13 dez 2016

Filosofia pode ajudar homens e mulheres na busca do divino


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Arquivo pessoal

Tive o prazer de entrevistar a filósofa Lúcia Helena Galvão da Nova Acrópole sobre Filosofia e Espiritualidade. Nova Acrópole é uma organização filosófica presente em mais de 50 países há 54 anos, e tem por objetivo desenvolver em cada ser humano aquilo que tem de melhor, por meio da filosofia, da cultura e do voluntariado.

Lúcia é um sucesso no canal do Youtube. São palestras enriquecedoras sobre clássicos da literatura universal e outros temas filosóficos. Vale a pena conferir.


Adriana Santos: 
Como a filosofia pode ajudar homens e mulheres a compreender de forma ética os tempos modernos, sem perder a conexão com o divino?

Lúcia Helena Galvão: Filosofia é, segundo dizia Pitágoras, “amor à sabedoria”, e a sabedoria  de um homem se mede pela capacidade que ele possui de dar uma resposta humana às situações da vida. As circunstâncias, ao longo da história, parecem mudar, mas talvez não mudem tanto quanto aparentam, se percebermos que as motivações humanas que causam muitas destas circunstâncias continuam as mesmas: egoísmo, vaidade, carência, desejos mais ou menos controlados, decisões mais ou menos sensatas… Embalados numa vestimenta hi-tech.

Manter a conexão com o divino significa não esquecer o que a lei divina ou “Dharma”, como dizem os hindus, espera de cada ser, e manter-se fiel a isso. A Lei espera que as plantas façam fotossíntese, que os animais se perpetuem… O que ela espera dos homens? que cultivem valores humanos: fraternidade, bondade, integridade, justiça…  Não deixarmos de ser humanos quando as circunstâncias nos atingem ou quando geramos  circunstâncias que virão a atingir a outros consiste naquilo que nós podemos chamar de alguém que pratica a filosofia como arte de viver.

Adriana Santos:  A filosofia pode ser um caminho para que possamos nos reconectar com o divino?

Lúcia Helena Galvão:  Sem recorrer a terminologias religiosas (ainda que a Filosofia não se oponha a nenhuma religião), podemos dizer que muitos filósofos ao longo da história acreditaram que o homem possui uma essência imortal que se projeta no mundo, gerando uma “sombra”. A evolução desta sombra seria a busca de tentar se parecer cada vez mais com a essência que lhe deu origem, até voltar a fundir-se com ela. E a essência de cada ser , por sua vez, seria como que uma célula da grande essência do universo manifestado. Daí poderíamos concluir que a evolução consistiria em aproximar-se da Unidade, com seus atributos de fraternidade, integridade, amor etc.

Adriana Santos: Dizem que a intuição é a nossa terceira mente. Como a intuição pode nos ajudar a equilibrar razão, emoção e espiritualidade?

Lúcia Helena Galvão: Intuição é uma percepção simbólica da vida que permite que aprendamos com tudo. Diógenes de Sinope, um grande filósofo do passado, quando lhe perguntaram a razão de não aprender a ler, teria respondido: “O sábio lê na natureza.” Se não sabemos ler nos fatos da nossa vida, no rosto do outro, nos mais simples momentos diários, um sentido maior para a vida, ou seja, se dispomos só da razão, apenas memorizaremos ou extrairemos apenas  conclusões de premissas alheias. Nunca haverá nada novo, nada que seja realmente nosso. Dizem que o ponto de partida para a felicidade estaria na construção da própria identidade.

Adriana Santos: A Filosofia moderna está preocupada com o lado espiritual do ser humano?

Lúcia Helena Galvão: Eu diria que o mundo moderno está  mais preocupado como o “know how”, ou seja, o “saber como”, do que com o saber o “porquê, o “para onde”, o “quem”. Em geral, em todas as áreas do pensamento, estamos mais ou menos imersos numa cultura materialista, onde o homem, com seus valores e sua realização enquanto homem, não é o final do processo, não é a meta buscada por todos. E, curiosamente, esta meta, se alcançada, provavelmente traria, atrelada a si, todas as demais metas,por acréscimo.

