15 jun 2015

Relação paciente e psicanalista do Século XXI

Arquivado em Saúde & Literatura

jorge forbes

Vivemos num mundo sem garantias, com riscos e sem as referências de significado que orientavam os laços sociais no século passado. Essa é uma parte da análise proposta pelo psicanalista e psiquiatra, Jorge Forbes, em seu livro “Inconsciente e Responsabilidade – Psicanálise do Século XXI“. O livro é fruto de uma tese de doutorado, mas oferece uma linguagem atual de fácil entendimento para o público leigo acerca das novas relações sociais e, consequentemente, da mudança na relação entre pacientes e psicanalistas.

Confira a entrevista com Forbes e suas considerações sobre o novo paradigma da sociedade e a ideia de uma nova psicanálise necessária, entre outros tópicos enfatizados na obra literária:

Saúde do Meio: Em sua obra, o senhor chama a atenção para a prática de uma nova psicanálise, que dialogue com as transformações do mundo, da população do século XXI. Como funcionava essa relação entre pacientes e psicanalistas?

Jorge Forbes: Há uma mudança fundamental. Até pouco, a perspectiva de quem fazia uma análise era se conhecer melhor. Isso quer dizer que as pessoas buscavam respostas sobre aspectos de si mesmos que ultrapassavam o seu conhecimento, ou que as surpreendiam de alguma forma, buscavam fazer uma análise para conhecer as manifestações ditas inconscientes dessas coisas que lhes eram esquisitas ou ‘mais forte que elas’, como se diz popularmente ‘mais forte que eu’. O que quer dizer que a psicanálise funcionava como a criação de um saber, preparando a pessoa para uma ação mais garantida e tirando-a da variação do inconsciente ou da variação daquilo que ela poderia não saber. Então, análise era garantir melhor a sua ação num conhecimento mais aprofundado sobre si mesmo.

Saúde do Meio: Por que esse modelo de análise não é mais o ideal e se faz necessária, como senhor coloca, ‘uma nova psicanálise’?

Jorge Forbes: Isto não é mais fato hoje em dia porque a matriz do conhecimento mudou de lugar. Nós tínhamos um conhecimento, até pouco tempo, que era passível de ser muito bem estruturado verticalmente, no sentido de padronizado. Ou seja, nós tínhamos pontos referentes de significação que faziam com que nós dividíssemos uma mesma forma de ser e nós pudéssemos dizer o que seria certo, o que seria errado, o que seria uma pessoa adequada, uma pessoa conformada e uma pessoa rebelde. Hoje em dia, nós não temos mais essas matrizes. Elas foram multifacetadas, foram pulverizadas pelo que a gente chama de globalização. Nós não temos mais matrizes de significação, nós não temos mais um laço social, estruturado verticalmente como até 20, 30 anos atrás.

Saúde do Meio: O que muda, hoje, na relação e no perfil do homem que busca análise?

Jorge Forbes: Quem vai procurar uma análise, hoje, não pode esperar ter um conhecimento ajustado para garantir uma ação. Ao contrário, tem que modificar a sua relação com a ansiedade de não ter o conhecimento ajustado para garantir uma ação. Ou seja, a vida do homem ‘desbussolado’ (como costumo dizer), do homem do século XXI, é uma vida com contrato de risco e não com contrato de garantia. Nós saímos de um mundo menos criativo e mais garantido, que era o mundo moderno, e entramos no mundo pós-moderno, que é menos garantido e mais criativo. Esse mundo pós-moderno atual, mais criativo e menos garantido, necessita de um psicanalista que funcione além do Complexo de Édipo, além das significações e que possa fazer com que o seu paciente, no laboratório que é a psicanálise, possa tomar decisões arriscadas e criativas e por elas se responsabilizar. A diferença, portanto, é de 180 graus.

Saúde do Meio: O senhor menciona as mídias sociais e a formação de um mundo sem garantias, onde há riscos a cada segundo. A manifestação do pensamento se dá no terreno do imediatismo, sem possibilidade de voltar atrás. Como o homem contemporâneo pode voltar a ter uma referência, nesse sentido?

