Categoria "saúde"
30 out 2015

A melhor forma de superar o medo da morte é viver com verdade, dizem especialistas

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Divulgação

A cantora Lana Del Rey, 30 anos, disse recentemente à Revista ‘Billboard’ que tem pânico da morte. Ela revelou ainda que recorre à terapia três vezes por semana. Tinha apenas quatro anos quando “percebeu”que a morte é inevitável. Desde aí, Lana Del Rey vive em constante sobressalto. “Lembro-me de ver um programa na TV no qual uma pessoa era assassinada. Perguntei aos meus pais: ‘Vamos todos morrer?’ Eles disseram: ‘Sim’. Fiquei completamente devastada e desatei a chorar”, recordou.

A cantora ainda relatou: ‘Aconteceu algo nos últimos três anos, com os meus ataques de pânico… estão piores. É difícil ter uma vida normal quando sabemos que todos nós vamos morrer”. Além da morte, a cantora disse que também tem medo de tubarões.

TANATOFOBIA: MEDO DA MORTE

Na mitologia grega, Tanato ou Tanatos era a personificação da morte, enquanto Hades reinava sobre os mortos no mundo inferior. Assim como Hades para os gregos, tem uma versão romana (Plutão), Tanatos também tem a sua: Orco (Orcus em latim) ou ainda Morte (Mors). Era conhecido por ter o coração de ferro e as entranhas de bronze.

Diz-se que Tanatos nasceu em 21 de Agosto, sendo a sua data de anos o dia favorito para tirar vidas.

Tanatos era filho de Nix, a noite, e Érebo, a noite eterna do Hades. Era irmão gêmeo de Hipnos, o deus do sono e era representado como uma nuvem prateada ou um homem de olhos e cabelos prateados. Tanatos tem um pequeno papel na mitologia, sendo eclipsado por Hades. Tanatos habitaria os Campos Elísios junto com seu irmão.

Três Medos – segundo o filósofo Jacques Choron existem três tipos de medo da morte: medo do que vem depois da morte (ligado as religiões, castigos, solidões, sentimento de culpa, etc.), medo do evento ou do processo de morrer (sofrimento prolongado, fraqueza, dependência, estar exposto e vulnerável, etc.) e medo do “deixar de ser” (é o mais terrível, é conflito entre o nada versus a continuidade após a morte, o não ser).

O medo é um sentimento natural e necessário para que sejamos prudentes frente a perigos. No entanto, medo excessivo é patológico. Segundo, Osho, em “O Livro do Viver e do Morrer: Celebre a Vida e Também a Morte”, o medo surge não por causa da morte, mas por causa da vida não vivida. E, por causa do medo da morte, a velhice também causa medo, pois esse é o primeiro passo para a morte. Do contrário, a velhice também é bela. Ela é o amadurecimento do seu ser, é maturidade, crescimento.

Conversei com duas profissionais sobre o processo de morrer: a vice presidente da Sotamig,  Cristiana Savoi,  e a psiquiátrica e coordenadora do Grupo de Enlutados- GAL, Mariel Paturle. Confira:

ENTREVISTA COM  CRISTIANA SAVOI

Adriana Santos: A morte é inevitável, mas muito temem ir embora. Por que temos tanto medo de morrer?

Cristiana Savoi: Essa é uma pergunta instigante. A morte é mistério e como tal gera medo e fascínio. Medo do fim, medo da perda, medo do desconhecido… Ninguém sabe o que vem depois… se é que há um depois . O medo da morte é quase universal naqueles que se sabem mortais. Animais morrem, mas não têm consciência da sua mortalidade e por isso não temem a morte .

Adriana Santos: Quando o medo da morte é uma doença?

Cristiana Savoi:  Quando ele é grande o suficiente para paralisar a vida. Quando é disfuncional e gera limitações nas atividades diárias da pessoa. Quando causa sofrimento desproporcional. Um pouco de medo é necessário à nossa sobrevivência. Por medo de morrer, não atravesso a rua sem olhar. Mas se deixo de sair de casa porque posso morrer atropelada, algo está errado.

Adriana Santos: As pessoas no final da vida, por conta de doenças terminais,  sentem muito medo de morrer?

