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23 jun 2016

Ciência estuda causas e consequências dos sonhos lúcidos

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Alguém já ouviu falar em “sonhos lúcidos”? No meu conceito leigo é uma forma de estar presente e consciente no sonho. O que é isso? Posso decidir a direção que devo seguir, consigo ter conversas lógicas com pessoas e tenho a certeza que não estou no meu ambiente natural.

Já tive inúmeros sonhos lúcidos, mas com intervalos longos de um para outro. Confesso que quando tomo consciência que estou lúcida em um sonho, o pavor toma conta do meu ser e volto rapidinho para o aconchego da minha cama. A volta nunca é agradável.

Só que o último sonho lúcido que tive na semana passada foi diferente. Não tive medo. Consegui manter a calma e aproveitar mais o ambiente. Estava em um local – não tão bonito assim… Nada de flores, árvores e riachos, mas um prédio aparentemente comum. As pessoas que estavam lá pareciam bem simpáticas com a minha presença. Perguntei para uma senhora com uma aparência um pouco estranha, mas totalmente solícita se ela já tinha morrido. Ela me respondeu que morava em Curvelo e tinha o hábito de visitar o local.

Acordei depois que a ansiedade de encontrar pessoas conhecidas foi inevitável. Acordei feliz com a experiência.

Entrevistei o pesquisador Sergio Arthuro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para falar cientificamente sobre o assunto. Ele publicou, em 2013, um estudo inédito no Brasil sobre as diferenças no padrão cerebral para sonhos lúcidos e sonhos comuns. Confira:

Adriana Santos: O que são sonhos lúcidos? E qual a diferença para sonhos normais?

Sérgio Arhturo: O sonho lúcido (SL) é um tipo especial de sonho (que é raro para a maioria das pessoas) em que se tem a consciência de estar sonhando DURANTE o sonho. Além disso, algumas pessoas relatam que também conseguem controlar o conteúdo onírico, ou seja, fazer o que quiserem durante o sonho. Nos sonhos normais (ou não-lúcidos) nós achamos que o que está acontecendo no sonho é real: por mais absurdo que seja (monstros nos perseguindo, ou termos a habilidade de voar, por exemplo) nós nos damos conta que aquilo não está acontecendo apenas depois que acordamos.

2- Por que sonhamos?
Infelizmente, a ciência ainda não tem uma resposta definitiva. Mas antes de tentar abordar essa pergunta, temos que definir o que é o sonho. Para os cientistas que trabalham nessa área, o sonho é uma atividade mental que acontece principalmente durante o sono REM (do inglês rapid eye movement, ou movimento rápido dos olhos), caracterizada por: 1- imagens vívidas e de conteúdo geralmente bizarro, mas que no entanto são experimentadas como se fossem reais (com exceção do sonho lúcido), apesar de se mostrarem com improbabilidades ou impossibilidades de tempo, espaço, pessoas ou ações, 2- emoções fortes como medo ou vergonha, que podem se tornar tão intensas até causar o despertar, 3- dificuldade de lembrança, pois a memória até mesmo para os sonhos mais vívidos desaparece rapidamente (a não ser que técnicas sejam usadas para retê-la, como um diário de sonhos).

Tentando agora responder sua pergunta, vou primeiro reformula-la: os sonhos nos trazem algum valor biológico adaptativo, ou seja, eles são úteis para alguma coisa? Alguns autores dizem que não: os sonhos não tem função nenhuma, pois eles são apenas um produto de uma atividade cerebral aleatória enquanto estamos dormindo. Outros autores, e eu me encaixo nesse time (juntamente com os professores Sidarta Ribeiro e John Fontenele, que me orientaram no doutorado pela UFRN), acreditam que o sonho tem sim um valor adaptativo, no sentido que o sonho pode simular possíveis futuros com base nas experiências passadas, e isso pode servir como um ensaio para os dias seguintes. Imagine que vc sonha que esta correndo de um monstro. Obviamente que monstros não existem, mas essa simulação de corrida pode servir para que vc aprenda alguns movimentos que podem ser úteis caso você realmente precise fugir de alguma coisa, como um assaltante, por exemplo. Quem desenvolveu essa teoria foi um filósofo finlandês chamado Antti Revonsuo, e ele chamou essa teoria de “simulação da ameaça”. Ele acredita que os sonhos seriam muito mais importantes no passado distante, no início da civilização humana, quando éramos constantemente ameaçados por animais de grande porte e outras tribos rivais.