Jorge Forbes: Identificar qual seria a referência é um aspecto que estou trabalhando neste momento. Nós já tivemos grandes referências na história da humanidade que eu resumiria, rapidamente, da seguinte forma: primeiro, tivemos o homem natural, com referência na natureza. Depois, o homem religioso, com referência no Deus e nos Deuses. Em seguida, o homem da razão, do Iluminismo, seguido pela quebra de referências, que foi no início do século passado, com a desconstrução Nieztchiana. Atualmente, acredito que estamos caminhando para um segundo tipo de humanismo, não mais baseado na razão, mas baseado no dividir sentimentos. Nesse contexto, o sentimento é comum a todos, mas o significado é singular para cada um. Acredito que esse é o momento que a gente está vivendo – o momento do ressoar. Estamos numa sociedade viral, completamente diferente da anterior, mas que pode fazer com que nós, hoje em dia, não morramos mais por guerras, por revoluções ou por religiões, como diz meu amigo Luc Ferry, mas por outro homem. É o novo amor.

Saúde do Meio: Partindo do nome da obra “Inconsciente e responsabilidade – Psicanálise no Século XXI”, o senhor considera que, no mundo atual, estamos diante da reflexão de que nada é, hoje, como já foi um dia. Qual o impacto disso na vida das pessoas?

Jorge Forbes: Acredito que muito mais pessoas vão fazer psicanálise. Eu diria mesmo que estamos quase no início de uma nova era para a psicanálise. Nós tivemos, nos primeiros 100 anos, um belo exercício no que a gente chama da psicanálise de sentido ou da primeira clínica de Lacan. Agora, temos uma oportunidade única, porque acredito que a psicanálise seja talvez um dos mais potentes discursos para entender a globalização e o homem ‘desbussolado’. Eu só espero que os analistas se lembrem disso, porque eu acho que nós – analistas – ainda estamos em dívida com o homem do século XXI. Assim, é necessário apressar um pouco o passo para gerar respostas a essa modificação essencial às nossas vidas.

Saúde do Meio: Como devemos retrabalhar, por exemplo, os conceitos de ‘inconsciente’ e ‘responsabilidade’ nesse novo momento do século XXI? O senhor acredita que, na atualidade, as pessoas se comprometem menos com as suas decisões e perspectivas?

Jorge Forbes: Inconsciente e responsabilidade eram dois termos que nunca andavam juntos, muito menos na psicanálise, porque responsabilidade era do ponto de vista consciente, e o inconsciente era sempre ligado a uma irresponsabilidade, a uma não legitimidade da pessoa na sua ação, a ponto de ela dizer ‘só se foi o meu inconsciente!”. Hoje em dia, eu vejo que a globalização, ao quebrar essa ideia entre mundo de fora, mundo de dentro, e todas essas dicotomias, exige que nós nos responsabilizemos pelo incompleto do nosso mundo e pelo incompleto de nós mesmos. Ou seja, se cometo um ato falho, ou se me surpreendo, eu devo dizer: “Isso sou eu”.

Saúde do Meio: As mudanças no perfil da sociedade, seus anseios e expectativas, representam um entrave na busca por uma vida melhor? Como o homem moderno pode atuar na busca por soluções, reconhecendo a sua responsabilidade na construção de uma vida qualificada?

Jorge Forbes: Reconhecendo a sua responsabilidade, que essa é uma responsabilidade singular, eu diria que é fundamental, que as pessoas abandonem a ideia malfadada de qualidade de vida. Digo isto porque qualidade de vida é uma tentativa de dizer um bom para todos, como seria um bem viver para todas as pessoas. Eu diria, junto com o filósofo italiano Giorgio Agamben, que é fundamental substituir o termo ‘qualidade de vida’ por ‘vida qualificada’, no qual o substantivo não é mais ‘qualidade’, e sim a ‘vida’. Ou seja, uma vida qualificada está associada à responsabilidade de inventar uma satisfação pessoal e passá-la no mundo

02 jun 2015

Livro esclarece sobre os benefícios da psicoterapia breve em situações de crise

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Conversei com o psicoterapeuta, Eduardo Ferreira Santos, que lançou pela editora Ágora o livro: “Psicoterapia Breve – Abordagem sistematizada de situações de crise”. O autor faz uma retrospectiva histórica, explicando conceitos e critérios de indicação. Além disso, ele analisa o uso de medicamentos em concomitância com o atendimento clínico e apresenta casos em que a psicoterapia breve foi usada com sucesso. Em um capítulo especial, Eduardo trata o uso da abordagem com vítimas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Dividido em nove capítulos, o livro mostra a psicoterapia breve em um enfoque psicodramático como proposta de solução da situação de crise em que se encontram determinadas pessoas, que buscam ou demandam por psicoterapia, principalmente em instituições, ambulatórios de saúde mental e postos de saúde. O psicoterapeuta discute as implicações metodológicas do psicodrama na abordagem e apresenta a proposta de um modelo de ação terapêutica, considerando não só a discussão da indicação do próprio processo como também as fases que envolvem a evolução da psicoterapia breve psicodramática.