Cristiana Savoi: O medo está presente muitas vezes, mas não obrigatoriamente. E nem sempre é o medo da morte em si. Pode ser medo da dor, da incapacidade, da dependência, do abandono. Como dizia Epicuro, não precisamos temer a morte, pois quando ela está, nós não estamos.

O medo da morte não é diretamente ligado à proximidade dela, no sentido temporal. Acredito que a intensidade do medo de morrer tenha mais relação com a percepção de cada um, com a experiência de vida, com as crenças e espiritualidade do paciente. Há doentes muito graves que, na iminência da morte, são capazes de experimentar grande aceitação, serenidade e paz. Vivem de modo pleno a experiência de morrer. Estão vivos no momento final. Há diversos relatos emocionantes de pacientes. A impressão que tenho é de que o medo da morte é inversamente proporcional ao sentido que se atribui à própria vida.

Adriana Santos: Como ajudar os pacientes terminas para uma boa morte?

Antes de tudo, é preciso ter conhecimento técnico no caso do médico, saber prescrever analgésicos, remédios pra controle dos sintomas desagradáveis, como falta de ar, agitação, vômitos e tantos outros, que podem ser intensos e devem ser tratados com eficiência e rapidez. Esse é o primeiro passo. É necessário conhecer o paciente, seus desejos e seu conceito de ‘ boa morte’ . Pra isso, a comunicação é imprescindível. O que é importante para aquela pessoa? Estar em casa? Estar lúcido? Ter a companhia de alguém especial? A relação de confiança e respeito entre o paciente, a família e os profissionais de saúde é a base para que se construa a ‘ boa morte’, ou a melhor morte possível…

ENTREVISTA COM MARIEL PATURLE

Adriana Santos: Por que ainda temos tanto medo de morrer?

Mariel Paturle: Temos medo da morte porque na nossa cultura não somos preparados para lidar com as perdas e nem com a nossa morte. Assim, as pessoas morrem despreparadas para morrer, como viveram despreparadas para viver. Vivemos negando a morte, a escondendo, a dissimulando. Vivemos como se fôssemos imortais. Já diz Mário Quintana; “Esta vida é uma estranha hospedaria, da qual saímos quase sempre às tontas, pois as nossas malas não estão prontas e a nossa conta nunca está em dia”…

Adriana Santos: Qual a melhor idade para se falar sobre a morte com as crianças?

Um dos objetivos da nossa associação, a SOTAMIG ( Sociedade de Tanatologia e Cuidado Paliativo de Minas Gerais), é o da educação para a morte, que deve começar desde cedo, na infância. Começar a trazer para as crianças a ideia que a morte é algo natural, que faz parte da nossa condição humana e que acontecerá a todos nós. Isto pode ser feito a todo momento em que ocorrer na vida da criança algum questionamento, ou pergunta a respeito. Estas informações serão passadas de acordo com a capacidade de compreensão e entendimento destas crianças, aproveitando fatos corriqueiros da vida, tipo a perda de um animal de estimação ou a morte de um amigo ou de um parente. E também permitir que elas compareçam a funerais, a velórios e sejam apresentadas a estes rituais. Isto deve ser feito, com o consentimento da criança, se ela manifestar esta vontade de ir.

Adriana Santos: Falar sobre a morte é sintoma de depressão?

Falar sobre a morte, ao contrário do que se imagina, não é um assunto depressivo, macabro ou que deva ser evitado. Pelo contrário, percebemos que falar da morte, é falar da vida! A morte nos remete ao sentido da vida. Ver a vida, sob a ótica da morte. Ela nos ensina a viver melhor. Ela é muito útil e prática para nos dizer que se o tempo é limitado,( não sabemos quando iremos, só que iremos um dia) então devemos aproveitá-lo e viver da melhor forma possível evitando procrastinações e adiamentos e de uma forma responsável. Frente à possibilidade da morte, tudo se ilumina no seu aspecto essencial. Estaremos alertas para o que estamos fazendo do nosso tempo de viver, o que estamos buscando e construindo nas nossas vidas.

Adriana Santos:  A senhora tem alguma dica para perder o medo da morte?

