30 dez 2015

Brasil ainda é um modesto exportador de queijos, ocupando a posição nº 53, diz especialista

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IPHAN

Um dos maiores especialistas em vinhos do Brasil,  José Osvaldo Albano do Amarante tem também uma grande paixão por queijos – tema sobre o qual ministra palestras em todo o país desde 1993. Viajante inveterado, ele foi colecionando observações sobre os queijos que consumiu e aprofundou suas pesquisas ao longo das últimas três décadas. O resultado desse estudo está no livro Queijos do Brasil e do mundo para iniciantes e apreciadores.

Trata-se de uma obra bem informativa, com dados sobre produção, exportação e consumo dos principais queijos do Brasil e do mundo. O autor inclui ainda informações sobre compra, armazenamento, serviço, consumo e uso na culinária, além de receitas famosas que levam o queijo como principal ingrediente.

Durante o seu longo aprendizado, Amarante teve a oportunidade de visitar um grande número de queijarias e museus de queijo no exterior. Assim, a publicação, considerada referência na área, aborda os tipos de leite e os fatores que garantem sua qualidade, mostra a classificação do queijo de acordo com a espécie de massa, conta a história do queijo no Brasil e classifica-os por tipo: de vaca, de cabra, de ovelha e de búfala. Ele comenta ainda a produção de países como França, Itália, Espanha, Portugal, Suíça, Áustria, Alemanha, Holanda, Bélgica, Inglaterra, Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Grécia e Estados Unidos, com dicas de viagem e dados sobre produtores.

Conversei, por e-mail, com Amarante sobre alguns pontos abordados no livro. Confira:

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Divulgação

Adriana Santos: Qual a origem do queijo?

Amarante: O queijo vem regalando os paladares humanos desde épocas bastante remotas – seguramente a partir do momento em que certos mamíferos passaram a ser domesticados pelo homem, no período Neolítico, há cerca de 10 mil‑12 mil anos. Inicialmente, a partir de leite de caprinos e ovinos, no Oriente Médio, e em 3000 a.C. os sumérios da Mesopotâmia já registravam cerca de 20 queijos frescos diferentes. Pouco tempo depois, o queijo também começou a ser elaborado na Europa, local de origem da vaca moderna.

Adriana Santos: Qual o melhor queijo tipo exportação: vaca, cabra, ovelha ou búfala?

Amarante: Como podemos ver no item nº 4 abaixo, o Brasil é sobretudo um país importador de queijos e não exportador.

Adriana Santos: O que mais influencia na qualidade do queijo?

Amarante: Partindo do princípio que o mestre queijeiro seja competente, o fator que mais influencia a qualidade de um queijo é a qualidade de sua matéria-prima principal: o leite. Por sua vez, a qualidade do leite depende de vários fatores: espécie, raça e alimentação do gado, clima, estação do ano e, em especial, se o leite é cru ou pasteurizado. A espécie e raça de gado deve ser preferencialmente, leiteiras.

Com relação ao clima/estação do ano, podemos dizer que o leite de vaca criada no pasto é melhor do que o de vaca em estábulo, onde elas passam o inverno. A altitude também é um fator muito importante. Muitos dos melhores queijos brasileiros são elaborados em regiões montanhosas, tais como: Queijo Minas Artesanal e Queijo Artesanal Serrano. A alimentação do gado envolve a vegetação apropriada e a pureza da água consumida. As ervas e flores dos pastos dão frescor no aroma e sabor incomparável.

Finalmente, o último e importantíssimo aspecto: o emprego de leite cru ou pasteurizado. A pasteurização permite o transporte do leite a distâncias maiores, estabilizando-o e assegurando uma vida mais longa ao queijo. O processo elimina certos micro-organismos patológicos do leite e destrói a flora natural, possibilitando a inoculação de fermentos selecionados. O seu maior inconveniente é que as características gustativas do produto tornam‑se menos marcantes, para desgosto dos amantes de queijo. A diferença entre utilizar leite pasteurizado ou cru não é muito importante para queijos naturalmente suaves, já em um casca lavada é fundamental. Na Europa, notadamente na França, boa parte de seus mais renomados queijos é feita, há séculos, de forma tradicional – ou seja, fabricada em fazendas com leite cru, não pasteurizado. Ele não é danoso, se originado de animais sadios e transformado em queijo dentro de 24 horas. No Brasil e nos Estados Unidos, a fabricação de queijo com leite cru só é permitida para aqueles com cura superior a dois meses.