Adriana Santos: Há diferença entre psicoterapia e terapia?

Eduardo Ferreira: Não, não há. Na verdade se chama terapia para simplificar, mas o processo é o mesmo, embora o termo terapia queira dizer tratamento e vale para qualquer processo até mesmo uma “quimioterapia”.

Adriana Santos: A psicoterapia breve é indicada em quais situações de crise?

Eduardo Ferreira: Em todas aquelas situações em que um incidente externo (desde uma separação conjugal até um assalto) tenham gerado um desiquilíbrio psíquico que não ocorria antes. Isto é, a pessoa estava bem com seus problemas do cotidiano até que tal acontecimento tenha sido tão traumático que rompeu os mecanismos habituais de adaptação e defesa que todos nós temos para enfrentar as vicissitudes da vida.

Adriana Santos: Quais os benefícios da psicoterapia breve?

Eduardo Ferreira: A Psicoterapia Breve trabalha com objetivo determinado (restabelecer o equilíbrio psíquico anterior) e com um tempo definido (aproximadamente 12 a 15 semanas), durante os quais procura-se encontrar o motivo inconsciente mais profundo que, associado ao trauma propriamente dito, causou o estado de estresse e depressão.

Adriana Santos: Como a psicoterapia pode ajudar as pessoas que passam por grandes traumas emocionais, como exemplo, o abuso sexual e o estresse pós traumático?

Eduardo Ferreira: A Psicoterapia, através de seus métodos de resolução, procura transformar a pessoa que se sente uma vítima em sobrevivente, incorporando a experiência traumática em sua história de vida, mostrando o quanto tal fato pode ter contribuindo para seu crescimento, como ocorre com as diversas frustrações que vivemos no desenvolver de nossa vida.

Adriana Santos: Qual o profissional apto para sugerir a psicoterapia breve?

Eduardo Ferreira: Qualquer profissional da área médica ou psicológica ou até mesmo um familiar ou amigo que perceba o estado de estresse de desiquilíbrio que a pessoa esteja vivendo. No entanto, para aplicar a Psicoterapia Breve, exige-se do profissional, psiquiatra ou psicólogo, uma grande experiência em lidar com estas situações.

Adriana Santos: Crianças e adolescentes podem se beneficiar da psicoterapia breve?

Eduardo Ferreira: Sim, desde que acompanhadas por um profissional experiente

20 maio 2015

Suicídio em pauta com André Trigueiro

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O jornalista do programa de televisão “Cidades e Soluções”, André Trigueiro, confirmou presença no XVII Congresso Mineiro de Psiquiatria, entre os dias 11 e 13 de junho, em Belo Horizonte, para o lançamento do seu livro “Viver é a Melhor Opção – A prevenção do suicídio no Brasil e no mundo” da Editora Correio Fraterno.

André reúne na obra elementos de convicção baseados em estudos recentes da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde para afirmar a importância da prevenção do suicídio em todos os setores da sociedade.

O suicídio tem provocado curiosidade e reflexão em função de casos recentes, como a morte do ator Robin Williams, as referências ao autoextermínio na cerimônia do Oscar 2015, a ação do copiloto do avião que caiu nos Alpes franceses. Isso sem falar nos casos de morte por overdoses e comuns referências sobre a falta de sentido para a vida.

O livro traz como foco a prevenção do suicídio através da informação e enfoca o valor da vida, trazendo também os fundamentos do espiritismo sobre o que é o viver e a realidade da vida após a morte.

“O silêncio em torno do assunto – um abominável tabu – agrava a situação. Falar de suicídio, portanto, pode salvar vidas. O suicídio atinge gente de todas as idades, credos, nível de renda ou escolaridade. A boa notícia é que ele é prevenível em 90% dos casos. Mas para que se reduzam as estatísticas de autoextermínio (mais de 800 mil casos por ano no mundo) é preciso informação, planejamento e, acima de tudo, a coragem de se retirar o véu que há séculos encobre esse tema” explica o jornalista em entrevista para o site da Associação Brasileira de Psiquiatria.

André Trigueiro também participa do XXXIII Congresso Brasileiro de Psiquiatria, ente os dias 4 e 7 de novembro, em Florianópolis, com o tema:  “Como o jornalista deve abordar o tema suicídio”.

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