Categoria "Saúde do Trabalhador"
05 maio 2021

O que é síndrome de burnout? Entenda sintomas e tratamentos

Divulgação

O que é síndrome de burnout? Você provavelmente já ouviu falar da expressão, pois é um tema frequente nos debates da internet ligados à saúde psicológica no trabalho.

Se você já passou por uma situação de estresse e cansaço extremo provocado por pressões do emprego, provavelmente sabe o que é síndrome de burnout e nem se dava conta disso.

Muito recorrente em profissões que demandam muita pressão e responsabilidade, como a de médico, professor e jornalista, essa síndrome pode gerar consequências graves e comprometedoras. Por isso, deve ser tratada e discutida com transparência com o público.

Neste artigo, falaremos um pouco sobre o que é síndrome de burnout, quais são suas principais causas, sintomas e as melhores formas de prevenção e tratamento. Leia até o fim para entender melhor!

O que é síndrome de burnout?

A síndrome de burnout, também conhecida como síndrome do esgotamento profissional, é um distúrbio psicológico causado por um estresse relativo ao trabalho.

Pode ser proveniente de altas demandas de tarefas, jornadas laborais longas, situações de pressão por resultados positivos, relações interpessoais difíceis com companheiros de trabalho ou com clientes e disfuncionalidades em virtude de problemas pessoais ou emocionais diversos na vida pessoal.

Os desgastes emocionais e psicológicos provocados pela síndrome podem transcender o ambiente de trabalho e prejudicar a vida pessoal e cotidiana.

Entender as causas da síndrome de burnout é de fundamental importância, pois o distúrbio pode gerar uma série de consequências mais graves, como depressão profunda e crises de ansiedade.

Segundo pesquisa, as principais profissões vulneráveis ao burnout são as seguintes: profissionais da saúde em geral;

jornalistas;
advogados;
professores;
psicólogos;
policiais;
bombeiros;
carcereiros;
oficiais de Justiça;
assistentes sociais;
atendentes de telemarketing;
bancários;
e executivos.

Tendências para o perfeccionismo também pode ser uma causa relevante para o burnout. É comum o profissional desenvolver auto-cobranças exageradas para provar competência a si mesmo e aos seus superiores.

Dessa forma, o que poderia ser algo positivo, como tratar as funções laborais com esmero e competência, pode se tornar algo negativo e com sérias consequências à saúde mental do trabalhador.

Como prevenir a síndrome de burnout?

Em muitos casos, os profissionais acabam não aproveitando o momento de lazer e descanso de maneira adequada. Dessa forma, acabam sendo consumidos e extenuados de forma exagerada pelo trabalho.

Portanto, é fundamental que o trabalhador saiba dosar sua jornada de trabalho e procure valorizar os tempos de lazer entre família e amigos, como forma de descarregar as tensões do emprego.

Seguem algumas dicas de como prevenir a síndrome de burnout:

Encontrar tempo para praticar atividades físicas; ter tempo de lazer com as pessoas que gosta e te trazem paz;
praticar hobbies prazerosos; evitar ambientes que causam estresse ou mal-estar; desenvolver uma relação humanizada com os companheiros de trabalho; evite o consumo excessivo de álcool e drogas que agravam o problema; cuidar da saúde sexual; e tenha um sono reparador de pelo menos 8 horas por dia.

Portanto, encontrar práticas e pessoas que trazem uma energia leve e positiva para os dias em off é o grande segredo para preservar as emoções e a saúde psicológica no trabalho.

No tópico seguinte, falaremos dos sintomas da síndrome.

Quais os sintomas da síndrome de burnout?

Os sintomas da síndrome de burnout podem ser vários e quando juntos corroboram para gravidade do distúrbio nos profissionais. Não só estresse e cansaço são os sintomas: o problema também pode gerar falta de apetite, problemas na saúde sexual, entre outros.

Entre os principais sintomas, estão:

Desânimo e apatia; dores de cabeça e no corpo; negatividade constante; sentimentos de derrota, de fracasso e de insegurança; isolamento social; pressão alta; tristeza excessiva; cansaço mental e físico excessivos; insônia;
dificuldade de concentração; perda de apetite; irritabilidade e agressividade; lapsos de memória; depressão;
problemas de ereção; perda de libido; ejaculação precoce; e baixa autoestima.