Mariel Paturle:  Se vivermos bem, de uma forma intensa, com bons vínculos e relacionamentos com as pessoas, se conseguirmos realizar os desejos da nosso coração, se sentirmos que a nossa vida valeu a pena, será na minha opinião, mais fácil ir embora. Poderemos ir serenos, sem grandes arrependimentos, sabendo que cumprimos a nossa missão, que o nosso tempo foi útil e proveitoso. Principalmente, se desenvolvemos o nosso potencial espiritual. Se crescermos como seres humanos. Sabendo que a nossa vida será transformada, que algo de nós permanece vivo e em constante evolução. Parece que tememos a morte, pois estamos no geral, muito identificados com o nosso corpo e vivendo de uma forma muito materialista. Temos medo de morrer porque não sabemos quem somos! Se tivermos a consciência da nossa espiritualidade, se a tivermos trabalhado em vida, poderemos ir tranquilos!

COMO SUPERAR O MEDO DA MORTE.

Saiba as 5 formas de ajudar no entendimento da origem do medo da morte. AQUI

20 out 2015

Pesquisadores mineiros avaliam serviços em saúde mental no Brasil

Arquivado em saúde, SUS

Reprodução/Google

Os pesquisadores mineiros, Pedro Henrique Antunes da Costa, Fernando Colugnati e Telmo Mota Telmo Ronzani são os autores do artigo: Avaliação de serviços em saúde mental no Brasil: revisão sistemática da literatura. A avaliação em saúde mental é um mecanismo capaz de produzir informações que contribuam positivamente para a tomada de decisão na área.

A produção científica concentrou-se nas regiões Sul e Sudeste, com diversos âmbitos e participante. Destacam-se os avanços no cuidado, com tratamento humanizado, participativo e comunitário, mas carecendo de maiores investimentos, qualificação profissional e melhorias organizacionais.

Segundo o artigo, as atuais políticas de saúde mental brasileiras originam-se de mobilizações e lutas de usuários, familiares e trabalhadores, visando mudanças no cenário de exclusão e aprisionamento das pessoas com transtornos mentais. Tal processo de reivindicação e participação popular ganha força na década de 80 e resulta na Reforma Psiquiátrica (RP) brasileira que, ao embasar políticas de Estado – como a Lei n.° 10.216, de abril de 2001 -, representa um grande avanço no tratamento de pessoas com transtornos mentais, em direção à comunidade.

Conversei com um dos autores, o psicólogo Pedro Henrique Antunes da Costa do CREPEIA da Universidade Federal de Juiz de Fora, sobre os avanços, os desafios e  os principais pontos do artigo.

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Imagem: arquivo pessoal

Adriana Santos: Na sua avaliação, quais os grandes desafios após da Lei nº 10.260 de abril de 2001?

Pedro Costa: Como apontado pelo estudo de revisão que fizemos, os grandes desafios da área dizem respeito à necessidade de maiores investimentos em termos de formação e qualificação profissional, bem como melhorias organizacionais e estruturais na rede de atenção psicossocial (RAPS). Cabe ressaltar que esses são fatores insuficientes nas políticas públicas de saúde como um todo, não sendo exclusividade da saúde mental. Além disso, sabe-se que essa temática é ainda permeada por uma série de mistificações, preconceitos e estigmas que, aliados à sua complexidade, trazem grandes desafios para a sua abordagem de uma forma humanizada e abrangente. Outros desafios também dizem respeito ao trabalho em rede, articulando dispositivos de diferente níveis de atenção, e à abordagem das especificidades de algumas condições dentro da saúde mental, como o uso de drogas, o cuidado a crianças e adolescentes, dentre outros. Entretanto, os estudos apontam para um avanço no cuidado às pessoas com transtornos mentais a partir da Reforma Psiquiátrica brasileira. As recentes políticas na área, os serviços substitutivos e a RAPS representam estes progressos, garantindo acesso a tratamento humanizado, participativo e comunitário.

Adriana Santos: Muitos familiares de pessoas com transtornos mentais reivindicam leitos em hospitais psiquiátricos. Qual a sua avaliação sobre a necessidade ou não do aumento dos leitos psiquiátricos?