Adriana Santos: O Brasil é bem avaliado com relação aos queijos vendidos no mundo?

Amarante: Infelizmente, o Brasil segundo esse site www.worldstopexports.com/cheese-exports-country/3237, é apenas um modesto exportador de queijos, ocupando a posição nº 53, bem abaixo de nossos vizinhos: Argentina (21º), Uruguai (22º) e Chile (44º).

Adriana Santos: Minas Gerais é o estado brasileiro com o melhor queijo?

Amarante: Poderíamos dizer que sim, por vários motivos. Pelo pioneirismo, por ser o maior produtor de queijos, além de ser também o maior produtor de queijos finos. Além de possuir a maioria das queijarias artesanais do país. Tudo isso, devido ao estado possuir uma grande quantidade de regiões montanhosas, com clima propício á produzir laticínios. A indústria queijeira brasileira iniciou‑se praticamente em fins do século XIX, em Minas Gerais, graças à imigração de europeus não ibéricos. Os pioneiros foram dois queijeiros holandeses, que desenvolveram o nosso tão apreciado Queijo do Reino, baseado no Edam holandês. Até então, só dispúnhamos do queijo Minas, elaborado artesanalmente em diversas fazendas espalhadas nesse Estado.

Contudo, o grande salto de qualidade de nossos queijos deu‑se com a vinda de várias famílias dinamarquesas, que se instalaram no Sudeste de Minas Gerais, no início do século XX. Esses imigrantes fundaram algumas das mais tradicionais empresas queijeiras do país com projeção, até hoje estabelecidas no mercado nacional de queijos finos: Skandia e Campo Lindo (ambas adquiridas pela francesa Bongrain, também dona da Polenghi), Dana/Luna (extinta) e Símbolo (também extinta). Inicialmente, eles produziram o nosso tão conhecido queijo Prato, em seguida o Estepe, o Gruyère, o Gorgonzola e o Camembert, entre muitos outros.

Os maiores estados produtores de queijos finos (que não commodities, como a grande maioria dos queijos brasileiros) são: Minas Gerais (principalmente na região sul, montanhosa), líder com mais de 75%, São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Adriana Santos: Qual o melhor queijo mineiro: canastra, serro ou frescal?

Amarante: Existem três tipos de queijo Minas, típicos do estado de Minas Gerais. O primeiro é o Minas Frescal, que é um queijo de alta umidade, a ser consumido fresco, isto é, jovem. É obtido de leite pasteurizado, com a coalhada não cozida, não prensada e não maturada. Bastante perecível, com validade de 8–10 dias, em refrigeração abaixo de 8ºC.

O Minas Padrão (Meia Cura, Curado ou Prensado) é obtido também de leite pasteurizado e com coalhada não cozida, porém a massa é prensada e maturada. Quando armazenado embalado e refrigerado a 1–3ºC, dura até 90 dias.

Por último, temos o Minas Artesanal, queijo elaborado conforme a tradição histórica e cultural da região do estado em que é produzido, a partir de leite integral de vaca fresco e cru. Atualmente, são sete as regiões tradicionais demarcadas pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA): Araxá, Campo das Vertentes, Canastra, Cerrado, Serra do Salitre, Serro e Triângulo Mineiro (a mais recente). No restante do estado, o queijo curado é classificado simplesmente como Minas Padrão.

O Serro foi a primeira região a ser demarcada. O Canastra talvez seja o mais conceituado de todos. Entretanto, até o presente, o melhor Minas Artesanal que tive a oportunidade de saborear foi o queijo Serra do Salitre Imperial de João José de Melo.