Adriana Santos:  Como você avaliar os consultórios de aplicação prática de filosofia para cura de problemas emocionais e espirituais?
Lúcia Helena Galvão: Como jamais os usei nem vi serem usados, não saberia classificar. Conheço a filosofia como um tratamento à grande questão existencial dos homens, a qual se aplica a toda humanidade. Não saberia como particularizá-la para um único ser humano, em um tipo de terapia.
Adriana Santos:  A Filosofia pode ser uma prática cotidiana para o autoconhecimento?

Lúcia Helena Galvão: Não só autoconhecimento, pois, por muito que isso seja um ponto de partida poderoso, se não vencemos o egoísmo, até o autoconhecimento, reduzido a um certo nível,  pode aumentar o potencial corrosivo de uma vaidade descontrolada. Filosofia busca uma sabedoria que humanize, ou seja, que faça com que o homem pense menos apenas em si mesmo e tenha uma meta honesta e profunda de ser fator de soma na vida do outro, dos outros, da humanidade como um todo, se possível.

Adriana Santos:  Qual a diferença primordial entre a Filosofia Oriental e a Filosofia Ocidental?

Lúcia Helena Galvão: Como citamos anteriormente, sem dúvida, a filosofia oriental, em suas fontes clássicas, trabalha muito mais com a mentalidade simbólica do que com o meramente racional. A combinação de ambas é perfeita. Você vai encontrar Sócrates dizendo: “- Só é útil o conhecimento quenos torna melhores”; por outro lado, verá o mestre vedantino Sankaracharia dizer: “- Um medicamento não surte efeito quando se pronuncia seu nome; há que ingeri-lo!” O ensinamento de ambos, nesta passagem,  é o mesmo: não teorize, apenas; viva o conhecimento! Mas, enquanto um declara, o outro sugere. Por isso, às vezes, a Filosofia Oriental se torna um caminho perigoso para o homem moderno, pois a possibilidade de distorcer a compreensão  e interpretar “ao gosto do freguês” é um risco bem significativo, em épocas de tanta superficialidade e dificuldade de desenvolvimento de uma visão simbólica.

Adriana Santos:  Como a Filosofia pode nos ajudar a entender as outras áreas do conhecimento humano?

Lúcia Helena Galvão: A Filosofia não tem uma área própria; a área da Filosofia é a vida. Ela estimula reflexão e a relação, que são sintomas de uma inteligência ativa e uma compreensão renovadora. Observar a maneira como dirijo meu automóvel pode me dar uma dica sobre a maneira como dirijo minha personalidade, minhas atividades, minhas relações. Observar a minha reação diante das perdas pode me mostrar o quanto conquistei algum grau de contato com algo que nada nem ninguém pode tirar de mim: minha própria essência, raiz de toda segurança e serenidade. Dentro da minha limitada experiência de vida, nunca achei um acontecimento totalmente avesso a uma abordagem filosófica. Ou um acontecimento que nada tivesse a nos ensinar. Filosofia é uma espécie de alfabetização na linguagem da vida.

Poema

Aurora Sagrada
Aurora, hora cinza, áurea hora,
momento de encontro com Deus.
Transborda sobre a natureza
um plasma divino, cinzento,
que preenche, a cada momento,
os seres, qual recipientes.
Neste contraste entre a escuridão e a luz,
em que se sente estar vivendo um sonho,
posso saber aonde este sonho conduz.
Os homens erram ao pensar
que o sangue de Deus se derramou
um só dia sobre a Terra,
pois ele se derrama em todas as auroras,
sem alcançar, por hora, despertar os homens.
Que são os homens, senão somente nomes
que se dá a gotas de aurora,
agora, isoladas e esquecidas
da fonte comum que lhes deu vida?
Gotas são partes do Deus que se derrama,
aprisionadas no tempo e no espaço.
Episódios deste Deus a quem se ama
e a quem se busca rastrear, pelos seus passos.
Querer ser gota faz que inevitavelmente
despedacemos a Deus.
Podemos vê-lo, aos pedaços, pelas ruas,
perplexo, perdido, a esmo,
com saudades de si mesmo,
da totalidade.
Senhor, esse plasma misterioso,
prisioneiro da gota que sou,
vem ao teu encontro sempre, a cada Aurora.
Sonha ser célula de um Ser inteiro e vivo,
e não uma lágrima, entre mil, de um ser que chora
11 fev 2016

