma pessoa a cometer suicídio. É claro que a prevenção é uma grande aliada da vida. Segundo a OMS, 9 em cada 10 casos poderiam ser prevenidos.

IMG_9745Adriana Santos: Como é sua situação atualmente?

Daniel: Atualmente estou bem. Me monitoro sempre para perceber algum sinal de recaída, porque eles se manifestam, só que a gente e quem está ao nosso redor não percebe.

Como você consegui superar a depressão?

Estava consciente da minha situação. Sabia que seria um processo a longo prazo. Segui as recomendações médicas. Fiz terapia. Pratiquei e ainda pratico atividade física (artes marciais). Tentei focar na solução ao invés do problema e tentei não me entregar. Pude contar com algumas pessoas. Tive uma amiga que ficou ao meu lado na pior hora. Acho que ela foi essencial porque eu mesmo já estava duvidando da minha capacidade de sair dessa. Ela sempre acreditou e isso me deu forças. Hoje atuamos juntos na Liga da Justiça.

O trabalho voluntário foi importante na sua recuperação?

Embora não tenha criado o grupo para uma ser um tipo de terapia, é claro que ajudar as pessoas nos faz bem. Sentir a gratidão das pessoas, tirar sorrisos, fazer as doações, tudo isso num trabalho de equipe. Alcançar essas metas tem uma atuação direta na liberação de hormônios que nos ajudam na nossa felicidade (endorfina, oxitocina, dopamina e serotonina).

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