Categoria "Saúde & Literatura"
15 jul 2015

Raphael Rocha: a face do artista que aposta na liberdade criativa

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luarrafa

Sempre fui uma “faz tudo” nas redações de jornalismo, onde tive a felicidade de trabalhar, e uma curiosa de plantão. Por isso, hoje, me considero uma multimídia, com experiência em rádio, audiovisual e internet. Acho que é uma tendência cada vez mais forte que motiva, em especial, profissionais da comunicação, da arte e da literatura.

Mas o objetivo da minha postagem é apresentar um artista que tem este perfil. Ele cuida de cada detalhe de sua produção, com muito carinho, dedicação e curiosidade. Raphael Rocha é autodidata e nasceu no Rio de Janeiro no final do verão de 1980. Recentemente publicou os livros: “No passar dos ventos – Poemas de outros tempos (2014) e Lua dos infantes (2015).

De 2002 a 2006 colaborou como ilustrador e designer gráfico freelancer em jornais e revistas do Brasil e do exterior. Publicou ilustrações no antigo Jornal dos Sports (Rj), Il Romanista (Itália), revista Forza Roma (Itália), revista Tatame (Brasil), Revista “A+” do diário esportivo o Lance!

O livro “Lua dos infantes” acabou de sair do forno. São poemas amorosos, reflexões metafísicas, transfigurações do real e jogos de linguagem, carregados de lirismo, delicadeza e força, amor e nostalgia. A publicação traça um pouco dos possíveis caminhos que a alma de coração aberto é capaz de percorrer e de relembrar.

“Lua dos infantes é uma edição autoral e toda a produção, do design de capa à concepção gráfica do livro num todo, é também de minha autoria, exceto a diagramação. Por se tratar de uma tiragem pequena será vendido apenas na livraria Folha Seca (Rio de janeiro) ou comigo através das redes sociais (Facebook e blogger). A poesia de um estreante, muitas vezes, está para o mercado editoral como os legumes, frutas e verduras para muitas crianças quando entram em um supermercado. É sempre a última das últimas opções”. diz Raphael Rocha.

07 jul 2015

Nutricionista ensina dicas e truques para uma alimentação saudável na infância

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alimentação

Saúde&Literatura Há 20 anos, a desnutrição infantil era um problema de saúde pública. Faltava comida na mesa dos pequenos brasileiros. Hoje, o Brasil enfrenta outro desafio: a obesidade infantil. Pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que quase 35% das crianças entre 5 e 9 anos estão acima do peso. Doenças como diabetes, hipertensão arterial e até mesmo câncer são provocadas pelo excesso de peso das nossas crianças. Como mudar esse quadro e garantir às crianças saúde e longevidade? No livro Alimentação saudável na infância – Conceitos, dicas e truques fundamentais, a nutricionista Cláudia Lobo mostra o caminho para implantar – e manter – uma alimentação saudável na rotina dos pequenos. Com dicas e soluções práticas, ela ensina a escolher os alimentos adequados e prepará-los de forma saborosa e nutritiva.

Adriana Santos: Muitas mães ficam apavoradas quando não conseguem convencer os próprios filhos sobre a importância de consumir frutas, verduras e legumes. Como driblar as manhas e birras na hora de comer?

Cláudia Lobo: As recusas alimentares são normais para todas as crianças, principalmente quando elas começam a entrar em contato com sabores, consistências, cheiros, cores diferentes dos alimentos, como acontece a partir do início do desmame, por isso é importante que os pais tenham consciência disso e saibam administrá-las, primeiramente não se deixando estressar por essas situações, prevendo-as e não se rendendo a elas, ou seja, as recusas são normais, inevitáveis e acontecerão em algum momento, porém devem ser consideradas como parte de um processo de aprendizagem e não como determinantes precoces dos hábitos alimentares das crianças.

Segundo, nunca, jamais, em tempo algum substituir o alimento rejeitado por outro de que a criança goste mais; se a criança rejeitar um alimento, preparação ou refeição, aceite, lembrando-a, delicadamente e com seriedade, porém sem tom de ameaça, de que aquilo que foi rejeitado não será substituído por outro alimento, seja ele qual for, mesmo que seja solicitado (como certamente será) através de todo e qualquer tipo de recurso que as crianças costumam usar para conseguirem o que querem como choro, birra, gritos, pedidos insistentes, carinhas tristes etc. e o mais importante: manter a promessa.

