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08 mar 2018

Discriminação de gênero afeta 86% das jornalistas, diz estudo da Abraji

Arquivado em Comportamento, opinião

jornalista

Para início de conversa, não sou feminista, apenas mulher, mãe, amiga e jornalista. Nunca gostei de rótulos, talvez por conta da minha vocação para a liberdade.  No entanto, não posso me calar justamente no Dia Internacional da Mulher (8/3), revelando dados sobre a discriminação de gênero dentro das redações. São estatísticas que me deixam constrangida. Afinal, aprendi na universidade que o jornalista é porta-voz da sociedade.

Segundo a Associação de Jornalismo Investigativo (Abraji), 70% das mulheres afirmam terem se sentido desconfortáveis com comentários sobre sua aparência recebidos durante exercício da profissão. Tenso, né? Já senti na carne alguns comentários maldosos, como por exemplo, sobre o volume e o tamanho dos meus cabelos (longos, lisos, escuros, pesados, volumosos e lindos rs). Achavam que eu ficava mulherão demais nos telejornais. Até hoje, muitas mulheres jornalistas precisam deixar os cabelos mais curtos para passar credibilidade.

Também precisei usar terninhos em pleno calor escaldante de Salvador, onde trabalhei como repórter em uma grande emissora de TV. Quando estava no sétimo mês de gravidez do meu filho único, fui demitida, na mesma emissora, sem receber um centavo. Na época, trabalhei como louca sem carteira assinada ou contrato;  fui agredida verbalmente no exercício da profissão;  fiz reportagens do caos provocado pela maior greve dos policiais sem nenhuma garantia de segurança por parte da empresa. Apesar dos pesares, foi uma experiência importante.  “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. Nunca denunciei… (pensativa).

Ainda como estagiária de jornalista, fui assediada sexualmente pelo diretor de uma pequena rádio da minha cidade. Enquanto o meu colega trabalhava como escravo, o tal chefe me mantinha prisioneira em sua sala gelada pelo ar condicionado. É claro que não suportei a pressão. Em menos de um mês pedi para sair. Meu amigo também saiu em solidariedade. Nunca denunciei… (pensativa). Isso não é uma boa ideia.

A pesquisa “Mulheres no Jornalismo Brasileiro” da  Abraji  foi realizada com cerca de 500 jornalistas brasileiras e mostra que 86% das entrevistadas dizem já ter passado por pelo menos uma situação de discriminação de gênero no trabalho. Os resultados da pesquisa feita com jornalistas de 271 veículos do país apontam para a presença de atitudes sexistas em relações às jornalistas dentro e fora das redações.

Entre as entrevistadas, 70% dizem já ter presenciado ou tomado conhecimento de assédio a colegas mulheres no ambiente de trabalho. Quase 60% afirmaram também ter sentido alguma vez que ser mulher lhes prejudicou na distribuição de tarefas, enquanto 39% viram barreiras para a obtenção de uma promoção.

A pesquisa revela ainda que “o mercado jornalístico mudou significativamente nas últimas décadas e a proporção de homens e mulheres nas redações se tornou mais equilibrada”. Ainda assim, há desigualdades: 65% das entrevistadas disseram haver mais homens em cargos de poder (editores, coordenadores, diretores) em seus veículos do que mulheres.

Cerca 70% das entrevistadas afirmam terem se sentido desconfortáveis com comentários sobre sua aparência;  46,3% relataram “cantadas” vindas de colegas homens, 36,9%, de fontes masculinas e 27,9% ouviram de um superior hierárquico.  Apenas 15%, no entanto, denunciaram à empresa situação de assédio ou machismo no ambiente de trabalho. Das entrevistadas, 30% disseram que seus veículos possuíam canais para receber e responder às denúncias.

O estudo recomenda que os veículos produzam cartilhas para funcionários e colaboradores definindo o assédio cometido por uma fonte e indicando os procedimentos a serem adotados pelas repórteres quando forem vítimas desses atos. Recomenda ainda que as redações criem um canal de comunicação interno para que vítimas de abuso e assédio possam fazer denúncia formal.

Fonte: Folhapress/ Portal do Dia

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