Categoria "acolhimento"
18 mar 2019

As novas tecnologias ajudam no tratamento, mas não substituem a presença do profissional de saúde

saúdeA comunicação é a capacidade que o homem tem de comungar idéias, sonhos, projetos de vida e experiências culturais. São conjugações e construções de sentidos, por meio do diálogo, o principal reconhecedor e legitimador do outro na convivência. A compreensão da comunicação como dialógica é, sem dúvida, um dos modelos mais influentes da comunicação, que remonta à filosofia grega de Platão e Sócrates. É por meio do diálogo, que o cidadão conquista a capacidade de intervir nos processos da natureza e sua historicidade.

No entanto, os artefatos tecnológicos, como celulares, redes sociais, aplicativos e outras tantas possibilidades de mediação de sentidos, alteraram, significativamente, as distâncias geográficas e temporais e, consequentemente, as formas de interação social. O que significa dizer que as nossas experiências estão cada vez mais mediadas pelos inventos tecnológicos. Nesse sentido, o principal impacto da contemporaneidade na comunicação é uma grande valorização dos meios tecnológicos e uma pouca reflexão sobre os sentidos tecnológicos.

Diante de uma valorização excessiva das mediações tecnológicas e das urgências nas relações sociais e interpessoais, a comunicação perde algumas características fundamentais: a capacidade de ouvir e aceitar o outro na sua complexidade. Em se tratando de saúde, o atual cenário é ainda mais preocupante, já que a comunicação entre o profissional de saúde e o paciente se afirma como elemento essencial na sua promoção. O acolhimento, a escuta, o afeto, a cooperação e conversa operam criando um modo próprio de governar os processos terapêuticos, de estabelecer espaços de negociação, possibilitando a troca de conhecimentos.

Quando voltamos um pouquinho no tempo, temos a sensação que a relação entre o médico, o paciente e os seus familiares tinha bases mais sólidas, contribuindo para o sucesso do tratamento oferecido pelo profissional. Infelizmente, aquele médico da família, que acompanhava todos os seus integrantes ao longo da vida, não existe mais. Talvez alguns poucos profissionais, com bases na linha mais tradicional da medicina, ainda consigam estabelecer relações afetivas duradouras com seus pacientes.

Uma das hipótese para o “esfriamento” da relação médico-paciente seja o avanço dos artefatos tecnológicos, que proporciona notáveis benefícios ao diagnóstico precoce de várias doenças, salvando vidas. No entanto, ao mesmo tempo, as máquinas que promovem o prolongamento da vida distanciam as relações entre profissionais de saúde e pacientes ávidos por uma atenção diferenciada. Outra hipótese muito presente no meio acadêmico é o foco na especialização médica, subtraindo a correlação entre as partes e a totalidade.

Segundo o autor do livro “Câncer no reto: meu paciente e eu”, Geraldo Magela Gomes da Cruz, a relação médico-paciente é movida por amor. Por isso, a necessidade do contato físico e o aperfeiçoamento das técnicas de comunicação com foco no atendimento médico. Ele relata que nas décadas de 60 e 70 os cânceres retais eram operados sem muitos recursos tecnológicos. Diagnosticado o tumor, o paciente era submetido a uma cirurgia altamente mutiladora. As consequências eram: impotência sexual e incontinência urinária. “Como tudo era empírico, as mentiras ficavam soltas: “a colostomia vai ser revertida quando seus eosinófilos atingissem 50% no sangue circulante”, dentre outras tantas. Hoje, com o Google, isto não seria possível. O paciente, hoje em dia, não suporta esperar por uma resposta do médico. Ele quer uma resposta para suas dúvidas ou alívio para sua dor agora!”, esclarece o autor.

O coloproctologista Geraldo Magela alerta que “perdemos a noção de tempo e de espaço: todos estamos ligados instantaneamente e independentemente de onde estejamos. Parece que o médico está presente e disponível o tempo todo! Por isso, é importante aprimorar e saber usar os métodos de comunicação, se não vai estar fadado a permanecer desatualizado e alheio às tendências”.

Ainda segundo o autor do livro “Câncer no reto: meu paciente e eu”, as novas tecnologias, como por exemplo as redes sociais, ajudam no exercício das atividades médicas, mas nada substitui a presença física do profissional. “A rede social vai facilitar a relação, em tempo (imediatamente) e espaço (seja lá onde o médico estiver). O paciente que está com dor não pode esperar um médico atender um telefone fixo 3 ou 4 horas depois, é preciso que ele atenda o Whatsapp ou SMS e na hora dê uma solução, orientação”, finaliza.

