Categoria "Comportamento"
02 jul 2015

Liberar o consumo de cerveja no Mineirão é uma boa ideia?

Arquivado em Comportamento

mineirao4

Liberar o consumo de cerveja no Mineirão é uma “boa ideia”? Segundo o presidente da Comissão de Prevenção e Combate ao Uso de crack e outras drogas da Assembleia Legislativa, o deputado Antônio Jorge, a liberação é um retrocesso e mostra o “poder de fogo” da indústria do álcool que movimenta nada menos do que 500 bilhões de dólares, no mundo, a cada ano.

Conversei com o deputado. Ele já foi secretário de Saúde de Minas Gerais e um defensor das políticas púbicas contra o abuso de drogas lícitas e ilícitas. Antônio Jorge alerta sobre os perigos do consumo abusivo de bebidas alcóolicas entre jovens  e faz duras críticas à publicidade que incentiva o consumo prematuro de bebidas alcóolicas por adolescentes. Homens e mulheres, segundo pesquisas divulgadas no “Ciclo de Debates Políticas sobre Drogas e a Juventude” da Assembleia Legislativa” começam a beber por volta dos 13 anos.

Confira a entrevista:

Audiência pública Comissão de saúde 16.03

Adriana Santos: Os defensores da liberação da bebida alcoólicas  argumentam que a medida atrairia um público maior aos estádios, favorecendo não só os torcedores que gostam de assistir às partidas acompanhados de cerveja, mas também os clubes de futebol. Na sua opinião, os interesses privados dos grandes clubes prejudicam o entendimento sobre os prejuízos do consumo de álcool em grandes eventos de massa?

Deputado Antonio Jorge – Em Minas, avançamos muito grande com a proibição da bebida alcoólica nos estádios. No entanto, a restrição que tivemos, de certa forma afrontada pela Fifa, foi uma interrupção. Acabou o momento da Copa e agora retroagimos ao debate.

Na semana passada, a Comissão de Combate ao Crack e a Outras Drogas, que eu presido, realizou na ALMG o “Ciclo de Debates Políticas sobre Drogas e a Juventude – Prevenção: O X da Questão”.    O professor Sérgio de Paula Ramos, ao proferir a palestra magna,  apresentou dados muito preocupantes obtidos em pesquisa realizada pela Escola Paulista de Medicina.  Perguntaram a jovens de 18 a 25 anos quando haviam começado a beber e eles responderam que, em média, aos 15,3 anos. Em seguida perguntaram o mesmo aos jovens de 14 a 17 anos, a geração seguinte, e a resposta foi 13,9.

Essa pesquisa confirma que no Brasil o álcool é a droga de entrada para os jovens. Pensando-se na saúde pública, nosso dever é criar leis e fiscalizar o cumprimento delas, com o objetivo de nesse caso reduzir o consumo de bebidas alcoólicas. É claro que o interesse da indústria do álcool é o inverso. Que cada um se pergunte de que lado quer ficar.

Adriana Santos: A cerveja pode celebrar a paz nos estádios?

Deputado Antonio Jorge – Seguramente o estádio é um espaço da grande paixão nacional que é o futebol. Por isso, acredito, não deveria ser utilizado como espaço para propagandear a indústria da cerveja, vinculando a bebida ao esporte. Lamento mais ainda que técnico e jogadores da Seleção, durante anos considerados os melhores do mundo, se apresentem como garotos propaganda de marcas de cerveja.

Adriana Santos: Os defensores da liberação do consumo de bebidas alcoólicas nos estádios alegam que não há dados que comprovem qualquer relação entre o consumo de bebidas e o aumento da violência. Eles têm razão?

Deputado Antonio Jorge – Há pesquisas da Organização Mundial de Saúde que desmentem essa afirmação. O uso nocivo do álcool resulta em 2,5 milhões de mortes a cada ano. Trezentos e vinte mil jovens, entre 15 e 29 anos, morrem de causas relacionadas ao álcool, o que corresponde a 9% de todas as mortes nessa faixa etária. O álcool é o 3º fator de risco para o desenvolvimento de doenças. O álcool está ligado a sérios problemas sociais e questões de desenvolvimento, incluindo violência, negligência, abusos infantis e absenteísmo no trabalho.

No Brasil,  sobre álcool e violência os dados são os seguintes: 36% dos suicidas têm alcoolemia positiva; 48% das pessoas que se envolveram em agressão física no último ano disseram-se sob efeito do álcool, fora as que estavam, mas não disseram; 56% das mulheres agredidas em casa reportaram que seu cônjuge, no momento da agressão, estava alcoolizado; em 76% dos processos criminais, o autor, a vítima ou ambos estavam alcoolizados; e 82% das vítimas fatais no trânsito estavam relacionadas ao álcool.

As pessoas têm o direito a uma vida familiar, comunitária e de trabalho, protegida de acidentes, violências e outras consequências negativas do consumo de álcool. Qualquer arcabouço legal ou política pública sobre álcool e drogas que tenha por objetivo essas medidas estará no caminho certo. Quando se diminui o consumo de álcool em uma dada comunidade, diminui-se, na mesma proporção, os índices de violência urbana.

