Categoria "Saúde & Literatura"
04 jul 2019

Biblioteca acessível: um direito de todos

Por Marília Paiva, presidenta do Conselho Regional de Biblioteconomia – 6ª Região (MG/ES)

Os livros contribuem para a formação intelectual e pessoal durante toda a vida, mas de modo especial, em relação a crianças em processo de alfabetização. O ideal é que a apresentação da literatura ocorra de forma integral, inclusive envolvendo pessoas com necessidades especiais.

O Brasil ainda está longe de se tornar um país de leitores. Conforme o último estudo Retratos da Leitura do Ibope, 44% dos brasileiros não têm o hábito de ler e 30% nunca, sequer, compraram um livro. O que torna esse retrato ainda pior é a falta de acessibilidade a leitores deficientes. De acordo com o IBGE, 23,9% de brasileiros são portadores de algum tipo de deficiência, sendo que 6,6% deles são visuais.

Uma biblioteca acessível acolhe o maior e mais diverso público para oferecer o mesmo serviço, independentemente de limitações físicas ou intelectuais. Infelizmente, a falta de investimento ainda resulta na realidade de que são poucas as bibliotecas com obras adaptadas ou aparelhos que possibilitem a leitura e prédios planejados para receberem deficientes físicos.

À primeira vista, parece que as mudanças para atender a democratização da literatura são um pouco complexas. Entretanto, as alterações podem ser feitas de forma gradativa, mesmo em caso de recursos financeiros escassos. Além do mais, uma das barreiras mais importantes a se superar são as barreiras comportamentais, que envolvem as reações e as relações com os usuários com deficiência. Para romper essas barreiras a informação e a formação dos mediadores nas bibliotecas são as providências mais importantes, e nem sempre dependem de algum dinheiro.

A internet tem algumas videoaulas e contação de histórias em libras que podem auxiliar no atendimento a pessoas com deficiência auditiva e também existem aplicativos, como o Eye-D, possibilitando a leitura de livros para portadores de deficiência visual, além dos já antigos audiolivros (quem se lembra dos disquinhos coloridos de décadas atrás?).

Os exemplos são vários, alguns apenas paliativos que podem auxiliar na rotina da biblioteca e não uma solução efetiva. Entretanto, já são um caminho, considerando que o mais importante é todos entenderem a importância da democratização do acesso à cultura escrita, buscado efetivamente minimizar o problema, que não se limita só aos portadores de necessidades especiais, mas os brasileiros em geral.

Os obstáculos ainda são muitos para se ampliar o acesso ao livro e a acessibilidade no Brasil, mas não podem e devem ser superados. A leitura é importante para a formação e orientação de qualquer cidadão, pois permite acessar o conhecimento e contribui para uma maior evolução social e aí, sim, secundariamente, melhorar a posição brasileira no ranking mundial de leitores.

28 jun 2019

O que significa ajuda terapêutica quando nos sentimos perdidos emocionalmente?

O Saúde & Literatura de hoje apresenta o livro Gestalt-Terapia 6, que faz parte da consagrada coleção Gestalt-Terapia: fundamentos e práticas da Summus Editorial.  Nesta obra, terapeutas com vasta experiência apresentam ensaios profundos e sensíveis sobre como se trabalha e se pensa clinicamente em Gestalt-terapia. Articulando teoria e prática, examinam diferentes temáticas: o fechamento de Gestalten; o trabalho com sonhos; o apoio a jovens prestes a entrar na vida adulta; a escuta de pacientes transexuais; a clínica com crianças e adolescentes; o trabalho com pacientes que apresentam ansiedade e depressão etc. Trata-se de narrativas sensíveis e delicadas, relatadas por profissionais que diariamente dedicam seu tempo e esforço a ser testemunhas dos sofrimentos, histórias, alegrias e dificuldades de seus pacientes. Textos de Alysson de Oliveira Mendes, Beatriz Helena Paranhos Cardella, Eleonôra Torres Prestrelo, Fátima Aparecida Gomes Martucelli, Laura Cristina de Toledo Quadros, Lucas Caires Santos, Luciane Patrícia Yano, Maria Aparecida Barreto, Rosana Zanella, Selma Ciornai, Sérgio Lizias Costa de Oliveira Rocha.

Entrevistei Maria Aparecida Barreto, autora do artigo “O Significado de ajuda em psicoterapia”. Confira:

Adriana Santos: O que significa “ajuda” na psicoterapia e qual o papel no processo terapêutico?

Maria Aparecida Barreto: A palavra terapia vem do grego therapeuein, que significa assistir, cuidar. Portanto a ajuda em psicoterapia significa contribuir com, auxiliar, mas principalmente estar junto com o outro na busca do caminho da melhora.

A ajuda é sempre unilateral?

A priori sim, já que o cliente é quem vem em busca de ajuda, e é papel do terapeuta cuidar desta pessoa de forma ética e respeitosa. Considero que nesse “encontro” humano, o terapeuta poderá ser afetado por essa relação de alguma forma.

As pessoas que procuram o terapeuta está sempre preparadas para receber ajuda?

Nem sempre, até porque alguns clientes vêm trazidos pela família. Muitas pessoas por orgulho ou falta de conhecimento, não aceitam ajuda mesmo necessitando dela. É preciso todo um trabalho técnico para que a pessoa aceite tratamento.