Adriana Santos: Qual a sua opinião sobre a exclusividade de Minas vender o queijo produzido no estado?

Amarante: Durante décadas, o queijo Minas Artesanal ficava praticamente obrigado a ser comercializado sem o Selo de Inspeção Federal (SIF), portanto não podia ir além dos limites do estado de Minas Gerais. Por ser produzido a partir de leite cru e ter um período de maturação inferior a 60 dias, contrariava frontalmente a legislação brasileira. Recentemente, a publicação da Instrução Normativa nº 30, de 7/8/2013, do MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, visou aliviar um pouco as exigências em relação à comercialização desses queijos artesanais, em complemento à IN nº 57 de 15/12/2011.

Algumas das medidas estipuladas foram:

• Permitir que os queijos artesanais tradicionalmente elaborados a partir de leite cru sejam maturados por um período inferior a 60 dias, desde que estudos técnico‑científicos comprovarem que a redução do período de maturação não compromete a qualidade e a inocuidade do produto. (mantida, conforme a IN nº 57/2011)

• O novo período de maturação dos queijos artesanais será definido após a avaliação dos estudos pelo órgão estadual ou municipal de inspeção industrial e sanitária, reconhecidos pelo Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI‑POA). Essa cláusula foi flexibilizada, tendo em vista que anteriormente a redução do tempo de maturação só podia ser autorizada por um órgão federal (MAPA).

• Fixar que a produção de queijos elaborados a partir de leite cru, com período de maturação inferior a 60 dias, fique restrita a queijarias situadas em região de indicação geográfica certificada ou tradicionalmente reconhecidas e em propriedade livre de tuberculose, de brucelose e com controle de mastite. (mantida, conforme a IN nº 57/2011)
Como consequência direta da IN nº 57/2011, a produção de queijos artesanais passa a ser incluída no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produto de Origem Animal (SISBI‑POA). Essa inclusão, que se inicia pelas propriedades instaladas em Minas Gerais, estado onde se concentra a maioria das queijarias artesanais do país, permitirá que os produtos com o selo do Serviço de Inspeção Municipal (SIM) ou do Serviço de Inspeção Estadual (SIE) sejam comercializados em todo o território nacional, com equivalência ao selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF).
Felizmente, já se consegue adquirir ótimos queijos Minas Artesanal, fora das Minas Gerais.

Adriana Santos: Como conservar por mais tempo o queijo?

Amarante: A duração de um queijo está intimamente relacionada a sua consistência. Quanto mais duro ele for, mais longevo será, pois tem menos água. Por exemplo, um Parmesão é muito mais longevo que um Prato, que por sua vez, dura mais que um Minas Frescal.
O queijo deve ser armazenado corretamente para manter suas características originais. A maioria deles deve ser guardada em gaveta própria dos refrigeradores, onde eles permanecem na temperatura e na umidade corretas (5–10ºC; 80–95%). Devem estar bem fechados, acondicionados em sacos plásticos ou envolvidos em papel-alumínio. Atenção: nunca leve o queijo ao congelador. Ele vai ressecar em demasia, perdendo sua textura e prejudicando irreversivelmente seu flavor. Os queijos azuis são os mais delicados no armazenamento, pois podem ressecar rapidamente. Eles precisam ficar em locais mais úmidos, a 95%. Poucos queijos, como o Parmesão, o tipo Suíço, o Provolone e o Queijo do Reino em lata, podem ser conservados fora da geladeira, desde que em locais frescos (18ºC).

Adriana Santos: Queijo mineiro combina com qual bebida?

Amarante: Os queijos Minas Artesanal combinam muito bem com vinhos. Apesar de muitos acharem que ele vai bem com vinho tinto, na realidade o vinho branco harmoniza melhor que o tinto. A acidez do vinho branco associa-se perfeitamente com a do queijo. Prefira tintos maduros a jovens, e tintos leves a concentrados, pois muito tanino traz amargor ao queijo.

Adriana Santos: Qual o melhor queijo do mundo?