ESPECIAL: Politica & Amor. “Falta muitas vezes amor próprio para dizer não à corrupção”

Arquivado em Comportamento, opinião

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John Lennon e Yoko Ono se casaram em 20 de março de 1969 e, no dia seguinte, em plena lua-de-mel no Hotel Hilton, em Amsterdã, segurando tulipas, começaram um protesto pacífico contra a guerra do Vietnã. Eles ficaram nus na cama por uma semana. Foi um ato político em nome do amor altruísta. O evento foi chamado de “Bed in”, ou “John e Yoko na cama pela paz”.

Durante a década de 1970, John e Yoko envolveram-se em vários eventos políticos, como promoção à paz, pelos direitos das mulheres e trabalhadores e também exigindo o fim da Guerra do Vietnã. O casal mais conhecido da história contemporânea também colecionou desafetos. Onze anos depois do bed-in de Montreal, no dia 8 de dezembro de 1980, Lennon foi assassinado à porta do edifício Dakota, em Nova York, por Mark Chapman.

O desfecho trágico envolvendo o assassinato de Lennon é emblemático para pontuar a reflexão que proponho nesta postagem: o que a política tem de congruente com o amor? A temática é oportuna principalmente em tempos nos quais a política e o amor estão tão em baixa. O ódio matou o sonho? Até que ponto é possível governar com amor? É possível governar sem amor?

Conversei com Filipe Celeti. Ele é bacharel e licenciado em Filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela mesma instituição. Editor da Bunker Editorial. Colabora com artigos para o Instituto Ludwig von Mises Brasil (IMB), e tem participado com artigos e podcasts em outros sites e institutos como Portal Libertarianismo, Livre & Liberdade e Estudantes Pela Liberdade (EPL), referentes à educação, política e cotidiano.  Segundo ele, “falta muitas vezes amor próprio para dizer não à corrupção”.

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Filipe Celeti/Arquivo pessoal

Adriana Santos:  A política pode ser amorosa?

Filipe Celeti: A política expressa um modo de amar. O problema com a palavra amorosa é pensar no amor enquanto romantismo, beleza, sutileza, doação, negação de si e muitos outros termos que estão presentes no senso comum. Quando vemos o amor humano se manifestar, enxergamos o ciúmes, a luxúria, os crimes passionais, o egoísmo, a possessividade e uma série de sensações amorosas que diferem do idealismo que envolve o amor. A política é amorosa. Carrega os vícios e as taras, os sonhos e as utopias dos amantes.

Adriana Santos:  A política é compatível com o amor?

Filipe Celeti: Eu vejo cinco compatibilidades entre política e amor. Os insensíveis são como os totalitários: eles não amam e querem que os outros também não amem. Os amantes altruístas são como os socialistas: o outro é louvado para que a individualidade desapareça. Os egoístas são como os conservadores: pretendem impedir que os outros sejam diferentes de seus padrões. Os românticos são como os centristas: são confusos naquilo que desejam ou esperam de si e dos outros. Os amoristas – os que amam plenamente – são como os libertários: querem o máximo de realização pessoal e de realização do outro.

Adriana Santos:  É possível governar com amor?