Pedro Costa: As políticas em saúde mental brasileira partem do pressuposto de que o tratamento a pessoas com transtornos mentais deve ser realizado de forma aberta, territorializado e em direção à comunidade. Essas perspectivas advém de um movimento de questionamento e ruptura com a forma como estes usuários eram tratados anteriormente, enclausurados em grandes hospitais psiquiátricos. Ainda hoje, grande parte das pessoas acreditam que o tratamento para pessoas com transtornos mentais (e também usuários de drogas) deve ser necessariamente de internação. Em alguns casos, dependendo do nível de gravidade ou de episódios mais agudos, clinicamente faz-se necessária a internação, de modo a contornar episódios de crise, desintoxicação ou até mesmo proteger a pessoa. Entretanto, deve-se compreender que a grande maioria dos casos pode e deve ser abordada sem esse componente de internação. Parte-se do pressuposto de que o desempenho de suas atividades na sociedade, a autonomia, exercício de cidadania e a própria liberdade são terapêuticos Uma questão necessária é a continuidade de expansão dos dispositivos da RAPS que abordem a internação de curto prazo ou que sejam residenciais, como os leitos em hospital geral, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de nível III, funcionando 24h e com mais leitos, e as Unidades de Acolhimento (UA), para pessoas com rompimento de vínculos e em situação de vulnerabilidade social.

Adriana Santos: Os governos superaram a visão hospitalocêntrica?

Pedro Costa: Não por completo. Como apontado no estudo, existem ainda uma série de visões paradoxais coexistentes no processo de implementação das políticas públicas relacionadas à área da saúde mental. Assim, o modelo hospitalocêntrico ainda faz parte do ideário social no que se refere à loucura e, consequentemente, seja por fatores políticos, sócio históricos etc., ainda podem ser encontrados nos diferentes níveis da gestão, quando analisamos as políticas, programas, repasse de recursos financeiros e ações na prática.

Adriana Santos: Quais os maiores desafios da saúde mental?

Pedro Costa: Conforme mencionado na pergunta 1, os desafios perpassam por problemas estruturais, insuficiência de serviços, necessidade de melhorias na formação dos profissionais de saúde, dificuldade de articulação entre os serviços, numa perspectiva de trabalho em rede, maior enfoque em temáticas relacionadas à saúde mental e/ou aspectos globais da saúde, como a promoção de saúde, uso de drogas, sexualidade, cuidado a crianças e adolescentes etc.

Adriana Santos: Minas Gerais continua um estado pioneiro com relação à saúde mental?

Pedro Costa: Minas Gerais tem um histórico de relação com a saúde mental bastante particular. Durante muitos anos, determinadas regiões do estado tiveram uma concentração muito grande de hospitais psiquiátricos, o que refletiu em um processo mais lento de desospitalização e uma série de resistências aos novos modelos de cuidado. Não temos avaliações e dados suficientes para fazer uma avaliação do Estado, ainda mais considerando sua extensão territorial. O que temos de dados é o número de CAPS em Minas, que segundo o SUS são, ao todo, 256 de todos os tipos e modalidades e encontram-se distribuídos em 182 municípios. Segundo Relatório de Auditoria Operacional do Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas do Tribunal de Contas da União de 2012, o estado possuía, no ano de 2010, uma cobertura em saúde mental abaixo da média nacional, mas compreendida enquanto boa. Posso falar um pouco da realidade onde vivo, Juiz de Fora, que era um dos municípios com grande concentração de hospitais psiquiátricos, mas que nos últimos anos intensificou seu processo de desinstitucionalização e ampliação da RAPS de modo a se caracterizar enquanto referência técnica, reconhecido pelo próprio Ministério da Saúde, para o restante do país.

Adriana Santos: Quais os maiores avanços na saúde mental?

Pedro Costa: Os maiores avanços passam pela mudança na visão da pessoa com transtorno e mental e, consequentemente, nas formas de abordagem. A literatura demonstra que essas perspectivas práticas, representadas pelos serviços substitutivos, o processo de desinstitucionalização, a RAPS etc., apesar dos entraves, mostram-se mais humanos, efetivos e eficazes do que os modelos hospitalocêntricos. Ademais, apesar da insuficiência de dispositivos num contexto nacional geral, observa-se uma expansão dos dispositivos dentro da saúde mental. Um exemplo é o dos CAPS, que, segundo dados do SUS, saíram de 1326 dispositivos em 947 municípios no ano de 2008 para 2209 CAPS de todos os tipos em 1413 municípios brasileiros no final de 2014. Nesse sentido, é tentar olhar para o copo meio cheio, fazendo as críticas necessárias para seu aprimoramento, mas tendo ciência do quanto que avançamos nos últimos anos.