Amarante: Essa pergunta é muito difícil, pois vai depender do gosto de cada um. No meu caso particular, os melhores queijos, dependendo do leite empregado, são esses:
– Vaca: Mont d’Or (francês)
– Cabra: Rocamadour (francês)
– Ovelha: Serra da Estrela (português)

Uma pergunta um pouco menos difícil, seria essa: qual a melhor classe de queijos do mundo. Nesse caso, a maioria dos queijófilos (amantes do queijo) diria sem dúvida: a classe de queijos de massa mole e casca lavada.

São queijos de massa mole, não cozida, não prensada ou ligeiramente prensada, curada por micro-organismos superfíciais, que surgem durante a lavagem, deixando a casca geralmente pegajosa e alaranjada. A lavagem da casca é realizada durante a cura, com água, soro, salmoura, óleo, vinho branco, sidra, cerveja, conhaque, grappa, etc. O sabor e o odor estão entre os mais pronunciados de todos.

Essa classe abrange, principalmente, exemplares europeus. Alguns exemplos de queijos dessa classe, são:
– Mont d’Or, Époisses, Pont l’Évêque, Livarot, Munster, Maroilles (franceses)
– Taleggio (italiano)
– Vacherin Mont d’Or (suíço)
– Limburger, Romadur (alemães)
– Herve, Herve Remodou (belgas)

No Brasil, alguns exemplares dignos de nota seriam: o Pont l’Évêque da Serra das Antas, o
Taleggio da Serra das Antas e o recente mineiro Embriago d’Alagoa.

 

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09 nov 2015

“A Caminhada”: livro ajuda crianças na hora de dormir

Arquivado em Saúde & Literatura

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A cena se repete cotidianamente na casa de grande parte das famílias com crianças pequenas. À noite, mesmo depois de colocar o pijama, escovar os dentes e ir para cama, elas continuam com a “corda toda”, cheias de energia para brincar e conversar. O sono não vem e a paciência dos pais se vai.

Com o norte-americano Grant Maxwell, Ph.D. em Língua Inglesa e pai de um menino muito ativo, não era diferente. Noite após noite ele se sentava ao lado da cama do pequeno Mason, procurando maneiras de ajudá-lo a se acalmar e adormecer. A partir dessa experiência pessoal e estudos sobre desenvolvimento infantil e psicologia, Maxwell escreveu o livro “A Caminhada”, que desde o lançamento em 2013, foi bem acolhido por pais e filhos e recentemente ganhou enorme popularidade nos Estados Unidos. A edição brasileira, está sendo lançada pela Coquetel e chega às bancas, livrarias e lojas virtuais em outubro, por R$ 14,90.

O livro conta a aventura do garotinho Mason, seus dois cachorrinhos, Rex e Totó, e um novo amigo (a criança que escuta a história) em meio a uma longa jornada por florestas, cavernas, lagos, montanhas, pedras preciosas, que o faz relaxar e embarcar em um mundo de sonhos.

Além da narrativa envolvente, o autor dá dicas aos pais de como fazer a leitura para embalar o sono das crianças, como deitá-las para relaxar o corpo e como pronunciar as palavras de maneira segura e suave, inclusive bocejando de vez em quando. Ao longo do texto, se encontram indicações sobre qual é o melhor momento para se usar diferentes técnicas: quando aparece a indicação “nome” entre parênteses, quem lê deve pronunciar o nome da criança que está ouvindo a história; nos pontos grafados em itálico, a leitura deve ser em um tom de voz baixo e relaxante, e naqueles em que há a indicação “bocejo”, deve-se emitir um leve bocejo para induzir a criança ao sono.

O autor conta que durante seus estudos leu muito sobre a análise de sonhos junguiana, e lhe pareceu natural aplicar suas pesquisas para tornar o adormecer uma tarefa mais tranquila. “Eu descobri que induzir um estado de sonho engana o cérebro, fazendo-o pensar que está adormecido e levando o corpo a relaxar. Com base nessa teoria, criei a história de um menino que sai para uma caminhada, que o faz percorrer um mundo de sonhos, tornando, dessa forma, mais fácil para a criança chegar ao inconsciente”, explica Maxwell.