Filipe Celeti: Só se governa com amor. O importante é perguntar: qual amor? Há quem não ame e queira controlar tudo para que nada se parece com o amor que não compreende. Há quem negue a si mesmo e busque sempre agradar o outro, geralmente governando em nome de um outro dissolvido numa coletividade qualquer. Há quem ame apenas a si mesmo e que seja capaz de governar apenas para si. Há quem esteja confuso, mudando as regras e as suas convicções a todo momento. Há quem ame plenamente a si e aos outros, desejando que todos sejam livres para viver suas vidas plenamente, sem serem negados, perseguidos ou precisarem se esvaziar de si mesmos.

Adriana Santos:  O amor pode ser um ato político?

Filipe Celeti: Certamente! Embora muitas vezes o amor politizado que se busca é mais do que já está vivenciado, presenciado por todos nós. Vivemos numa época do desprezo pelo amor, aquela flor roxa que nasce no coração dos trouxas. Vivemos numa época do egocentrismo, no qual o amor que importa é apenas o amor de si. Como se amar a si mesmo bastasse. Também há o apelo altruísta que no fundo apenas dissolve o amor, visto que não há um ser que o possua em si mesmo para transbordá-lo para o outro. A maioria não sabe amar, fica cedendo aqui ou acolá, tentando equacionar o seu eu e o outro. Amar não é batalhar para impor a si e nem uma abstenção de si. Amar não é uma formalidade ou um teatro. Amar não é viver eternamente conciliando duas formas de amar até a exaustão da insegurança.

Adriana Santos:  A política pode ser um ato de amor.

Filipe Celeti: Sim! Através da política posso efetivar minha insensibilidade buscando cada vez mais poder para controlar a todos. Meu egoísmo encontra sólida base na política para legislar em benefício próprio. Meu altruísmo me motiva a negar a mim mesmo, me tornando a voz de uma minoria silenciada. O romantismo e sua utopia me levam a politicar sem saber muito bem o que desejo, mas tendo a sensação que estou pelo menos tentando. Minha amorosidade pode me levar a lutar contra os que querem impor o modo de amar que possuem a todos.

Adriana Santos:  O amor pode transformar a política?

Filipe Celeti: O amor transforma a política. Nem sempre o amor a muda para o que poderíamos chamar de “melhor”. Há vários amantes, amando de diversas maneiras, com uma base sólida de como devem amar e efetivando o amor que aprenderam a ter. Vence aquele que conseguir conquistar os outros amantes. Presentes, discursos, promessas, trocas de afeto, ofensas, ciúmes para com a nova coligação ou partido do antigo amante, traições, delações premiadas, tudo faz parte do turbilhão amoroso da política. É por isto que falta muitas vezes amor próprio para dizer não à corrupção e amor para com os outros para dizer não ao apelo dos lobbies que visam apenas seus próprios benefícios.

Adriana Santos: Vale a pena ler o artigo “A Política do Amor” do filósofo Filipe Celeti. AQUI

CINEMA, POLÍTICA E AMOR

Falar de amor no campo político gera certo mal-estar. Pelo menos no cinema, a relação política e amor  é quase sempre explosiva. Pedi algumas indicações de filmes consagrados sobre o tema para quem entende do assunto.

Veja a lista com Marden Machado. Ele é jornalista, roteirista e também comentarista de cinema do programa Light News, da Transamérica Light FM, bem como da rádio CBN Curitiba. Participa também dos programas Fale Com Maria, da TV Evangelizar e Caldo de Cultura, da UFPR TV. É autor do livro Cinemarden – Um Guia (Possível) de Filmes, lançado pela Editora Arte e Letra, de Curitiba. Comenta um filme por dia no YouTube.

Marden fez uma edição especial para o blog “Saúde do Meio”. Confira:

 

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“Sindicato de Ladrões”/Divulgação

 

rede de intrigas

“Rede de Intrigas”/Divulgação

 

Eles-não-usam-black-tie

“Eles não usam black-tie”/Divulgação

pra_frente_brasil_01

“Pra frente, Brasil”/ Divulgação

1984

“1984” /Divulgação