Eu particularmente acredito no seguinte: se os sonhos serviam para alguma coisa mesmo no passado, nós nunca vamos saber com certeza. No entanto, pode ser que no futuro, com o desenvolvimento da consciência humana, e especialmente com o controle dos sonhos – através do SL – os sonhos passem a ter varias utilidades, desde uma simulação mesmo, como no filme Matrix, onde vc pode treinar vários movimentos sem ter perigo de se machucar, até um ambiente de puro divertimento e autoconhecimento.

3- Ficamos totalmente conscientes nos sonhos lúcidos?
Os pesquisadores da área hoje em dia preferem falar em gradações de lucidez, e não apenas no reducionismo binário de SL e sonho não-lúcido. Essa gradação de lucidez pode variar desde pouca lucidez (onde existe apenas a consciência de estar sonhando durante o sonho) até muita lucidez (onde existe total controle sobre tudo que acontece no sonho). A maioria dos SL da maioria das pessoas varia nesse meio, onde alguns relatam que tem um controle parcial sobre o que acontece no sonho.

Os pesquisadores da área hoje em dia preferem falar em gradações de lucidez, e não apenas no reducionismo binário de SL e sonho não-lúcido. Essa gradação de lucidez pode variar desde pouca lucidez (onde existe apenas a consciência de estar sonhando durante o sonho) até muita lucidez (onde existe total controle sobre tudo que acontece no sonho). A maioria dos SL da maioria das pessoas varia nesse meio, onde alguns relatam que tem um controle parcial sobre o que acontece no sonho.

4- Para a ciência o que representa os sonhos lúcidos?
Aristóteles foi o primeiro a descrever o SL, mas o termo “sonho lúcido” foi cunhado por Van Eeden em 1917. No entanto, o estudo cientifico do SL é muito recente: Stephen Laberge foi o primeiro pesquisador a publicar um artigo científico sobre o tema, em 1980, durante o seu doutorado na Universidade de Stanford. Desde então a comunidade científica se deu conta que o SL pode ser estudado de forma objetiva, através de uma série de movimentos dos olhos, feitos de forma consciente pelo sonhador para indicar para o pesquisador que o SL está acontecendo. A ideia é que, durante o sono REM (do inglês Rapid Eye Movement, ou movimentos rápidos dos olhos) que é a fase do sono mais relacionada com sonhos, nossos músculos do corpo estão completamente relaxados. Esse relaxamento acontece para que não nos mexamos enquanto estamos sonhando (imagine que se vc sonhasse que estava correndo, iria fazer esse mesmo movimento enquanto estivesse dormindo). Apesar de todos nossos músculos estarem relaxados durante o sono REM, existe uma exceção para essa regra, que são os músculos dos olhos, que mexem durante o sono REM (como o próprio nome já diz = Rapid Eye Movement). Assim o Laberge pede para seus voluntários de pesquisa que, caso consigam ter um SL no seu laboratório, façam quatro movimentos com os olhos para a direita e esquerda sucessivamente. Ele consegue captar esse movimento pré-combinado e voluntário porque coloca eletrodos sobre a pele próxima do olho. Essa técnica despertou bastante o interesse dos neurocientistas (inclusive o meu), pois até então o estudo dos sonhos era feito de forma subjetiva, ou seja, baseado apenas no relato das pessoas.