Conversei, por e-mail, com o autor Grant Maxwell. Confira:

Grant Maxwell com o filho

Adriana Santos: Como a leitura direcionada por ajudar a acalmar as crianças mais agitadas?

Grant Maxwell: “A Caminhada” ajuda crianças a adormecer porque as leva para um estado de sonho, que provoca o sono. A história conduz suavemente as crianças ao sonho porque a repetição de palavras as acalma.   O caminho é similar ao de algumas medicações para dormir: o cérebro pensa que está sonhando e faz com que a pessoa adormeça mais facilmente. Mas, ao invés de usar medicamentos, no livro nós usamos palavras e imagens.

Adriana Santos: A criança é convidada a interagir com o livro?

Grant Maxwell: Na narrativa há indicações onde a pessoa que está lendo insere o nome da criança que está ouvindo a história. Usando o nome da criança, convida-a a imaginar que eles estão caminhado com Mason (personagem principal) e seus dois cachorros. A técnica ajuda as crianças a se identificarem  com a narrativa e  faz com que elas se sintam dentro da história. Elas são puxadas para a história pelas aventuras e pela qualidade exploratória do conto. Quando Mason e seus cachorros estão cansados e vão dormir, as crianças naturalmente experimentam a mesma sonolência física e mental dos personagens. Como as crianças querem fazer parte da história, então eles se sentem sonolentas também.

Adriana Santos: Como seu filho se relaciona com os livros

Grant Maxwell: Meu filho ama os meus livros. Ele está extremamente orgulhoso que há um livro sobre ele. Ele chama A Caminhada “do livro dele”. Nós ainda lemos o livro frequentemente (o livro foi lançado em 2013 nos Estados Unidos com o título The Walk). O divertido é que agora ele mesmo me conta a história. Nós também lemos juntos diversas outras histórias. Ele tem seis anos e, diariamente, traz livros da biblioteca da escola. Especialmente, os que envolvem Star Wars e outros super-heróis. Como a maioria dos pequenos garotos, ele passa boa parte do tempo imaginando que é Luke Skywalker (personagem do Star Wars) ou Spider-Man. Mas, sempre que ele está inquieto para dormir, nós lemos A Caminhada para acalmá-lo.

Adriana Santos: Qual a linguagem utilizada no livro?

Grant Maxwell: Eu tentei usar uma linguagem simples, mas evocativa com muitas repetições e similar a um poema ou uma música, incluindo nomes de várias árvores, pedras e animais. Dessa forma, a obra, além de ajudar a relaxar, ensina as crianças. Eu vejo o livro como uma jornada interna dentro da profunda inconsciência. Este é o lugar onde nós vamos nos nossos sonhos todas as noites, onde nos transformamos em animais e somos livres dos regras da vida diária. Nós passamos muito tempo ensinando as crianças a agirem como adultos: como andar, pensar, se comportar. Mas, me parece que eles têm muito para nos ensinar sobre valores profundos e imaginação e é importante para nós embarcarmos com eles e mostrarmos que há histórias onde as regras do dia a dia não se aplicam. O uso da imaginação permite que não apenas crianças, mas também seus pais sejam mais felizes e mais saudáveis. Não apenas comprometidos com o lado racional e prático da vida, mas também para experimentar o admirável e profundo mundo da infância. Minha esperança com “A Caminhada” é ajudar as pessoas a encontrarem esse espaço imaginativo com seus filhos. Não apenas na hora de colocá-los para dormir, mas para ajudá-los a fazer os sonhos e a vida dos filhos um pouco mais doce.

Adriana Santos: Qual o seu conselho para os pais que gostaria de vivenciar experiências na arte de contar histórias?