Adriana Santos: O senhor faz severas criticas ao Conselho Nacional de Regulamentação Publicitária (Conar) e aos fabricantes de cerveja que patrocinam eventos esportivos e defende o fim desse tipo de propaganda, a exemplo do que foi feito com o cigarro. A proibição das propagandas é o principal caminho da prevenção contra o abuso de bebidas alcoólicas?

Deputado Antonio Jorge – Ninguém discute a proibição do álcool. As tentativas na história mostraram problemas graves, do ponto de vista do controle, do tráfico de bebidas alcoólicas. Mas o fato é que regular o acesso, restringir e disciplinar o uso, não estimular o exemplo, tudo isso está ao nosso alcance. Há algumas posturas municipais que podem contribuir. Há questões que nós, da Casa Legislativa de Minas, podemos contribuir. Infelizmente não podemos regular sobre tudo. A  regulação de propaganda, por exemplo, é atribuição do ente federal. Com o  nosso desenho federativo, com a autonomia das esferas de governo, os papéis das atribuições de legislar em cada esfera de governo ficaram limitados. O espaço para legislar da Assembleia – os temas que temos autoridade constitucional para legislar – é muito pequeno. Esse tema da regulação das propagandas somente cabe ao Congresso. Se a nossa Casa fizer uma propositura de lei regulando a propaganda da cerveja, seguramente, vai ser declarada inconstitucional no dia seguinte pela indústria, ainda que a Casa a aprovasse. É prerrogativa exclusiva do Congresso Nacional regular matérias dessa natureza. Regulou delegando ao Conaf, o que, em vários aspectos há  muita contradição. Temos atribuições restritas, mas temos, sim, espaço para atuar junto à sociedade e para legislar. A ALMG tem espaço, as câmaras municipais têm espaço para legislar sobre posturas. Em alguns estados americanos não se pode beber em mesas instaladas nas calçadas. Não se pode beber em público. Mesmo em países de alto consumo de bebida alcoólica, como a Inglaterra, onde o consumo per capita de cerveja é muito alto, maior que o nosso, só se bebe internamente nos pubs, não em público, e até meia-noite. Portanto regular o uso, regular o acesso, é uma contribuição.

Adriana Santos: Em audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte sobre a venda de bebida alcoólica em estádios, o promotor de Justiça Fernando Abreu afirmou que a liberação representaria um retrocesso. “O consumo de álcool potencializa a violência e aumenta o número de ocorrências nos jogos. Toda e qualquer medida favorável à comercialização interna  é um retrocesso”. Na sua opinião, qual o motivo de tantos projetos em favor da liberação da cerveja nos estádios de futebol?

Deputado Antonio Jorge –  À pressão de grupos empresariais. A indústria do álcool opera US$ 500 bilhões por ano no mundo; a do tabaco, US$ 350 bilhões. Estamos falando aqui do comércio de drogas licitas, mas que matam e impactam fortemente no setor saúde. Estamos falando de saúde pública, de saúde coletiva. Alem disso, reafirmo que mais que considerar como um ponto de vendas, para a indústria da bebida alcóolica, o estádio e o futebol criam uma asssociação muito poderosa do ponto de vista publicitário. A atividade salutar do esporte favorece muito a indústria no que tange às suas estratégias de aumento do consumo junto a juventude.

29 jun 2015

Liga da Justiça em nova missão no Hemocentro de BH

Arquivado em Comportamento, saúde

liga da justiça

No dia 4 de julho, às 14 horas (Alameda Ezequiel Dias, 321 -Centro), os heróis da Liga da Justiça vão vão estar reúnidos em nova missão no Hemocentro de Belo Horizonte. Desta vez, as doações de sangue serão feitas em nome do Hospital Militar. O policial militar exerce uma profissão de risco e pode precisar de uma hemotransfusão a qualquer momento. Por isso, os voluntários heróis uniram as forças do bem para aumentar  o saldo de sangue da instituição. Bacana, né?

Sangue é um “remédio” diferente dos outros: não se fabrica em laboratórios, não se compra em farmácia – somente pode ser obtido por meio de doação de um ser humano a outro. E para ter sangue em estoque é necessário contar com a solidariedade humana. A todo instante, pessoas sofrem acidentes, necessitam de cirurgias de urgência, de transplantes etc. Além disso, alguns pacientes – como os aqueles que têm anemias falciformes, hemofilia e outras doenças crônicas – precisam, constantemente, de receber transfusão de sangue e hemocomponentes.

Podem doar sangue pessoas entre 16 e 69 anos. Pessoas com mais de 60 anos somente poderão doar caso já tenham realizado uma doação antes dos 60 anos, independente do sexo, e devem respeitar o intervalo mínimo de seis meses entre as doações. Saiba mais: HEMOMINAS

26 jun 2015

Brasil ainda não tem consenso sobre descarte correto de medicamentos

Arquivado em Comportamento

descarte

Restos de medicações sem o destino correto podem ocasionar, por exemplo, o uso inadvertido por outras pessoas resultando em reações adversas graves e intoxicações. De acordo com o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas, o Sinitox, os medicamentos ocupam o primeiro lugar entre os agentes causadores de intoxicações desde 1996.  Além disso, o meio ambiente é agredido com a contaminação da água, do solo e dos animais.