Alguns estudos comprovam que para se formar um hábito alimentar, a exposição repetida de novos alimentos à crianças deve ser feita de forma sistemática. Um mesmo alimento deverá ser apresentado e oferecido à criança, de 8 a 10 vezes. Alguns citam um oferecimento de 12 a 15 vezes até. Em dias espaçados, claro. O hábito de ver um alimento sempre à mesa, fazendo parte da alimentação da família, é um fator que favorece a aceitação do mesmo. A recusa inicial do seu filho a alguns alimentos deve ser encarada como uma resposta normal, pois é um exercício de adaptação, portanto, não se estresse ou se preocupe demais. Ter calma, paciência e perseverança é fundamental. Um processo de educação ou reeducação alimentar de uma criança pode levar de 6 meses a 1 ano, portanto não desista nas primeiras tentativas.

Use travessas bonitas, pratos decorados, e copos com motivos infantis na hora de servir. Você pode utilizar também os próprios brinquedos das crianças para servir algumas preparações (depois de bem lavados, claro); por exemplo, um caminhãozinho com a caçamba cheia de brócolis e cenouras baby ou os pratinhos do joguinho de jantar de sua filha para servir tomates-cereja, morangos, etc. Enfeite as preparações. Faça comidas divertidas com carinhas, monstros, flores. Tolere alguma bagunça à mesa de vez em quando, como deixar seu filho pegar alguns alimentos com a mão e lambuzar-se. Brinque você também com a comida.

Adriana Santos: A rotina estressante nos faz acelerar tudo, inclusive a mastigação. Por que a mastigação é tão importante na hora da alimentação?

Cláudia Lobo: A má mastigação pode acarretar problemas digestivos como azia, refluxo, indisposições gástricas em geral. Lembre-se de que o estômago não possui dentes. Ele não vai mastigar aquele pedaço grande de alimento que você engoliu. Aquele pedaço vai ficar lá no estômago mais tempo do que deveria, vai ser atacado pelos ácidos que não vão dar conta do recado. Dessa forma, o estômago vai produzir mais ácido para tentar digerir aquele pedaço, o esvaziamento gástrico vai ficar mais difícil, enfim, vai exigir muito do pobre do estômago; depois vai exigir muito do intestino também e das outras glândulas que participam da digestão dos alimentos. Nesse sentido, todos esses órgãos vão ter que trabalhar dobrado para fazer o que têm que fazer, a fim de aquele alimento ser processado adequadamente e ter seus nutrientes absorvidos, antes de ser transportado e depois eliminado. Imagine essa aventura acontecendo a cada refeição, todos os dias, por vários anos. Um dia, todo o corpo vai sentir suas consequências.

Alimento mal mastigado também será mal absorvido, o que fará você perder em absorção de nutrientes. Além disso, a mastigação bem feita permite que o cérebro receba estímulo eficaz e envie sua mensagem de saciedade, evitando exageros alimentares. É isso mesmo, mastigar bem emagrece e/ou evita que se engorde. Só após 20 minutos de mastigação é que o cérebro libera a produção do PYY pelo intestino, hormônio responsável pela saciedade. A salivação é que é a responsável por essa liberação. Enquanto esse hormônio estiver circulando na corrente sanguínea nos sentimos saciados.

Existem ainda muitos outros ótimos motivos para você caprichar na mastigação dos alimentos, mas que não dizem respeito diretamente à nutrição e sim à fonoaudiologia e à odontologia, a má mastigação pode gerar consequências como a falta de harmonia do crescimento facial, deixando a musculatura orofacial flácida, influenciando negativamente nas suas funções. Durante o ato mastigatório, trabalhamos vários músculos que são articuladores, de extrema importância e ativos no processo da produção dos sons da fala, como os músculos responsáveis pelo vedamento labial, abertura e fechamento da boca, trituração dos alimentos e a língua, um dos músculos mais ativos durante a fala e mastigação.

Adriana Santos: Como escapar dos modismo alimentares e oferecer uma alimentação equilibrada para nossos filhos?

Cláudia Lobo: Os motivos que levam uma criança a preferir alguns alimentos a outros são os mais variados, mas estou convencida de que essa preferência é estimulada e aceita muito facilmente primeiramente dentro de suas próprias casas. Uma criança de dois anos, por exemplo, que já teve o contato com o sabor doce do açúcar, dos refrigerantes, chocolates, balas e afins, assim como com o gosto diferente das frituras e o salgadinho dos snacks, certamente o fez por terem sido esses alimentos disponibilizados a elas dentro de seu próprio ambiente familiar ou no convívio com seus familiares, nada de muito errado nisso, mas a frequência de consumo desses produtos, a quantidade oferecida e o fato de os pais cederem regularmente às vontades dessa criança quanto ao consumo desse tipo de alimento é que a fazem obviamente rejeitar outros tipos de alimentos não tão saborosos ao seu confuso paladar. É um ciclo vicioso: disponibilização de alimentos pouco nutritivos –> rejeição de alimentos saudáveis –> disponibilização de alimentos pouco nutritivos.

