Categoria "opinião"
08 nov 2015

Mineração e tragédias em Minas Gerais. Até quando?

Arquivado em Meio Ambiente, opinião
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Arquivo pessoal

OPINIÃO. Texto: Marcos Paulo de Souza Miranda, coordenador da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

“Minas Gerais tem o seu próprio nome ligado à mineração, atividade que durante o apogeu do ouro e do diamante sustentou, em boa parte, a economia de Portugal. Nos dias de hoje, sem a fartura de pedras e metais preciosos, o minério de ferro é uma das bases da economia do Estado. Mas um lado funesto decorrente das atividades minerárias ao longo de mais de três séculos de exploração é ainda pouco conhecido: a perda de vidas humanas e a destruição do meio ambiente em episódios recorrentes na história do povo mineiro.

Tratando sobre a extração de ouro no Morro de Pascoal da Silva, em Vila Rica, em 1717, o Conde de Assumar deixou registrado em seu diário que os negros faziam “huns buracos mui profundos aonde se metem, e pouco a pouco vão tirando a terra para a lavar; porém esta sorte de tirar ouro he mui arriscado, porque sucede muitas vezes cahir a terra e apanhar os negros debayxo deitando-os enterrados vivos”.

O Barão de Langsdorff, ao percorrer região de Mariana em 1824, registrou: “passamos por um vale pobre e árido, por onde ocorre o rio São José, turvo pela lavação do ouro e em cujas margens se veem montes de cascalhos, alguns até já cobertos de capim. É difícil imaginar uma visão mais triste do que a deste vale, outrora tão rico em ouro”.

Em meados de 1844, na Mina de Cata Branca, município de Itabirito, à época alvo da exploração aurífera por uma empresa britânica, houve o desabamento da galeria explorada e soterramento de dezenas de operários escravos. Segundo os registros, dias depois do acidente ainda eram ouvidas vozes e gemidos dos negros em meio aos escombros. Ante a dificuldade de resgate, foi tomada a decisão de se desviar um curso d’água para inundar a mina, matando os pobres trabalhadores sobreviventes afogados, ao invés de espera-los morrer de fome.

Sobre o fato, José Pedro Xavier da Veiga deixou registrado nas suas célebres Efemérides Mineiras: “E lá estão enterradas naquele gigantesco túmulo da rocha as centenas de mineiros infelizes, que encontraram a morte perfurando as entranhas da terra para lhe aproveitar os tesouros. A mina conserva escancarada para o espaço uma boca enorme rodeada de rochas negras e como que aberta numa contorção de agonia”.

Em 21 de novembro de 1867, na Mina de Morro Velho, em Nova Lima, um desabamento matou dezessete escravos e um trabalhador inglês. Dezenove anos mais tarde, em 10 de novembro de 1886, a história se repetiu em Morro Velho. Mais recentemente, rompimentos de barragens nas minas de Fernandinho (1986) e Herculano (2014), em Itabirito; Rio Verde (2001), no Distrito de Macacos, em Nova Lima; e da Mineração Rio Pomba (2008), em Miraí, redundaram em dezenas de outras mortes e prejuízos irreversíveis ao meio ambiente.

No último dia 05 de novembro de 2015, em Mariana, o rompimento de duas barragens da empresa Samarco soterrou quase integralmente o Distrito de Bento Rodrigues, ceifou vidas, destruiu dezenas de bens culturais e danificou de forma severa os recursos ambientais de vasta extensão da Bacia do Rio Doce. Todos sabem que a história é mestra da vida e os fatos adversos por ela registrados devem servir de alerta para o futuro, para que os erros não sejam repetidos.

O aprendizado com os equívocos de antanho deveria impor ao setor minerário da atualidade uma completa mudança de paradigmas. Afinal, temos condições de sermos autores da nossa própria história e não podemos admitir a repetição reiterada desses desastres como algo normal, inerente às atividades econômicas de Minas Gerais.