Grant Maxwell: O livro A Caminhada foi criado como uma ferramenta para ajudar pais, avós e aqueles que cuidam das crianças. A obra funciona melhor se a pessoa é calma e presente na vida da criança. Se o pai está distraído ou fica pensando no trabalho ou no que ele vai assistir na TV depois que colocar a criança para dormir, não vai estar tão envolvido como um pai que está dando total atenção ao filho e prestando atenção em seu tom de voz e respiração enquanto lê a história. A tia da minha mulher disse uma vez “A criança faz o que você faz e não o que você diz”. Esse foi o melhor conselho que eu já recebi. No caso da história, se o leitor está agitado, a criança ficará igualmente agitada. Pedir para ela se acalmar e relaxar enquanto você adulto está inquieto não vai funcionar. Mas se o leitor está confortável, deitado no travesseiro, lendo com uma voz calma, então a criança terá a mesma atitude. O livro é para ajudar não apenas as crianças a relaxar, mas também seus pais.

06 nov 2015

Pediatria moderna receita amor, disciplina e altruísmo para o desenvolvimento da criança

Arquivado em Saúde & Literatura

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O Saúde&Literatura apresenta:  Pediatria hoje. Orientações fundamentais para mães, pais e cuidadores. Nesta obra, o pediatra Sylvio Renan Monteiro de Barros selecionou os principais textos publicados em seu site, o Blog do Pediatra, e no portal Minha Vida. Seu olhar cuidadoso e sensato, permeado pelos ensinamentos de D. W. Winnicott e também pelas mais recentes atualizações da medicina, constitui um farol no caminho de pais, mães, cuidadores, educadores e profissionais de saúde.

A pediatria é a medicina do ser em crescimento. Mas, afinal, até que idade os pais devem levar os filhos ao pediatra? Para o dr. Sylvio Renan Monteiro de Barros, o especialista deve acompanhar o paciente e cuidar dele desde seu nascimento até que se transforme em um adulto.

O objetivo do livro é facilitar a compreensão dos leitores da necessidade de zelar pelo crescimento e desenvolvimento dos filhos por meio do amor, da proteção, do altruísmo e da disciplina.

Dividido em seis seções, o livro aborda questões como o mundo dos bebês, mitos e verdades sobre a imunização, saúde, bem-estar e alimentação infantil. O pediatra mostra ainda que a criança que brinca e aprende vive feliz e faz considerações sobre os dilemas da modernidade. Ao longo da obra, os temas se misturam, e a leitura cruzada dos artigos favorece a construção de uma estrutura fundamental para o bem-estar de bebês, crianças e adolescentes.

Temas polêmicos, como a escolha do parto normal ou cesáreo, também são avaliados pelo autor. A obra inclui ainda argumentações sobre a importância da amamentação para a saúde das crianças. Na avaliação do autor, enquanto o bebê se alimenta apenas com leite materno, a introdução de outros alimentos deve ser adiada, pelo menos, até o sexto mês de vida. Afinal, diz ele, o leite materno tem todos os nutrientes de que ele precisa. Pesquisas realizadas em vários países indicam que a mortalidade infantil está altamente relacionada com a passagem precoce do aleitamento materno para a introdução dos chamados alimentos complementares.

O livro traz também uma seção dedicada à obesidade. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que 35% das crianças entre 5 e 9 anos estão obesas.  A seleção de textos contemplados na obra inclui também orientações do pediatra sobre a importância das brincadeiras saudáveis para as crianças, da leitura desde a barriga e da organização para o desenvolvimento dos pequenos. Nos artigos sobre os dilemas da modernidade, o autor alerta para questões delicadas, como a ditadura da beleza, os cuidados exagerados e o consumismo desnecessário na hora de presentear.

Conversei com o autor Sylvio Renan Monteiro de Barros, médico e especialista em Pediatria. Atua em consultório na cidade de São Paulo desde 1976. Confira:

Adriana Santos: Qual é o papel do pediatra no desenvolvimento físico e mental da criança?

Sylvio Renan: O papel do pediatra, além de tratar das doenças da crianças, é fornecer todas as orientações sobre alimentação, vacinações, medicações e orientações para que a criança venha a ser um adulto saudável, digno e socialmente integrado.