É importante lembrar também que a insistência sistemática, agressiva, seja através de pedidos, chantagens, comparações, barganha, promessas, ameaças, ou mesmo dar comida na boca da criança enquanto a distrai com histórias ou outro divertimento para que ela nem perceba o que está comendo são artifícios que muitos pais utilizam, mas não são educativos de forma positiva e podem trazer muitos prejuízos à criança, tanto à sua saúde física quanto à emocional.

À medida que a criança vai crescendo ela também começa a ser exposta à mídia agressiva dos alimentos industrializados e fast foods, que descobriram na criança uma importante e leal consumidora, geradora de milhões de reais a essas empresas anualmente e que utilizam todos os recursos para alcançar esse público tão lucrativo. Agora junte tudo isso: as crianças sofrem influência dos hábitos familiares desde bebês; aprendem desde cedo a gostar de alimentos altamente calóricos e pobremente nutritivos e os obtém fácil e abundantemente; assistem mais de quatro horas de TV por dia, segundo pesquisas; são influenciadas pelas propagandas de alimentos e pelos modismos; as crianças influenciam (decidem) as compras de supermercado e ainda comem mais guloseimas quando estão diante da TV, games ou computador, e verá que não é a toa que as crianças estão a cada dia que passa se alimentando pior e sofrendo em seus próprios corpos e na sua saúde as consequências dessa falta de cuidado e orientação.

Se há culpados pelo fato inequívoco das crianças estarem se alimentando mal, não são únicos. Talvez sejamos todos! Mas, mais importante do que procurar culpados é corrigirmos nossos próprios erros, como?, nos instruir mais e nos engajarmos nessa luta para orientar melhor nossos filhos para a vida, incluindo a alimentação.

Adriana Santos: Qual a importância das refeições feitas em família para o desenvolvimento da criança?

Cláudia Lobo: As ocasiões em que a família está reunida à mesa, podem ser um grande acontecimento para a criança em desenvolvimento; uma reunião assim, alegre, leve, em clima de união e cumplicidade faz a criança se relacionar positivamente com o momento de comer. Esse é um aspecto extremamente importante, pois as crianças adquirem preferências por alimentos quando formam associações entre as características sensoriais dos alimentos, principalmente a aparência, cheiro e o sabor e sensações positivas, como a gerada por um ambiente familiar descontraído, divertido. Se essas ocasiões são muito raras, tente se organizar para aumentar a frequência delas, pelo menos para uma refeição por semana regularmente, com todos os presentes, pais e filhos, ou a maioria deles.

Para ilustrar, veja só a que ambiente se associam os alimentos que os filhos adoram. Os doces, balas e outras guloseimas são alimentos que costumam ser oferecidos a eles em dias de festas, datas especiais, momentos de lazer, etc., não é?! Pois bem, devemos também oferecer o máximo de momentos especiais aos nossos filhos, relacionados com uma alimentação mais nutritiva e saudável. Você não precisa fazer nada extraordinário ou mirabolante para deixar o ambiente do dia-a-dia mais festivo e oferecer, nesse clima, alimentos saudáveis a seu filho, basta estar presente e curtir o momento com alegria e descontração.

Adriana Santos: O que é necessário no prato para garantir a nutrição saudável da criança?

Cláudia Lobo: Ainda não se conhece um alimento perfeito que por si só seja insubstituível ou que sozinho consiga garantir a saúde. O que ocorre é um conjunto de alimentos variados de grupos de alimentos que agem sinergicamente para essa função.