13 mar 2019

Vídeo caseiro pode auxiliar especialistas a diagnosticar autismo, segundo pesquisa

autismoUma pesquisa publicada no Plos Medicine (https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1002705) apontou que vídeos caseiros das crianças podem auxiliar consideravelmente na elaboração do diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA), inclusive melhorando o prognóstico, principalmente em caso de reconhecimento precoce dos sintomas de TEA. A efetividade da análise e a sua praticidade podem ser uma alternativa muito interessante para adiantar o início do tratamento.

A pesquisa segue a premissa de que as crianças, ao serem colocadas num ambiente estranho, vão, naturalmente, agir de maneira distinta do seu costume, o que pode interferir na avaliação clínica. No entanto, durante a pesquisa, ao mostrar para especialistas vídeos caseiros das crianças em seu ambiente familiar, a precisão do diagnóstico dos profissionais envolvidos foi de até 80%.

Outra grande vantagem da gravação caseira é a possibilidade da análise das imagens ser feita pelos mais diversos profissionais, servindo de recurso para o estabelecimento de uma avaliação construída em equipe. De acordo com a idealizadora do Espaço Nardin, a psiquiatra Emmanuely De-Nardin, a possibilidade dos diferentes profissionais envolvidos no tratamento compartilharem suas observações e avaliações das imagens contribui para a formulação de uma hipótese diagnóstica e a construção de um plano terapêutico mais adequados. “Sabemos hoje que alcançamos melhores resultados clínicos com pacientes autistas quão mais precoces forem as intervenções, que devem envolver uma boa articulação entre uma equipe multidisciplinar. Os vídeos caseiros podem ser um potencial recurso para auxiliar na identificação precoce do quadro e na atuação dos profissionais envolvidos. No entanto, é importante ressaltar que eles são um recurso adicional e de nenhuma maneira substituem as consultas presenciais” afirma De-Nardin.

A descoberta é importante principalmente devido à possibilidade de agilizar o processo da comprovação do diagnóstico, tendo em vista que o tratamento é mais efetivo quando começado cedo. “Cabe a nós também trabalhar para que os diversos atores sociais que convivem com as crianças, como os pais, cuidadores e professores estejam informados sobre os sinais clínicos mais precoces, de modo que as imagens possam ser levadas até uma equipe clínica capacitada da forma mais breve possível”, esclarece Emmanuely.

O tratamento formulado para cada paciente

Apesar de ser um indicativo importante, o diagnóstico preciso só pode ser dado com uma avaliação presencial. “O autismo é um transtorno de amplo espectro. Crianças com o mesmo diagnóstico podem necessitar de tratamentos completamente diferentes e as particularidades de cada paciente devem ser respeitadas para a construção de um plano terapêutico”. No Espaço Nardin, por exemplo, avaliamos cada paciente em suas necessidades específicas para aquele momento, junto com as famílias e as escolas”, enfatiza Maria Helena De-Nardin, psicopedagoga e diretora clínica do Espaço Nardin.

28 fev 2019

Como identificar os sinais de depressão no idoso?

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O Brasil é campeão de casos de depressão na América Latina. Quase 6% da população, um total de 11,5 milhões de pessoas, sofrem com a doença, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).  A quantidade de casos de depressão cresceu 18% em dez anos. Até 2020, esta será a doença mais incapacitante do planeta, na previsão da OMS.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que pessoas, entre 60 e 64 anos de idade, representam a faixa etária com maior proporção (11%) de diagnóstico de depressão. E este índice só vem aumentando com o passar dos anos. Mas como identificar os primeiros sinais de depressão, principalmente em idosos? Entreviste o Dr Jonas Jardim de Paula, professor de psicologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Confira:

Adriana Santos: Como identificar alguns sintomas de depressão em idosos?

Dr. Jonas Jardim de Paula: Os sintomas de depressão nos idoso costumam ser um pouco diferente dos apresentados em crianças, adolescentes e adultos. A grande diferença consiste-se nos sintomas físicos ou somáticos da doença, como mudança no apetite, sono, desejo social e energia. Muitas dessas mudanças ocorrem no envelhecimento típico, e nem sempre são indicativas de um transtorno depressivo. Sendo assim os sintomas mais importantes são cognitivos e afetivos, como tristeza, desesperança, retraimento social, perda de prazer ou motivação pelas atividades e falta de energia.

A depressão em idosos pode ser consequências de doenças crônicas e degenerativas?

Sim, ela pode. Quando fazemos o diagnóstico de depressão há um especificador chamado “depressão devido a outra condição médica”. Ele é usado quando para o profissional que faz o diagnóstico do paciente todo quadro depressivo é decorrente da doença em questão. Um dos exemplos é a depressão na doença de Alzheimer. Contudo a presença de uma doença, sobretudo as crônicas, predispõe o paciente a desenvolver um quadro de depressão tradicional. Nesse sentido a depressão pode ser tanto uma causa ou consequência da saúde geral do paciente.