Apesar de gerar inúmeros sintomas e de algumas vezes se transformar em um distúrbio grave, a síndrome de burnout tem tratamento e pode ser superada com práticas adequadas.

Quais os tratamentos para a síndrome de burnout?

Primeiramente, cumpre destacar que diagnosticar o que é síndrome de burnout e sua manifestação em pacientes deve ser a ação de um profissional competente de saúde mental, seja um psicólogo ou um psiquiatra.
Dessa forma, a melhor forma de tratamento, além de seguir as dicas de prevenção listadas mais acima, é se dedicar a um procedimento psicológico constante e efetivo.

Caso seja necessário, um psiquiatra pode diagnosticar medicamentos antidepressivos ou ansiolíticos de forma a aliviar os sintomas e tornar o profissional mais funcional e menos vulnerável ao estresse e ao cansaço extremo.
Para alguns sintomas específicos da síndrome de burnout, como as disfunções sexuais (problemas de ereção, ejaculação precoce e perda de libido), é sugerido também buscar a ajuda de um urologista.

Inclusive, se você deseja atendimento com um urologista para acompanhamento da sua saúde sexual, existem plataformas de telemedicina disponíveis que oferecem consultas discretas, efetivas e seguras com profissionais capacitados registrados no CRM (Conselho Regional de Medicina).

Gostou do conteúdo? Esperamos que tenham entendido a importância de saber o que é síndrome de burnout e como o problema, além de recorrente, pode ser grave e trazer consequências extremamente negativas para a saúde psicológica da pessoa.

*Esse artigo foi escrito pela Omens, plataforma direta, online e segura de acompanhamento da saúde sexual. Nossa equipe é formada por médicos urologistas certificados pelo CRM e especificamente qualificados para teleconsulta

08 nov 2019

Suicídio de cabo da PM motiva reações de parlamentares

Foto: Sarah Torres

Por Assembleia. O cabo da Polícia Militar de Minas Gerais, Leandro Cardoso Novais, já havia sido internado em hospital psiquiátrico por 37 dias e recorrentemente manifestava a intenção de tirar a própria vida, no entanto, chegou a ter atestado médico indeferido pela instituição. No dia 10 de setembro de 2019, ele recebeu sua arma de volta e retornou à atividade policial. No último dia 16, Leandro apontou a pistola para si e apertou o gatilho.

O relato foi apresentado, nesta quinta-feira (7/11/19), por Denísia Barreiro da Costa Novais, viúva do policial, durante audiência da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A reunião, solicitada pelo deputado Sargento Rodrigues (PTB), apurou os fatos que antecederam o autoextermínio do cabo.

Leandro Cardoso Novais, que também deixou dois filhos, residia em Teófilo Otoni (Vale do Mucuri), onde atuava na 15ª Região da PM. Após ter sido submetido a processo disciplinar, devido à acusação de fazer “bico” para complementar a renda, foi punido administrativamente. Em seguida, foi transferido para a 14ª Cia Independente, em Araçuaí (Vale do Jequitinhonha), por ordem do coronel Sérvio Túlio Mariano Salazar, à época, comandante da 15ª RPM.

Desde então, segundo Denísia Novais, o marido começou a apresentar quadro severo de depressão e o ímpeto de cometer suicídio. Ela resgatou o histórico de consultas, laudos, exames, indicações de tratamentos psicológico e psiquiátrico e internação de Leandro e afirmou que ele se sentia extremamente infeliz e perseguido no âmbito da corporação.

Denísia conta que buscaram reverter a decisão junto à Polícia Militar, mas não obtiveram sucesso. Ela afirma que Leandro recebeu o “recado” de que se houvesse insistência, ele poderia ser transferido para cidade ainda mais distante de Teófilo Otoni. A distância entre a sua residência e o novo local de trabalho era de aproximadamente 230 km.

Irmã e cunhado do cabo choram ao relatar fatos que antecederam a morte dele Irmã e cunhado do cabo choram ao relatar fatos que antecederam a morte dele – Foto: Sarah Torres
Por fim, eles apostavam na resolução do impasse pela via judicial, “mas Leandro não suportou esperar pela decisão”, lamentou Denísia. A irmã do policial, Débora Cardoso Novais, leu, emocionada, o laudo psiquiátrico que descreveu o estado de extremo sofrimento do policial.