5- Já tive vários sonhos lúcidos e as cores parecem mais fortes e tudo mais intenso. Há uma justificativa?
Parece que os SL, para a maioria das pessoas, é visualmente mais vívido mesmo. Isso pode ser justificado pelo possibilidade do SL ser um estado de transição para o acordar. Isso explica porque para a maioria das pessoas o SL dura muito pouco, pois elas acordam logo depois de se darem conta que estavam sonhando. Entretanto, para algumas pessoas essa transição se dá de forma mais gradual e prolongada, aumentando o tempo de duração do SL; mas ainda não sabemos porque isso acontece. Durante o meu doutorado, aplicamos um questionário sobre sonhos pela internet (o artigo relacionado a essa pesquisa se encontra no seguinte endereço = http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fnhum.2013.00836/full) e o fator relatado que mais facilitou a ocorrência de SL foi dormir sem hora para acordar, o que aumenta muito a quantidade de sono REM pois, como dito anteriormente, essa é a fase do sono em que sonhamos, e que acontece principalmente nas últimas horas do sono. Observamos também nesse estudo que muitas pessoas relacionam o SL com o estresse, que aumenta a quantidade de despertares, fortalecendo a idéia que o SL é um estado intermediário (ou fase de transição) entre o sono REM e a vigília. Durante o meu doutorado, investigamos também a atividade cerebral das pessoas durante o SL, e observamos a presença de um ritmo típico de quando estamos acordados (o chamado ritmo alfa) acontecendo de forma breve e aumentando seu tempo gradualmente, como se o cérebro fosse “acordando” aos poucos.

6- As técnicas desenvolvidas por alguns pesquisadores podem realmente promover o sonho lúcido voluntário?
Sim. Antes do SL especificamente, existe uma técnica para aumentar a lembrança dos sonhos (e consequentemente também dos SL) que é o sonhário (ou diário de sonhos). O ideal é que se registre os sonhos logo após acordar todos os dias, para que não se esqueça dos mesmos. Pode-se usar também um gravador de voz, o que evita a necessidade de ligar a luz para poder escrever. No começo, os sonhos de uma noite inteira se resumem a uma frase, mas com o tempo isso vai se transformando num parágrafo até se atingir folhas e folhas… Fiz o sonhário durante alguns meses no começo do meu doutorado e realmente funcionou muito!

A técnica descrita que tem melhores resultados para induzir o SL é acordar um pouco antes do hábito (colocando o despertador para meia hora antes do normal, por exemplo), ficar acordado por uns 5 a 10 minutos pensando em ter um SL e depois tentar voltar a dormir. Dessa forma, muito provavelmente vc vai acordar de um sono REM (porque o sono REM é mais comum nas últimas horas de sono, como dito antes) e vai se lembrar de um sonho. É muito comum as pessoas acordarem de um sonho, voltarem a dormir e continuarem no mesmo sonho. A ideia de acordar um pouco antes do normal é exatamente essa: acordar de um sonho e tentar voltar para o mesmo sonho, só que quando voltar, voltar de forma lúcida.

7- O sonho lúcido é mais um argumento que somos imortais ou é apenas um processo mental?
A neurociência moderna é monista, ou seja, ela acredita que a mente é produto do cérebro (ao contrário do dualismo cartesiano), logo os sonhos não tem nada de metafísico. Esse pensamento místico em relação aos sonhos era bem comum até 1900, quando Freud lançou o livro “A interpretação dos sonhos”, em que ele explica porque os sonhos são decorrentes de processos biológicos do cérebro e que tem a ver com nossas experiências, conscientes ou não, ou seja, os sonhos não tem nada de sobrenatural.