A medicação é sempre necessária nos casos de depressão em idosos?

Na maioria das vezes sim. O melhor tratamento disponível atualmente é a combinação entre as medicações atuam no controle dos sintomas depressivos (há várias classes diferentes, selecionadas à critério médico) e a psicoterapia, sobretudo um tipo específico chamado terapia cognitivo-comportamental. Esse seria por assim dizer o “padrão-ouro” do tratamento. Ele gera o melhor benefício ao paciente, de forma mais ágil, mais duradoura, com menos efeitos adversos. Consiste-se também no melhor custo-benefício. Pode-se usar também uma das duas de forma isolada, a psicoterapia ou a medicação, mas com ganho clínico em geral pior que a combinação de tratamentos. Outras intervenções possíveis mas pouco utilizadas, e reservadas a pacientes que não respondem ao tratamento habitual são a estimulação magnética Transcraniana e a Eletroconvulsoterapia.

A mudança de hábitos prejudiciais à saúde pode ajudar na prevenção da depressão?

Podem. Sabemos que o sedentarismo, a baixa participação social, ausência de rotina e poucas atividades cognitivas (sobretudo aquelas que nos fazem pensar descobrir coisas novas) são fatores de risco para se desenvolver depressão. Um estilo de vida física, mental e socialmente ativo pode ajudar na prevenção do transtorno.

Qual o papel da família?

A família tem um papel central na depressão do idoso. Por anos a depressão nessa fase do desenvolvimento foi interpretada como um medo ou receio do fim da vida, uma angústia existencial. Estudos clínicos com os pacientes idosos contudo retratam que a depressão parece um quadro mais calcado nas relações pessoais e sociais que propriamente a esse senso de finitude. Uma das queixas mais frequentes dos idosos deprimidos é a pouca participação da família (filhos e netos) em momentos positivos do dia a dia. Por outro lado famílias disfuncionais, sobretudo os atritos e desavenças entre filhos, netos e irmãos são um fator de risco importante para a depressão do idoso.

As terapias alternativas podem ajudá-los no enfrentamento da doença?

Terapias alternativas não são tratamentos válidos e carecem de qualquer lastro científico para seu uso. Contudo, ainda assim, foram adotadas pelo sistema de saúde a despeitos dos protestos da maior parte das entidades profissionais. Elas podem ajudar no enfrentamento da doença, mas nunca como tratamento em si. As terapias alternativas em geral funcionam como placebos, ou seja, geram benefícios clínicos indiretos para o paciente, não dependendo da terapia em si, mas do próprio paciente. Eu reservaria as mesmas como uma opção APÓS o tratamento com as técnicas cientificamente validadas.

Idosos com depressão foram jovens deprimidos?

Não necessariamente. Há quadros de depressão com início precoce, e são os que compreendemos melhor nesse momento. Tudo indica que essa depressão de início mais precoce, na adolescência o vida adulta jovem, pode se cronificar, gerando um transtorno chamado transtorno depressivo persistente ou apresentar múltiplos episódios ao longo da vida, adentrando a velhice. Contudo há um segundo tipo de depressão chamado de depressão de início tardio, onde os primeiros sintomas ou o primeiro episódio ocorre após os cinquenta anos de idade. Essa depressão parece ser biológica e psicologicamente diferente da depressão que se inicia mais precocemente. Ela apresenta pior resposta aos tratamentos e é um fator de risco para o desenvolvimento de outras doenças ou transtornos, incluindo quadros de demência.

Qual o melhor tratamento contra a depressão?

Como comentado brevemente no tópico três, o melhor tratamento é a combinação de medicações que gerem algum benefício aos sintomas (dentre elas os inibidores seletivos de recaptação de serotonina) com a psicoterapia, em especial a terapia cognitivo-comportamental. Essa seria a melhor abordagem inicial à maioria dos pacientes.

Depressão tem cura?

Não. Depressão não é uma doença propriamente dita, como uma infeção, cardiopatia ou neurodegeneração. Ela é compreendida atualmente como um transtorno, um conjunto de sintomas ou sinais, válidos e confiáveis, que comprometem significativamente o funcionamento, bem estar ou saúde do paciente. Apesar de termos descoberto muito sobre o desenvolvimento da depressão sua causa não é clara. Em geral é difícil desenvolvermos tratamentos que curam se não temos muita certeza das causas. Contudo o tratamento da depressão é eficaz na redução e alívio dos sintomas, melhor a qualidade de vida e bem estar do paciente, promove maior funcionalidade no dia a dia e deve ser adotado quando o diagnóstico faz-se presente.

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