Atualmente, está sendo discutido no âmbito da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) o funcionamento do sistema de descarte de medicamentos no país. O objetivo é que a população tenha alternativa apropriada para o descarte seguro e ambientalmente correto das sobras dos medicamentos por falta de uso ou com prazo de validade vencido.

Entrevistei o presidente do Conselho Federal de Farmácia, Walter da Silva Jorge João, sobre os perigos (para a saúde e para o meio ambiente) gerados pelo descarte incorreto de medicamentos vencidos, avariados e as suas sobras e em que estágio encontra-se a construção da Logística Reversa de Medicamentos.

No Brasil, ainda não há acordo setorial legalizado sobre descarte de medicamento domiciliar. Para a legalização na ambiência domiciliar, é necessária uma ampla discussão sobre as diretrizes e responsabilidade compartilhada.

cff2

Adriana Santos:  Quais os impactos para a saúde e o meio ambiente do descarte incorreto de medicamentos feito, atualmente, pela maioria dos brasileiros através do lixo comum ou da rede pública de esgoto?

Walter Jorge João: Descartar incorretamente medicamentos que não estão em uso e que perderam a validade representa um perigo em potencial para a saúde das pessoas, porque esses produtos podem contaminar os lençóis freáticos, os riachos, ribeirões e rios, voltando, depois, para a população que, sem saber, passa a consumi-los, de novo, direta ou indiretamente. Importa realçar que os metabólitos não são eliminados no processo de tratamento de esgotos. Os resultados deste erro podem ser a resistência microbiana, as reações adversas, as intoxicações, entre outros problemas, sem contar as agressões ao meio ambiente, por meio da contaminação da água, do solo e de animais.

Adriana Santos: O que é sistema de logística reversa de resíduos de medicamentos? Quais as principais dificuldades para a implantação no Brasil?

Walter Jorge João: A logística reversa é um meio que o Brasil adotará, com vistas a dar uma destinação correta aos medicamentos que precisam ser descartados. Consiste em se realizar a coleta dos resíduos sólidos e devolvê-los ao setor empresarial – no caso dos medicamentos, à indústria farmacêutica – para que sejam reaproveitados, ou para que tenham outra destinação final adequada.

As dificuldades para a implantação da logística reversa têm origem na própria complexidade da proposta, vez que abrange todos os envolvidos com o medicamento – dos produtores aos usuários. A maior dificuldade concentra-se na não aceitação em arcar com todos os custos da destinação final e adequada dos resíduos, por parte da indústria farmacêutica. Tanto que a indústria pediu um prazo para discutir a proposta.

Adriana Santos: Até que ponto a indústria e as farmácias estão colaborando na implantação do sistema?

Walter Jorge João: O Brasil está construindo um acordo setorial para a implementação da logística reversa que abrange todos os envolvidos com o medicamento (o usuário, as farmácias, as distribuidoras e as indústrias farmacêuticas) em total consonância com a Lei 12305, de 02 de agosto de 2010, que dispõe sobre o assunto. Representantes de todos esses segmentos estão participando ativamente das discussões sobre a logística reversa, e esta já é uma forma de colaboração. O que se busca é a elaboração de um acordo entre todas as partes envolvidas, com o compromisso de que ele seja cumprido. O CFF tem sido um participante ativo das discussões sobre a logística reversa e será, sempre, um incentivador do acordo.

Adriana Santos:  Quais os perigos do consumo de medicamentos fora da data de validade?

Walter Jorge João: Alguns medicamentos, depois de abertos, perdem o efeito, ao fim de um determinado tempo. Outros têm o prazo de validade previsto pelo fabricante. O perigo do consumo fora do prazo é o de a terapia não apresentar nenhuma eficácia, expondo o seu usuário a riscos, como o de a sua doença ser prolongada, de sofrer uma recidiva, ou até de morrer.

Adriana Santos:  Como as pessoas devem descartar os medicamentos vencidos ou sobras de medicamentos usados em tratamentos prescritos?

Walter Jorge João: O ponto de partida para um descarte correto é jamais jogar os medicamentos no lixo comum, na pia, nem no vaso sanitário. Antes, é recomendável que as pessoas procurem os farmacêuticos, nas farmácias, para obter informações sobre como proceder para fazer o descarte adequado. Os medicamentos devem ser levados em suas embalagens originais para as farmácias que participam de algum programa de descarte. A destinação final adequada dos resíduos de medicamentos é a incineração ou os aterros industriais. Mas a maioria dos Municípios, ainda, não dispõe de programas voltados para o descarte.

Importa realçar que, entre os agentes causadores de intoxicações, os medicamentos ocupam o primeiro lugar, segundo o Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas (Sinitox). O descarte incorreto pode contribuir para o surgimento desses problemas. Realço, ainda, que o uso racional de medicamentos deve estar no núcleo das discussões sobre o descarte. O uso racional diminuiria drasticamente o volume do descarte.

Página 164 de 167«1 ...160161162163164165166167Próximo