Entretanto, percebemos que ainda se avultam as inconsequentes condutas induzidas pela ambição do lucro fácil e pelo desdém aos direitos alheios, não raras vezes secundadas pela omissão ou incompetência de autoridades públicas responsáveis pelos processos de licenciamento ambiental, que se contentam com a adoção de tecnologias ultrapassadas em empreendimentos de alto risco, que raramente são fiscalizados.

A anunciada flexibilização do licenciamento ambiental pelo Governo de Minas, com o nítido propósito de beneficiar, entre outros, o seguimento dos empreendimentos de mineração, segue na contramão do que a sociedade mineira espera e precisa: segurança e respeito aos seus direitos.

É hora de dizer um basta.”

07 nov 2015

Tragédia em Bento Rodrigues: quem vai pagar a conta?

Arquivado em opinião, SUS, Vlog
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Foto: Corpo de Bombeiros/divulgação

OPINIÃO Quem vai pagar a conta dos prejuízos causados pela tragédia em Bento Rodrigues? Já posso garantir que a conta não será barata, principalmente porque envolve recursos que deveriam ser disponibilizados ao meio ambiente e à saúde da população local. As autoridades precisam colocar no papel, por exemplo, os gastos públicos com o Sistema Único de Saúde (SUS). Você sabia que o SUS sempre está presente nos desastres ambientais, mobilizando centenas ou milhares de profissionais da saúde?

São várias perguntas sem resposta. A tragédia envolvendo o rompimento de barragens não é novidade em Minas Gerais. A população geralmente paga a conta social, ambiental e emocional. Alguém sabe o que aconteceu com as famílias das últimas tragédias?

Fiz algumas considerações sobre a tragédia que já marcou profundamente a história de omissão ambiental do nosso estado. Veja:

06 nov 2015

Vale a pena? Biólogo questiona os impactos da tragédia de Mariana

Arquivado em Comportamento, opinião

Arquivo pessoal

OPINIÃO. Texto sobre a tragédia que atingiu o subdistrito da cidade histórica de Mariana, Bento Rodrigues, deixando centenas de desabrigados, além de desaparecidos e pelo menos uma morte.

Autor: Lucas Perillo, biólogo, licenciado pela UFMG em 2007 e Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela UFMG em 2011. Realizou sua dissertação no Caraça. Participou da confecção do Plano de Manejo da Unidade de Conservação. Atualmente é diretor da Bocaina Biologia da Conservação e aluno de doutorado na UFMG.

“Sou mineiro, parte do povo das Minas Gerais. Essa é alcunha que tenho orgulho de carregar. Indica o lugar que nasci, indica o lugar que escolhi para construir minha história de vida e remete às escolhas de vida de meus antepassados. Mas junto com esse grande orgulho vem preso um fardo pesado. Há séculos somos aqueles que sustentam o mundo com produtos vindos do minério. Seja para cobrir igreja de dourado, seja para engordar lastro de bancos europeus ou para aumentar as pilhas de minérios nos depósitos chineses. Primeiro foi o ouro e agora o famoso minério de ferro. Nada mudou. Só a escala. Agora temos que tirar toneladas no solo brasileiro, solo mineiro, para esmolar algumas centenas de dólares. Ontem, (05/11/2015), o minério de ferro fechou em alta de 0,14%! Notícia boa! O com pureza de 62% está sendo negociado no porto de Qingdao a impressionantes US$ 49,18! Bem próximo do valor que pagamos lá em casa pela conta de água e de luz por mês. O mesmo valor que custa uns 13 quilos de prego. Daqueles feitos de ferro mesmo…

Bem, no mesmo dia escuto a notícia na rádio. Barragem de rejeito rompe em Mariana. A história dessa barragem é triste, comove, mas não é a primeira na vasta biografia mineira. Ainda na graduação, fui estagiário em uma expedição para monitorar os danos do rompimento de uma barragem na Zona da Mata de Minas Gerais. Fiquei impressionado com o alcance do prejuízo ambiental, prejuízo social e prejuízo cênico. Imagens que me marcaram. Minério em Mariana; bauxita em Miraí; buracos infinitos em todo o quadrilátero. Parece ser essa a nossa sina.