Adriana Santos: Falta pediatra no Brasil?

Sylvio Renan: Nos últimos anos houve uma diminuição expressiva do número de médicos que optavam pela pediatria, levando à falta destes profissionais em nosso país. Tal diminuição teve como consequência um aumento do valor pago aos profissionais. Tal compensação estimulou um maior número de médicos recém formados optando pela pediatria. Acredita-se que nos próximos anos tal deficiência não seja mais considerável.

Adriana Santos:  Até quando os pais, mães e responsáveis devem levar as crianças ao pediatra:

Sylvio Renan: Muito embora tenha-se no Brasil o hábito de levar as crianças ao pediatra em seu início de vida (principalmente no primeiro ano), as associações de pediatria, tanto no Brasil quanto em outros países, recomendam que o paciente pediátrico seja seguido regularmente até completar 21 anos de idade.Cabe aqui reforçar que a pediatria é a medicina do ser em crescimento

Adriana Santos: Cesária ou parto normal?

Sylvio Renan: Na visão do pediatra, sem dúvida alguma: PARTO NORMAL. No parto normal usualmente o bebê nasce no pico de maturidade fetal, pronto para evitar as agressões do meio externo ao qual ele não está habituado. Durante a passagem pelo canal vaginal o bebê sofre expressão total de seu tórax, eliminando praticamente todo o líquido (amniótico) que ele mantinha em seus pulmões, estimulando e facilitando ao início da respiração. Praticamente todos seus órgão já estão em condições de suportar o meio externo, evitando-se assim icterícias, intolerâncias, além de apresentar uma maior imunidade recebida da mãe.

Adriana Santos: Por que muitas mães ainda temem as vacinas?

Sylvio Renan: Eu considero as vacinas como a maior contribuição que a medicina já trouxe ao ser humano. Graças a elas, muitas doenças já diminuiram importantemente sua morbidade e letalidade. Como exemplo cito a varíola, doença comum no passado que foi plenamente eliminada, não havendo há vários anos qualquer caso de varíola em nosso planeta. O mesmo se projeta para a poliomielite, já bem controlada, presente atualmente só em alguns países da  Africa. Minha visão é: toda vacina que não apresentar risco importante à saúde humana e que tenha um risco/benefício positivo deve ser tomada por todos para os quais ela é indicada.

Adriana Santos:  Há alguma contra indicação?

Sylvio Renan: Existem atualmente 2 contraindicações formais à vacinação:

1. alergia a um de seus componentes.

2. qualquer deficiência de imunidade, seja ela congênita, adquirida ou terapêutica (transplantes, oncoterapias, etc.)

Adriana Santos: A obesidade infantil é responsabilidade dos pais?

Sylvio Renan: A obesidade infantil é responsabilidade de todos:

* pais, que devem educá-los para uma boa e equilibrada alimentação, e utilizar tal alimentação com forma de receber nutrientes, e não como prêmio por algum feito realizado ou respondendo aos apelos publicitários.

* pediatras, dando aos pais e cuidadores as orientações das melhores formas de nutrição, com relação ao alimento em si, aos horários de alimentação e aos excessos que deverão ser sempre evitados.

Estado, fiscalizando a produção de alimentos, monitorizando publicidades exageradas, que mostram o alimento não como fonte de nutrição, e sim como o melhor atalho para a felicidade.

Todos somos responsáveis pelo aumento da obesidade infantil, que tem conexão direta com o aumento da hipertensão arterial no adulto, com aumento dos casos de doenças cardio-vasculares (AVCsa, infartos), bem como o diabetes.

Adriana Santos: Qual o seu conselho para os pais e mães de primeira viagem?

Sylvio Renan: Alimentem-se com equilíbrio, moderação. Escolham sempre pratos saudáveis, com balanço de proteínas, carboidratos e gordura. Se os pais se alimentarem bem (não no sentido de quantidade, e sim da qualidade), seus filhos automaticamente se tornarão também moderados ao comer. Bem sabemos que a criança não aprende com o que lhe dissemos, e sim como o fazemos.

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