Adriana Santos: Quais os próximos passos?

Pedro Costa: Continuar o processo de ampliação da RAPS, tentando minimizar ou reverter os obstáculos levantados pelas avaliações e pesquisas na área. A partir dos resultados encontrados na revisão, postulo que estamos adentrando em um segundo momento na avaliação dos serviços em saúde mental no Brasil, onde devemos ir além da mera comparação dos serviços substitutivos com os hospitais psiquiátricos. Isto não quer dizer que tais comparações sejam desnecessárias e não precisem ser reforçadas, considerando a complexidade do campo e fatores políticos. Contudo, propõe-se que se vá além destas comparações, com exercícios críticos que problematizem os entraves das políticas e modelos de atenção substitutivos, ‘descristalizando’ práticas e saberes. Deste modo, acredita-se que os serviços possam ser potencializados, contribuindo para a consolidação da Reforma Psiquiátrica brasileira e do próprio SUS, que são processos inacabados e contínuos.

Adriana Santos: Os profissionais do SUS estão aptos a oferecer um melhor atendimento médico ambulatorial para as pessoas com crises mentais?

Pedro Costa: Como mencionado, a formação profissional ainda é insuficiente para a abordagem às pessoas com transtornos mentais de forma integral, o que reflete não somente no atendimento médico ambulatorial, mas em um trabalho em equipe interdisciplinar que abarque o cuidado contínuo (promoção de saúde, prevenção e tratamento). Isso aparece acoplado ainda a visões estigmatizantes, moralistas e que reduzem o problema a componentes biológicos ou médicos, demonstrando-se um problema global na saúde, resultado de um processo histórico e característica da sociedade. Observa-se, apesar de alguns movimentos contrários, as formações cada vez mais numa direção de superespecialização e fragmentação, com ênfase nos aspectos técnicos e procedimentais. Assim, deve-se repensar a formação em saúde, entendendo-a de forma dinâmica, não descolada da prática e que não se resolve somente com maiores cargas horárias de disciplinas. A questão vai além da mera insuficiência de conteúdo, sendo perpassada por valores e ideais compartilhados pela sociedade. Deve-se pensar não somente na necessidade de capacitação, mas também nos pressupostos e metodologias que fundamentam esses processos formativos, indo além de aspectos tecnicistas e da mera transmissão de conteúdo, abrindo espaço para a problematização da realidade, através de perspectivas participativas, horizontais e abertas às demandas das pessoas, dos cotidianos de vida e trabalho

Adriana Santos: O SUS dá conta do atendimento de pessoas com depressão?

Pedro Costa: Inicialmente, deve-se ter em mente que nem todos os casos são iguais, dependendo da pessoa, do nível de gravidade, bem como dos determinantes sociais relacionados. Além disso, o processo gerencial do SUS e a forma como determinadas condições de saúde serão abordadas poderão variar de acordo com estados e municípios. Partindo disso, o que pode-se dizer é que o SUS deve dispor de toda uma rede para abarcar as pessoas com transtornos mentais, sejam eles quais forem. No caso da depressão e outros transtornos mentais mais leves, o grande nível assistencial deve ser a atenção primária à saúde (APS), a partir das equipes da Estratégia de Saúde da Família, Unidades Básicas de Saúde, com o suporte das equipes interdisciplinares dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família. Sabe-se que o número de casos de depressão vêm crescendo bastante, relacionados a uma série de fatores, sejam eles sociais, individuais e até mesmo a diagnósticos equivocados, e que, de fato, o sistema em geral possui dificuldades para abarca-los. Entretanto, recentemente, algumas ações estão sendo tomadas para melhorar o cuidado a esses tipos de transtornos mentais no SUS, especialmente na APS, com a aquisição e fornecimento gratuito de novos medicamentos, bem como a sistemática inclusão de estratégias que abarquem essas condições nas rotinas desses serviços, como o apoio matricial, o Protocolo Clinico e Diretrizes Terapêuticas, os próprios Planos Diretores da Atenção Primária, dentre outros.