Irmã e esposa ressaltaram que, em parte, o quadro de insônia, agitação motora, ansiedade exacerbada, perda de peso considerável, além das ideias de autoextermínio, se deve também “à desconfiança da instituição de que ele estaria fingindo-se adoecido para não trabalhar em Araçuaí.

Denísia contou que, após o esposo chegar em Teófilo Otoni em surto, ela o levou ao atendimento psiquiátrico. O médico que o atendeu quis interná-lo e afastá-lo por 30 dias do trabalho. Ela firma que, nessa ocasião em especial, o atestado apresentado à PM não foi homologado, não foi aceito pela instituição.

A viúva do cabo Leandro Novais pediu a ele que não retornasse às atividades depois que o marido se considerou exaurido pela situação. “Eles querem que eu diga que estou bem e eu vou dizer”, segundo ela, essas foram as palavras que a deixaram em alerta. O policial recebeu de volta a pistola e os cartuchos de munição que haviam sido recolhidos durante o período em que esteve afastado do serviço operacional. “Este foi o atestado de óbito dele”, lamentou Denísia Novais.

Medidas para mudar regras e cultura da Polícia Militar foram propostas

Sargento Rodrigues anunciou que vai levar o caso de Leandro Cardoso Novais ao Poder Judiciário. Conforme o deputado, o questionamento judicial da conduta institucional da Polícia Militar poderá de, alguma forma, forçar a instituição a enfrentar o cenário de sofrimento mental que tem acometido policiais, levando alguns até mesmo ao autoextermínio.

O parlamentar afirmou que são necessárias alterações legislativas, revisão das próprias diretrizes internas da PM e de sua cultura institucional. Ele explicou que as transferências para outros municípios são uma prática recorrente na PM, assentada no objetivo de punir os policiais.

Ele argumenta ainda que o Código Penal prevê, até para o preso comum, que esse deverá cumprir pena em local o mais próximo possível do seu núcleo familiar. “Já os policiais são mandados para longe de suas famílias e recebem dupla penalização”, criticou o parlamentar.

Representantes das entidades de classe dos policiais também se manifestaram quanto à necessidade de se criar, ao menos, critérios para pautar essas transferências. O policial Álvaro Rodrigues Coelho, presidente do Centro Social dos Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiros Militares de Minas Gerais, sugeriu que o deslocamento do policial em relação à sua residência observasse um limite entre 50 e 60 km.

Os deputados Coronel Sandro, Bruno Engler (ambos do PSL), Doutor Jean Freire (PT) manifestaram apoio aos familiares do cabo. Eles também se disseram preocupados com o número de suicídios entre os militares e se comprometeram a ajudar na busca de soluções.

Comandantes da PM afirmam que cabo recebeu assistência

O coronel Sérvio Túlio Mariano Salazar, que ordenou a transferência de Leandro Novais para Araçuaí, reconheceu que a medida foi baseada em normas da Polícia Militar, em especial, em memorando da instituição com orientações específicas a serem aplicadas em casos como o do cabo.

Integrantes da corporação, superiores do cabo, negaram que ele tenha sofrido qualquer tipo de perseguição Integrantes da corporação, superiores do cabo, negaram que ele tenha sofrido qualquer tipo de perseguição – Foto: Sarah Torres
Ele conta que o objeto da punição ao policial não se restringia à pratica de “bico”, mas que implicava desvio considerado mais grave. O comandante, contudo, não esclareceu do que se tratava. Sérvio Salazar afirmou que não foi procurado pelo cabo ou por qualquer familiar para tratar da transferência e que o encaminhou à Clínica de Psiquiatria e Psicologia da Polícia Militar assim que teve conhecimento do seu quadro.

Já, em fevereiro de 2019, assumiu o comando da corporação (14ª Cia. PM Independente), em que estava lotado Leandro Novais, o major Rafael Duarte Muniz. Ele contou que, ao longo do período, nunca criou obstáculos para que o policial realizasse o tratamento. O major afirmou, ainda, que, durante o tempo em que Leandro esteve na ativa, colocou o policial “na melhor escala possível”, como plantonista, para que pudesse folgar dias consecutivos e permanecer mais tempo junto à sua família em Teófilo Otoni.