Meu primeiro contato com essa mineradora foi há alguns anos. Foi em uma reunião nesta mesmíssima mina que gerou o teimoso rejeito. Fui por ser biólogo, acompanhando a Associação de Moradores de Brumal, distrito de Santa Bárbara (lugarejo que orgulho ser morador esporádico desde a infância). O assunto era sobre um projeto de captação de água para um mineroduto que levaria o produto até os portos do Espírito Santo. Primeiro fizemos um tour na mina. O passeio de ônibus foi como se fosse a bordo de um trem fantasma. O guia ia explicando e exaltando a beleza daquele magnífico empreendimento. Fomos recebidos com a maior cordialidade do mundo. Segundo a perfumada funcionária, as contrapartidas eram infinitas e o prejuízo desprezível. “O único impacto é a abertura de valas na Terra”, dizia o Gerente-geral de Meio Ambiente e Licenciamento da empresa. “É, acho que eles tem razão!” pensaram vários dos simples moradores que foram buscados em casa para o passeio e que agora estavam escutando bonitas palavras do senhor de terno, naquela sala com ar condicionado e comida e bebitda de graça. Afinal, não vejo problema algum em construir uma bomba de dezenas de metros de altura no meio de um lugarejo que tem casas do século XVIII para tirar 24 horas por dia água limpa do rio que nasce logo ali acima na serra e levar para o outro lado da montanha para servir de carregador de minério. O projeto parecia tão surreal que escutava tudo aquilo de maneira descrente. Nunca imaginei que o projeto iria pra frente. E foi. Hoje convivemos em Brumal com este monstro que foi construído sem a permissão da população. Bastou molhar a mão das pessoas certas. As reclamações dos tradicionais moradores são intermináveis. Ganhamos um vizinho, daqueles barulhentos que nunca sabem a hora de parar. E para esse não adianta chamar a polícia.

Semana passada estava em um dos picos do Caraça. Lá de cima já lamentava o tamanho da cicatriz causada pela mina, mesmo esta explorando dentro da zona de amortecimento de uma das mais importantes unidades de conservação do país. Tão perto… Dava pra escutar o constante barulho das sirenes de aviso de marcha à ré dos caminhões fora de estrada. Lá de cima nem pareciam tão grandes assim. Mas isso não é problema. RPPN não precisa de zona de amortecimento não é mesmo? Tirei algumas fotos. O céu tava carregado de impureza mas dá pra ver. E ai vai minha pergunta. Vale a pena? Sem demagogia conservacionista. Pode ser até financeiramente falando. Vale a pena? Quanto custa uma cidade? E a sua história? Quanto valeria a água que seria gerada por essa montanha em 10 anos. E 500 anos depois? Será que vale mais do que alguns bilhões de dólares? É só fazer as contas. O que vale mais: uma tonelada de minério ou um mês de passagem de ônibus? Mas o que sobra é o famoso passivo ambiental. Famoso, mas ninguém considera. Esse cálculo que nunca é feito. Ninguém pensa nisso. O minério de ferro desta mina precisa ser concentrado, é minério pobre (itabirito), tem aproximadamente 45% de teor de ferro. Nem vou levar em consideração todos os serviços ambientais prestados pelas cangas e os geossistemas ferruginosos. Tem gente mais qualificada pra isso. Quem tiver interesse basta acessar

VÍDEO

Sinto pelos afetados diretos desse rompimento. Sinto por Bento Rodrigues. Sinto por todos os mineiros por mais este capítulo impregnando nossa história com lama e metal pesado. E sinto por todos que ainda não têm a visão crítica para afirmar que tem muita coisa errada neste processo.

Quero saber: só os mineiros vão pagar a conta desta vez”.

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