16 out 2015

Cuidados Paliativos: Brasil ainda não sabe dizer adeus

Arquivado em saúde

Reprodução/Google

No próximo sábado (17), de 8h às 10h, na Praça Floriano Peixoto, a Sociedade de Tanatologia de Minas Gerais (Sotamig), em parceria com a Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), realiza uma ação educativa sobre a importância dos cuidados paliativos. Haverá a distribuição de folder e especialistas para orientar e responder questões do público presente.

Pesquisa britânica do instituto Economist Intelligence Unit, divulgada pela imprensa no dia sete de outubro, revelou que o Brasil está no 42º lugar no Ranking Global dos Cuidados Paliativos, muito atrás do Reino Unido, primeiro colocado, que inspirou o modelo do Sistema Único de Saúde (SUS). A vice-presidente da Sotamig, Drª Cristiana Savoi,  avalia que o caminho é longo, mas começa com esclarecimento e atitudes pontuais por parte dos governos. “Hoje, no sistema público de saúde, há programas municipais de assistência domiciliar. Em Belo Horizonte, há hospitais como o das Clínicas e o Risoleta Neves, e ainda serviços ligados à Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig)”, destaca. Na saúde suplementar há operadoras com equipes de atendimento em domicílio e hospitais credenciados.

Conversei com a vice presidente da Sotamig,  Drª Cristiana Savoi sobre a necessidade de se pensar nos cuidados paliativos, em especial por conta do envelhecimento da nossa população. Confira:

cuidados paliativos

Foto: arquivo pessoal

Adriana Santos: O que são cuidados paliativos?

Cristiana Savoi: Cuidado Paliativo é uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças graves e avançadas, que ameaçam a continuidade da vida. É o conjunto de cuidados ativos e integrais que visam melhorar a qualidade de vida frente a uma enfermidade que não responde a terapêuticas curativas.

Baseia-se na prevenção, identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual.

Adriana Santos: Os profissionais da saúde são qualificados para os cuidados dos pacientes em estágios terminais de doenças?

Cristiana Savoi: De um modo geral, não. A graduação da maioria dos cursos na área de saúde não aborda os cuidados paliativos. Muito poucos têm disciplinas relacionados ao tema. Felizmente, existem iniciativas exemplares em terras mineiras, como a Faculdade de Medicina de Itajubá, que foi inclusive pioneira, graças ao trabalho do prof. Marco Túlio Figueiredo. Apenas recentemente, foram criados cursos de pós-graduação e residência multiprofissional que tratam do assunto.  A carência de formação é um grave problema a ser resolvido.

Adriana Santos: Cuidados paliativos são os mesmos que cuidados humanizados?

Cristiana Savoi: Não. Humanização dos cuidados de saúde é um conceito vago, que muitas vezes faz alusão ao movimento que visa resgatar características que nunca deveriam ter sido perdidas por quem se propõe a cuidar de pessoas. Os Cuidados Paliativos são uma modalidade de assistência, que se pauta no cuidado multidisciplinar, e é oferecida por profissionais com formação específica na área. Poderia-se dizer que todo cuidado paliativo é humanizado, pois esse é um conceito intrínseco. Mas nem todo cuidado humanizado é cuidado paliativo.

Adriana Santos: O que fazer quando os tratamentos convencionais da medicina já não têm mais resultados?

Cristiana Savoi: Diante da incurabilidade de uma doença, precisamos ensinar aos nossos pacientes a conviver com as limitações que ela impõe, da melhor maneira possível, visando a máxima qualidade de vida. O foco deixa de ser a doença e passa a ser o indivíduo e seu contexto. Os Cuidados Paliativos se baseiam na premissa de que os pacientes necessitam de cuidados e tratamentos para todas as demandas, físicas, emocionais, sociais e espirituais que advém da experiência de adoecer. O fato de não haver possibilidade de cura não significa que não há mais nada a fazer. Muito pelo contrário. Mesmo quando a morte é certa e próxima, aspectos fundamentais precisam sem abordados: como o paciente está se sentindo?  Existe sofrimento passível de alívio?  Como ele quer ser tratado? Quais medos e expectativas ele tem? E sua família? Estão devidamente orientados? As decisões de fim de vida foram tomadas?