· Água

· Raios solares incidindo sobre a pele –absorção de vitamina D (O sol também influi na nutrição. A exposição solar, preferencialmente até as dez horas da manhã ou após as quatro horas da tarde é capaz de penetrar na pele e converter um precursor de colesterol em vitamina D. Essa vitamina é considerada um nutriente essencial e pode até ser consumida através da alimentação, mas existem muito poucas fontes alimentares naturais dela)

· Verduras

· Legumes

· Frutas

· Carboidratos – cereais, tubérculos, raízes, farinhas e preparações feitas com quaisquer desses alimentos

· Leguminosas – todos os tipos de feijões, ervilha, grão-de-bico, lentilha

· Proteínas de boa qualidade – carnes em geral, peixes, ovos, cogumelos, mistura de cereais e leguminosas (tipo arroz com feijão), quinoa, amaranto, castanhas e nozes, leite e derivados

· Gorduras do bem azeites extravirgens, óleos vegetais, manteiga

· Fibras – parte das plantas que o nosso organismo não consegue digerir, mas são necessárias para o bom funcionamento intestinal – farelos de cereais, cascas de frutas, hortaliças, frutas, leguminosas rtc.

Nós necessitamos de mais de 40 tipos diferentes de nutrientes para o bom funcionamento e desenvolvimento do nosso organismo, nas quantidades certas e todos os dias, principalmente as crianças, pois elas estão vivendo um período de intenso crescimento e desenvolvimento do seu corpo em todos os aspectos, incluindo o intelecto.

15 jun 2015

Relação paciente e psicanalista do Século XXI

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jorge forbes

Vivemos num mundo sem garantias, com riscos e sem as referências de significado que orientavam os laços sociais no século passado. Essa é uma parte da análise proposta pelo psicanalista e psiquiatra, Jorge Forbes, em seu livro “Inconsciente e Responsabilidade – Psicanálise do Século XXI“. O livro é fruto de uma tese de doutorado, mas oferece uma linguagem atual de fácil entendimento para o público leigo acerca das novas relações sociais e, consequentemente, da mudança na relação entre pacientes e psicanalistas.

Confira a entrevista com Forbes e suas considerações sobre o novo paradigma da sociedade e a ideia de uma nova psicanálise necessária, entre outros tópicos enfatizados na obra literária:

Saúde do Meio: Em sua obra, o senhor chama a atenção para a prática de uma nova psicanálise, que dialogue com as transformações do mundo, da população do século XXI. Como funcionava essa relação entre pacientes e psicanalistas?

Jorge Forbes: Há uma mudança fundamental. Até pouco, a perspectiva de quem fazia uma análise era se conhecer melhor. Isso quer dizer que as pessoas buscavam respostas sobre aspectos de si mesmos que ultrapassavam o seu conhecimento, ou que as surpreendiam de alguma forma, buscavam fazer uma análise para conhecer as manifestações ditas inconscientes dessas coisas que lhes eram esquisitas ou ‘mais forte que elas’, como se diz popularmente ‘mais forte que eu’. O que quer dizer que a psicanálise funcionava como a criação de um saber, preparando a pessoa para uma ação mais garantida e tirando-a da variação do inconsciente ou da variação daquilo que ela poderia não saber. Então, análise era garantir melhor a sua ação num conhecimento mais aprofundado sobre si mesmo.

Saúde do Meio: Por que esse modelo de análise não é mais o ideal e se faz necessária, como senhor coloca, ‘uma nova psicanálise’?

Jorge Forbes: Isto não é mais fato hoje em dia porque a matriz do conhecimento mudou de lugar. Nós tínhamos um conhecimento, até pouco tempo, que era passível de ser muito bem estruturado verticalmente, no sentido de padronizado. Ou seja, nós tínhamos pontos referentes de significação que faziam com que nós dividíssemos uma mesma forma de ser e nós pudéssemos dizer o que seria certo, o que seria errado, o que seria uma pessoa adequada, uma pessoa conformada e uma pessoa rebelde. Hoje em dia, nós não temos mais essas matrizes. Elas foram multifacetadas, foram pulverizadas pelo que a gente chama de globalização. Nós não temos mais matrizes de significação, nós não temos mais um laço social, estruturado verticalmente como até 20, 30 anos atrás.

Saúde do Meio: O que muda, hoje, na relação e no perfil do homem que busca análise?

Jorge Forbes: Quem vai procurar uma análise, hoje, não pode esperar ter um conhecimento ajustado para garantir uma ação. Ao contrário, tem que modificar a sua relação com a ansiedade de não ter o conhecimento ajustado para garantir uma ação. Ou seja, a vida do homem ‘desbussolado’ (como costumo dizer), do homem do século XXI, é uma vida com contrato de risco e não com contrato de garantia. Nós saímos de um mundo menos criativo e mais garantido, que era o mundo moderno, e entramos no mundo pós-moderno, que é menos garantido e mais criativo. Esse mundo pós-moderno atual, mais criativo e menos garantido, necessita de um psicanalista que funcione além do Complexo de Édipo, além das significações e que possa fazer com que o seu paciente, no laboratório que é a psicanálise, possa tomar decisões arriscadas e criativas e por elas se responsabilizar. A diferença, portanto, é de 180 graus.