Ele explicou também que, em 9 de setembro de 2019, recebeu parecer do setor responsável pela avaliação psquiátrica na PM, atestando que o policial estava apto a regressar à atividade operacional.

O cabo teria dito ao seu chefe imediato, o tenente Borges, o seguinte: “Vivi um período muito tempestuoso e sombrio dentro de mim, mas, agora, estou pronto para o serviço”. Foi o que o tenente teria informado ao major Rafael Muniz.

A tenente Sumara Sucupira de Aguilar, perita do 44º Batalhão de Polícia Militar e cardiologista, que atendeu Leandro Novais durante o período, no entanto, disse que tinha ciência de que o caso dele era complexo e que exigia tratamento especializado. Ela conta que não chegou a homologar um dos atestados dele, porque entendeu que o simples afastamento não era suficiente, encaminhando-o para a internação imediata.

Perseguição – O tenente Fabiano Marinho, subcomandante da 14ª Cia. PM Independente, foi acusado pela esposa e irmã de Leandro Novais de ter empreendido contra o cabo atos de assédio moral. Elas afirmaram que o familiar teria dito várias vezes que esteve a ponto de matar o tenente. “Mas ele preferiu tirar a sua própria vida do que carregar esse crime nas costas”, disse Débora Novais.

Sargento Rodrigues afirmou que já recebeu outras denúncias contra o subcomandante e cobrou apuração rigorosa das mesmas.

Marinho disse que é alvo de “denuncismo” e afirmou que continuará fazendo o seu trabalho, investigando desvios dos próprios pares. Também ressaltou que mantinha com o cabo um relacionamento próximo e amigável.

Consulte o resultado da reunião.

23 set 2019

Suicídio entre Policiais Federais é seis vezes maior que a média nacional

A Polícia Federal  está no imaginário popular como uma das profissões mais excitantes dentro da polícia.  “Os Anjos de Preto” são homens e mulheres, geralmente muito jovens, que fazem parte de um time qualificado, mas nem sempre preparados para enfrentar os desafios “trevosos” da profissão.

Nos últimos 10 anos, 33 servidores da corporação tiraram a própria vida, revela levantamento inédito da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef).  Em 20 anos – de 1999 até 2019 – foram 49 suicídios mais sete tentativas. Dos 49 casos, 27 foram de agentes. A maior quantidade de suicídios ocorreu no Distrito Federal. Em seguida: Rio de Janeiro,  Santa Catarina e Paraná. Outro dado importante: 30% do quadro utiliza algum tipo de medicamento relacionado a questões psicoemocionais, segundo enquete realizada pela entidade em 2016.

Direitos Humanos/Segurança Pública

Publicada em dezembro de 2010, a Portaria Interministerial SEDH/MJ nº 2 estabelece as Diretrizes Nacionais de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos dos Profissionais de Segurança Pública. O documento aponta dez medidas específicas de saúde que deveriam ser oferecidas aos servidores.

Entre elas, assegurar o acesso ao atendimento independente e especializado em saúde mental; desenvolver programas de acompanhamento e tratamento destinados aos profissionais de segurança pública envolvidos em ações com resultado letal ou alto nível de estresse; implementar políticas de prevenção, apoio e tratamento do alcoolismo, tabagismo ou outras formas de drogadição e dependência química; desenvolver programas de prevenção ao suicídio, disponibilizando atendimento psiquiátrico, núcleos terapêuticos de apoio e divulgação de informações sobre o assunto; criar núcleos terapêuticos de apoio voltados ao enfrentamento da depressão, estresse e outras alterações psíquicas.

Entrevistei Roberto Uchôa, policial federal, bacharel em direito, especialista em gestão de segurança pública, mestrando em sociologia política, integrante do NUC/UENF, núcleo de pesquisa sobre conflito da Universidade Estadual do Norte Fluminense, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, sobre os desafios da Polícia Federal. Confira:

Adriana Santos: Qual o maior desafio de ser um policial?

Roberto Uchôa: O maior desafio de ser um policial no Brasil é querer servir da melhor forma possível à sociedade e não poder fazê-lo em razão das inúmeras dificuldades existentes. Ninguém decide arriscar a própria vida em defesa de outros por outro motivo que não seja vocação. Porém só a vontade não basta. Sem estrutura de trabalho, remuneração digna que permita ao policial descansar na sua folga e um ambiente laboral saudável, não há como o policial prestar o serviço que deseja.