Quando se cuida de doenças, é possível ganhar ou perder. Quando se cuida de pessoas, a gente ganha sempre.

Adriana Santos: Como a família pode estar envolvida nos cuidados paliativos?

Cristiana Savoi: A família é parte indissociável do processo. Ela tem um duplo papel, seja como fornecedora de cuidado ao paciente, seja como foco de atenção, a ser cuidada pela equipe. Os familiares são fundamentais para uma boa assistência, porque participam ativamente dos cuidados, se envolvem nas decisões, sofrem com seus entes queridos e conhecem a intimidade dos pacientes. Muitas vezes, a família se torna o principal interlocutor com a equipe, quando os pacientes estão em fases muito avançadas e são incapazes de se comunicar. Por outro lado, a família adoece junto com o paciente e precisa ser cuidada.  Ela também precisa se adaptar a uma série de mudanças na rotina, aprender a lidar com as novidades que a perda da saúde traz, reorganizar as relações afetivas, lidar com angústias e aflições.  Cabe lembrar que quando digo família, me refiro também àqueles que o paciente considera como próximos, sejam amigos, cuidadores, ou outras pessoas significativas na vida dele.

Adriana Santos: Muitos familiares preferem os cuidados tradicionais dos hospitais porque temem o sofrimento dos seus entes queridos. O que pode ser  feito para apoiar a família dos pacientes terminais?

Cristiana Savoi: É importante entender que os cuidados paliativos podem ser realizados em qualquer local, seja no hospital, seja em casa. Não é o ambiente que determina o tipo de cuidado. Muitas famílias preferem o hospital por terem mais segurança e acesso a recursos. Quando um paciente opta por ficar em casa, é necessário que se tenha uma estrutura que garanta o seu conforto e o atendimento adequado às suas demandas. Estar no hospital não é garantia de alívio de sofrimento. Isso depende da qualidade da assistência. A família precisa ser ouvida e acolhida nessa questão. E junto com a equipe de saúde, define-se o melhor local para o cuidado, sempre procurando seguir a preferência do paciente.

Adriana Santos: O SUS está apto a cuidar dos seus pacientes terminais?

Cristiana Savoi: Por incrível que pareça, hoje no Brasil o SUS está mais preparado que os serviços privados. Existem serviços bem estruturados, em São Paulo, Rio de Janeiro, também no Sul e no Nordeste. Aqui em Belo Horizonte, hospitais públicos, como Hospital das Clínicas, Alberto Cavalcanti, Risoleta Neves têm equipes multidisciplinares que funcionam muito bem. Outros hospitais têm a cultura do cuidado paliativo já difundida, mas não têm equipes específicas, como João XXIII, Odilon Behrens, Hospital da Baleia. Muitos hospitais privados estão se organizando para criar serviços de cuidados paliativos, mas isso ainda não é uma realidade na rede de saúde suplementar. A Unimed oferece serviço de assistência domiciliar por equipe especializada há vários anos. No Hospital Mater Dei, há 2 anos foi criado um grupo de discussão multidisciplinar, que vem crescendo e mudando as rotinas do hospital gradativamente. Em São Paulo, o Einstein e o Sírio são referência pela qualidade dos seus serviços. Há sinais de progresso, mas ainda há muito trabalho a ser feito nesse sentido.

Adriana Santos: O que falta para garantir um tratamento mais humanizado para os pacientes terminais?

Cristiana Savoi: Faltam muitos fatores. Em primeiro lugar, é preciso priorizar a questão com a instituição de políticas públicas que permitam o acesso da população aos cuidados paliativos. Imprescindível é a criação de um programa nacional para o desenvolvimento e manutenção de equipes capacitadas para a assistência em cuidados paliativos e a interface com programas já existentes, como o Programa de Saúde da Família e o Melhor em casa.  Estimular a reformulação da grade das escolas médicas e de outras áreas da saúde, com a inclusão do tema desde a graduação; além de promover educação continuada aos profissionais da área. Importante ainda que haja um trabalho voltado para a sociedade em geral, no sentido de educar para a morte e permitir uma melhor aceitação do fim da vida.

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