Saúde do Meio: O senhor menciona as mídias sociais e a formação de um mundo sem garantias, onde há riscos a cada segundo. A manifestação do pensamento se dá no terreno do imediatismo, sem possibilidade de voltar atrás. Como o homem contemporâneo pode voltar a ter uma referência, nesse sentido?

Jorge Forbes: Identificar qual seria a referência é um aspecto que estou trabalhando neste momento. Nós já tivemos grandes referências na história da humanidade que eu resumiria, rapidamente, da seguinte forma: primeiro, tivemos o homem natural, com referência na natureza. Depois, o homem religioso, com referência no Deus e nos Deuses. Em seguida, o homem da razão, do Iluminismo, seguido pela quebra de referências, que foi no início do século passado, com a desconstrução Nieztchiana. Atualmente, acredito que estamos caminhando para um segundo tipo de humanismo, não mais baseado na razão, mas baseado no dividir sentimentos. Nesse contexto, o sentimento é comum a todos, mas o significado é singular para cada um. Acredito que esse é o momento que a gente está vivendo – o momento do ressoar. Estamos numa sociedade viral, completamente diferente da anterior, mas que pode fazer com que nós, hoje em dia, não morramos mais por guerras, por revoluções ou por religiões, como diz meu amigo Luc Ferry, mas por outro homem. É o novo amor.

Saúde do Meio: Partindo do nome da obra “Inconsciente e responsabilidade – Psicanálise no Século XXI”, o senhor considera que, no mundo atual, estamos diante da reflexão de que nada é, hoje, como já foi um dia. Qual o impacto disso na vida das pessoas?

Jorge Forbes: Acredito que muito mais pessoas vão fazer psicanálise. Eu diria mesmo que estamos quase no início de uma nova era para a psicanálise. Nós tivemos, nos primeiros 100 anos, um belo exercício no que a gente chama da psicanálise de sentido ou da primeira clínica de Lacan. Agora, temos uma oportunidade única, porque acredito que a psicanálise seja talvez um dos mais potentes discursos para entender a globalização e o homem ‘desbussolado’. Eu só espero que os analistas se lembrem disso, porque eu acho que nós – analistas – ainda estamos em dívida com o homem do século XXI. Assim, é necessário apressar um pouco o passo para gerar respostas a essa modificação essencial às nossas vidas.

Saúde do Meio: Como devemos retrabalhar, por exemplo, os conceitos de ‘inconsciente’ e ‘responsabilidade’ nesse novo momento do século XXI? O senhor acredita que, na atualidade, as pessoas se comprometem menos com as suas decisões e perspectivas?

Jorge Forbes: Inconsciente e responsabilidade eram dois termos que nunca andavam juntos, muito menos na psicanálise, porque responsabilidade era do ponto de vista consciente, e o inconsciente era sempre ligado a uma irresponsabilidade, a uma não legitimidade da pessoa na sua ação, a ponto de ela dizer ‘só se foi o meu inconsciente!”. Hoje em dia, eu vejo que a globalização, ao quebrar essa ideia entre mundo de fora, mundo de dentro, e todas essas dicotomias, exige que nós nos responsabilizemos pelo incompleto do nosso mundo e pelo incompleto de nós mesmos. Ou seja, se cometo um ato falho, ou se me surpreendo, eu devo dizer: “Isso sou eu”.

Saúde do Meio: As mudanças no perfil da sociedade, seus anseios e expectativas, representam um entrave na busca por uma vida melhor? Como o homem moderno pode atuar na busca por soluções, reconhecendo a sua responsabilidade na construção de uma vida qualificada?

Jorge Forbes: Reconhecendo a sua responsabilidade, que essa é uma responsabilidade singular, eu diria que é fundamental, que as pessoas abandonem a ideia malfadada de qualidade de vida. Digo isto porque qualidade de vida é uma tentativa de dizer um bom para todos, como seria um bem viver para todas as pessoas. Eu diria, junto com o filósofo italiano Giorgio Agamben, que é fundamental substituir o termo ‘qualidade de vida’ por ‘vida qualificada’, no qual o substantivo não é mais ‘qualidade’, e sim a ‘vida’. Ou seja, uma vida qualificada está associada à responsabilidade de inventar uma satisfação pessoal e passá-la no mundo

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