No entanto, existe uma linha de pensamento espírita que acredita que a alma (ou espírito) sai do corpo durante o sono. Eles acreditam nisso porque tem experiências visualmente muito vívidas durante o sono, e até mesmo chegam a ver o próprio corpo. A questão é que o relato deles não difere em nada de um sonho (lúcido ou não). Uma forma de demonstrar cientificamente que eles saem do corpo pode ser feita através de um experimento simples usando a técnica de visualização remota: coloca-se um objeto (por exemplo uma bola de futebol, uma tesoura etc) num quarto ao lado do quarto em que a pessoa vai dormir, e se ela é capaz de sair do corpo, ela é capaz de atravessar a parede, ir para o quarto vizinho, e identificar o objeto. Tentei fazer esse experimento por 4 vezes e ninguém acertou. Também não existe nenhum trabalho científico numa revista séria de tenha comprovado essa habilidade.

Outra aspecto da ciência dos sonhos que gera bastante debate é com relação aos sonhos premonitórios. Nesse caso, a explicação é meio matemática meio psicológica. Se você perguntar as pessoas, vai ver que muitas já tiveram sonhos premonitórios. Algumas vão até dizer que já tiveram várias experiências, mas quando você pergunta objetivamente quantas experiências, o máximo que encontrei até agora foi uma pessoa dizer que teve uns 10 sonhos premonitórios. Pode até parecer muito, mas se você pensar em toda a vida dela, quantos sonhos ela já teve? Vamos dizer que ela tem 30 anos e que sonha duas vezes por semana. Isso dá um total de 2 x 4 x 12 x 30 = 2880 sonhos. Logo, 10 sonhos premonitórios num universo de 2880 sonhos é = 0,005%, que em ciência é considerado um valor desprezível (ou coincidência). A questão é que o sonho premonitório pode ter uma carga emocional fortíssima (como sonhar com a morte de alguém) o que fica difícil esquecer. Outra forma de pensar essa questão é a seguinte: como tem 7 bilhões de pessoas no mundo, com certeza todos os dias vão ter umas centenas (que comparado com bilhões é um valor desprezível, ou coincidência) que vão ter sonhos premonitórios. Algumas dessas vão inclusive falar com outras dos seus sonhos, que vão ser testemunhas de que a previsão realmente aconteceu e que vão ajudar a perpetuar esse mito.

8 – Considerações finais
O último trabalho com SL do nosso grupo de pesquisa foi com pacientes psicóticos (o artigo pode ser acessado livremente em = http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fpsyg.2016.00294/full), e a ideia por trás desse trabalho é a seguinte: durante o sonho, o cérebro gera imagens e sons que não são decorrentes da estimulação vinda do ambiente (ao contrario do que acontece quando estamos acordados), o que é bastante semelhante as alucinações visuais e auditivas dos pacientes esquizofrênicos. Além disso, nossa capacidade de julgamento racional durante os sonhos está bastante diminuída, pois acreditamos que as coisas bizarras que aparecem nos sonhos estão acontecendo de verdade (com a exceção dos SL, como dito anteriormente), o que é  bastante parecido com os delírios presentes na esquizofrenia. Dessa forma, vários trabalhos têm demonstrado que o sonho é um excelente modelo para o estudo da esquizofrenia. O meu primeiro artigo do doutorado foi basicamente discutindo essa questão, e pode ser visto aqui = http://www.medical-hypotheses.com/article/S0306-9877(13)00279-X/pdf

  • Amanda

    Em 23.06.2016

    Eu tenho esses tipos d sonhos quase TDs os dias, maioria eu consigo controla,, outros eu n sei se estou no mundo real ou sonhando pois quando durmo e como se o meu sonho estivesse no mesmo local e HR e eu simplesmente disse as coisas, achando q é realidade pois quando vejo foi um sonh,, mais pra simulação muito real, onde as vezes n sei se estou durmindo ou acordada, meu corpo fica as vezes dormente, mais eu tenho consciência d td q esta a minha volta, e lembro d td o q eu sonhei, maioria das vezes em detalhes, e apendo com os sonhos tb,, lembro d cada fala etc, n acho q isso seja normal para uma pessoa. Mais CMG acontece.

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