É comum um terapeuta recusar um atendimento por conta da resistência em não receber ajuda por parte do paciente?

Depende da linha de trabalho de cada profissional. É de consenso de todas as linhas, que quando a pessoa aceita a ajuda, o tratamento dá mais resultados e flui melhor. Pessoas mais resistentes acabam abandonando o tratamento. Uma boa relação entre cliente e terapeuta, poderá modificar isso, fazendo com que a pessoa aceite a ajuda.

A auto-ajuda é um processo posterior à terapia?

Acredito que depois de um processo terapêutico bem realizado, o cliente consegue ajudar-se melhor e buscar outras saídas para suas angústias e ansiedade.

Qual a diferença em ajudar e orientar?

A ajuda que significa auxiliar, cooperar, não implica em indicar uma direção. Já na orientação, há a indicação de algo, norteia, o terapeuta dá a informação de alguma coisa, encaminha.

A terapia tem início, meio e fim? Ou seja a ajuda terapêutica tem um tempo de validade?

O ser humano apesar de parecido em muitos aspectos, ele é singular na sua essência . Existem terapias com início, meio e fim, onde é possível um plano de trabalho. Em outros casos não é possível delimitar esse processo, até porque existem muitas patologias psíquicas que demandam um cuidado constante. Assim como têm pessoas que encaram a terapia como algo que faz parte da vida delas, na busca de auto conhecimento.

Como caminhar com as próprias pernas sem a “ajuda” terapêutica?

Depende do estado mental de cada um. Pessoas com problemas graves, ou com problemas que não conseguem sair do lugar, irão precisar de ajuda, até porque poderão produzir doenças psicossomáticas e vão acabar indo ao médico. Acredito muito que o conhecimento, seja ele sobre qualquer assunto, é um caminho interessante para andar com suas próprias pernas, já que ampliar nossa percepção e entendimento, ajuda-nos a ter uma outra visão de mundo. Ampliando essa visão, podemos estar mais atentos à nossa própria capacidade de auto regulação.

13 jun 2019

Saiba mais sobre os benefícios da biblioterapia no enfrentamento da depressão

livros-de-romance

Por:  Marília Paiva, presidenta do Conselho Regional de Biblioteconomia – 6ª Região

Os livros têm o poder de provocar emoções, ampliar os horizontes e disseminar ideais e conhecimentos. A leitura também pode ser usada como função terapêutica, a chamada biblioterapia. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem mais de 350 milhões de pessoas sofrendo com depressão no mundo e as terapias alternativas são uma grande aliada na reversão dessa situação.

A biblioterapia é a junção de duas palavras de origem gregas: biblion (βιβλίο), referente a toda espécie de artefato bibliográfico ou a qualquer material que possibilita o ato da leitura e therapeia (θεραπεία) que significa terapia, ou seja, a prescrição da literatura como terapia alternativa.

O processo estimula a leitura como auxiliar para Processo de autoconhecimento das pessoas de indivíduos, propondo a interpretação das mensagens transmitidas pelo enredo e adequação no cotidiano, estimulando o autoconhecimento.

O livro apresenta outras formas de se ver o mundo, destacando culturas e realidades diferentes. O entretenimento ajuda na redução do estresse e estimula o cérebro, propiciando que o leitor se identifique com personagens da história, principalmente, quando ocorre o processo de empatia, auxiliando na comparação das soluções do enredo à aplicação na vida.

A terapia literária começa com a adequação dos livros ao público alvo. O processo requer uma escolha cuidadosa do material que será utilizado, assim como a supervisão para garantir que a obra apresentada se encaixe na capacidade de leitura, limitações físicas, estilo de leitor e o nível do desafio psicológico a ser ultrapassado. Após a leitura realiza-se o momento do diálogo entre o biblioterapeuta e o grupo de leitores. Este é um momento valioso de interação e troca de sensações e sentimentos que emergiram durante a leitura.

Alguns estudos indicam que a biblioterapia já era praticada desde a Idade Antiga, entre as civilizações egípcia, grega e romana. Durante a Idade Média, a cura em hospitais era auxiliada pela leitura da Bíblia e, no Cairo, ocorriam como método terapêutico suplementar às leituras do Corão. Outros relatos revelam que na primeira guerra mundial foram criadas bibliotecas em hospitais de campanha, situação que se repetiu durante a segunda guerra mundial, quando os médicos que acompanhavam as tropas americanas, perceberam que os soldados tratados com a biblioterapia se recuperavam mais rápidos dos traumas.

A biblioterapia deve ser realizada por um biblioterapeuta, ou seja, os profissionais, como bibliotecários, psicólogos, psiquiatras, profissionais da área de educação e assistentes sociais com formação e habilidades terapêuticas e um vasto conhecimento sobre literatura para buscar e recuperar livros verdadeiramente transformadores.

A leitura é libertadora e auxilia a psique a encontrar o equilíbrio necessário para dosar as situações cotidianas com o real peso que realmente representam. Se espelhar em personagens que sofrem das mesmas dificuldades e conseguem romper os obstáculos é uma forma eficaz de estimular as pessoas a encontrarem soluções para os seus problemas, melhorando a qualidade de vida e a gestão da emoção.

Página 4 de 191 ...12345678... 19Próximo