Por que tantos policiais estão emocionalmente fragilizados?

Policiais convivem com o amor e ódio da população. Quando ajudam são adorados, quando fiscalizam e punem são odiados, mas todos sabem como isso funciona. O problema é que além de conviver com os problemas ao lidar com a população no dia a dia e com a violência, os policiais encontram também inúmeros problemas internos. Temos modelos de polícia criados no século XIX. São polícias sem carreira, com castas distintas e constante assédio moral. Isso acaba provocando um estresse contínuo no profissional, que não encontra no ambiente interno o suporte necessário para aguentar a pressão do dia a dia, e muitas vezes esse ambiente interno é tão nocivo que agrava a situação.

As instituições de Segurança Pública estão aptas no acolhimento dos policiais que passam por depressão ou outros transtornos mentais?

A maioria das instituições policiais no país não está preparada para acolher os policiais com problemas pessoais e emocionais. Há muito preconceito interno, não há política de acompanhamento dos profissionais e sequer há quadros profissionais adequados para tal tarefa na maioria das polícias. Por isso o aumento expressivo no número de suicídios de policiais. Sem auxílio, muitos tem sucumbido aos problemas de saúde mental.

O que mais prejudica a saúde mental de um policial?

O dia a dia do policial é extremamente estressante. Estado de alerta constante, cobranças, altos níveis de violência e medo de errar fazem parte da rotina diária do profissional de segurança pública. O problema é que ao sair das ruas e voltar ao ambiente de trabalho, onde essa pressão deveria diminuir, isso não ocorre. Devido ao péssimo ambiente de trabalho em grande parte das polícias e ao assédio moral, esse estado de tensão normalmente piora.

O número de suicídios aumento muito entre os policiais. Você já perdeu algum colega de trabalho?

Essa semana perdi o segundo policial que conheci. É muito triste quando isso ocorre, mas ao mesmo tempo fica um sentimento de revolta. Saber que os gestores do órgão tinham conhecimento do grave quadro de saúde mental de um servidor e que não prestaram o auxílio necessário é revoltante. Uma família foi destruída por incapacidade do órgão em cuidar de forma adequada dos seus servidores, que são o maior ativo da instituição.

Você já passou por algum problema emocional e precisou ajuda de um profissional de saúde mental?

No ano de 2012 tivemos uma greve relativamente longa no órgão e os ânimos se acirraram entre os cargos de policiais e delegados, que são os que dirigem o órgão. O ambiente interno que já não era dos melhores piorou bastante, destruindo muitas relações pessoais. Foi uma época difícil, de muito desânimo e desesperança quanto ao futuro, mas consegui lidar da melhor forma possível, canalizando minhas energias para voltar a estudar e tentar propor mudanças para que as instituições de segurança pública sejam modernizadas.

O que dificulta o pedido de ajuda por parte de um policial?

Além do preconceito interno a falta de estrutura de atendimento. Quando um policial busca o auxílio de um psicólogo ou de um psiquiatra é porque realmente está precisando, muitas vezes sendo na verdade um pedido de socorro, e ao negar uma estrutura mínima para acolher e ajudar esse profissional, a instituição policial mostra que sua preocupação se resume a números.

O  policial que passa por algum tratamento psiquiátrico continua portando arma de fogo?

Ao ser afastado por problemas psiquiátricos pode ser determinado que o policial entregue sua arma de fogo, porém essa decisão só ocorre após exame por uma junta médica pericial designada para avaliar o caso. Não sei como funciona em cada instituição policial, mas essa parece ser a regra geral.

Conclusões finais

O cenário de crescimento no número de suicídios de policiais deveria ter ligado o alerta das autoridades responsáveis, mas infelizmente isso parece não ter ocorrido. A crença de que armas mais modernas e viaturas mais possantes são a fórmula para a melhoria da segurança pública já se provou equivocada. O maior ativo de uma polícia são os policiais e o fator que pode melhorar a segurança pública é o investimento neles. Dar condições de trabalho adequadas, remuneração digna que permita o descanso na folga, cuidar da saúde mental e melhorar o ambiente de trabalho incentivando o crescimento profissional são a melhor saída para mudar o panorama existente.

Veja ainda: Assédio moral nas polícias é coisa séria

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