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16 out 2015

Cuidados Paliativos: Brasil ainda não sabe dizer adeus

Arquivado em saúde

Reprodução/Google

No próximo sábado (17), de 8h às 10h, na Praça Floriano Peixoto, a Sociedade de Tanatologia de Minas Gerais (Sotamig), em parceria com a Associação Médica de Minas Gerais (AMMG), realiza uma ação educativa sobre a importância dos cuidados paliativos. Haverá a distribuição de folder e especialistas para orientar e responder questões do público presente.

Pesquisa britânica do instituto Economist Intelligence Unit, divulgada pela imprensa no dia sete de outubro, revelou que o Brasil está no 42º lugar no Ranking Global dos Cuidados Paliativos, muito atrás do Reino Unido, primeiro colocado, que inspirou o modelo do Sistema Único de Saúde (SUS). A vice-presidente da Sotamig, Drª Cristiana Savoi,  avalia que o caminho é longo, mas começa com esclarecimento e atitudes pontuais por parte dos governos. “Hoje, no sistema público de saúde, há programas municipais de assistência domiciliar. Em Belo Horizonte, há hospitais como o das Clínicas e o Risoleta Neves, e ainda serviços ligados à Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig)”, destaca. Na saúde suplementar há operadoras com equipes de atendimento em domicílio e hospitais credenciados.

Conversei com a vice presidente da Sotamig,  Drª Cristiana Savoi sobre a necessidade de se pensar nos cuidados paliativos, em especial por conta do envelhecimento da nossa população. Confira:

cuidados paliativos

Foto: arquivo pessoal

Adriana Santos: O que são cuidados paliativos?

Cristiana Savoi: Cuidado Paliativo é uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares, que enfrentam doenças graves e avançadas, que ameaçam a continuidade da vida. É o conjunto de cuidados ativos e integrais que visam melhorar a qualidade de vida frente a uma enfermidade que não responde a terapêuticas curativas.

Baseia-se na prevenção, identificação precoce, avaliação e tratamento da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual.

Adriana Santos: Os profissionais da saúde são qualificados para os cuidados dos pacientes em estágios terminais de doenças?

Cristiana Savoi: De um modo geral, não. A graduação da maioria dos cursos na área de saúde não aborda os cuidados paliativos. Muito poucos têm disciplinas relacionados ao tema. Felizmente, existem iniciativas exemplares em terras mineiras, como a Faculdade de Medicina de Itajubá, que foi inclusive pioneira, graças ao trabalho do prof. Marco Túlio Figueiredo. Apenas recentemente, foram criados cursos de pós-graduação e residência multiprofissional que tratam do assunto.  A carência de formação é um grave problema a ser resolvido.

Adriana Santos: Cuidados paliativos são os mesmos que cuidados humanizados?

Cristiana Savoi: Não. Humanização dos cuidados de saúde é um conceito vago, que muitas vezes faz alusão ao movimento que visa resgatar características que nunca deveriam ter sido perdidas por quem se propõe a cuidar de pessoas. Os Cuidados Paliativos são uma modalidade de assistência, que se pauta no cuidado multidisciplinar, e é oferecida por profissionais com formação específica na área. Poderia-se dizer que todo cuidado paliativo é humanizado, pois esse é um conceito intrínseco. Mas nem todo cuidado humanizado é cuidado paliativo.

Adriana Santos: O que fazer quando os tratamentos convencionais da medicina já não têm mais resultados?

Cristiana Savoi: Diante da incurabilidade de uma doença, precisamos ensinar aos nossos pacientes a conviver com as limitações que ela impõe, da melhor maneira possível, visando a máxima qualidade de vida. O foco deixa de ser a doença e passa a ser o indivíduo e seu contexto. Os Cuidados Paliativos se baseiam na premissa de que os pacientes necessitam de cuidados e tratamentos para todas as demandas, físicas, emocionais, sociais e espirituais que advém da experiência de adoecer. O fato de não haver possibilidade de cura não significa que não há mais nada a fazer. Muito pelo contrário. Mesmo quando a morte é certa e próxima, aspectos fundamentais precisam sem abordados: como o paciente está se sentindo?  Existe sofrimento passível de alívio?  Como ele quer ser tratado? Quais medos e expectativas ele tem? E sua família? Estão devidamente orientados? As decisões de fim de vida foram tomadas?

Quando se cuida de doenças, é possível ganhar ou perder. Quando se cuida de pessoas, a gente ganha sempre.

Adriana Santos: Como a família pode estar envolvida nos cuidados paliativos?

Cristiana Savoi: A família é parte indissociável do processo. Ela tem um duplo papel, seja como fornecedora de cuidado ao paciente, seja como foco de atenção, a ser cuidada pela equipe. Os familiares são fundamentais para uma boa assistência, porque participam ativamente dos cuidados, se envolvem nas decisões, sofrem com seus entes queridos e conhecem a intimidade dos pacientes. Muitas vezes, a família se torna o principal interlocutor com a equipe, quando os pacientes estão em fases muito avançadas e são incapazes de se comunicar. Por outro lado, a família adoece junto com o paciente e precisa ser cuidada.  Ela também precisa se adaptar a uma série de mudanças na rotina, aprender a lidar com as novidades que a perda da saúde traz, reorganizar as relações afetivas, lidar com angústias e aflições.  Cabe lembrar que quando digo família, me refiro também àqueles que o paciente considera como próximos, sejam amigos, cuidadores, ou outras pessoas significativas na vida dele.

Adriana Santos: Muitos familiares preferem os cuidados tradicionais dos hospitais porque temem o sofrimento dos seus entes queridos. O que pode ser  feito para apoiar a família dos pacientes terminais?

Cristiana Savoi: É importante entender que os cuidados paliativos podem ser realizados em qualquer local, seja no hospital, seja em casa. Não é o ambiente que determina o tipo de cuidado. Muitas famílias preferem o hospital por terem mais segurança e acesso a recursos. Quando um paciente opta por ficar em casa, é necessário que se tenha uma estrutura que garanta o seu conforto e o atendimento adequado às suas demandas. Estar no hospital não é garantia de alívio de sofrimento. Isso depende da qualidade da assistência. A família precisa ser ouvida e acolhida nessa questão. E junto com a equipe de saúde, define-se o melhor local para o cuidado, sempre procurando seguir a preferência do paciente.

Adriana Santos: O SUS está apto a cuidar dos seus pacientes terminais?

Cristiana Savoi: Por incrível que pareça, hoje no Brasil o SUS está mais preparado que os serviços privados. Existem serviços bem estruturados, em São Paulo, Rio de Janeiro, também no Sul e no Nordeste. Aqui em Belo Horizonte, hospitais públicos, como Hospital das Clínicas, Alberto Cavalcanti, Risoleta Neves têm equipes multidisciplinares que funcionam muito bem. Outros hospitais têm a cultura do cuidado paliativo já difundida, mas não têm equipes específicas, como João XXIII, Odilon Behrens, Hospital da Baleia. Muitos hospitais privados estão se organizando para criar serviços de cuidados paliativos, mas isso ainda não é uma realidade na rede de saúde suplementar. A Unimed oferece serviço de assistência domiciliar por equipe especializada há vários anos. No Hospital Mater Dei, há 2 anos foi criado um grupo de discussão multidisciplinar, que vem crescendo e mudando as rotinas do hospital gradativamente. Em São Paulo, o Einstein e o Sírio são referência pela qualidade dos seus serviços. Há sinais de progresso, mas ainda há muito trabalho a ser feito nesse sentido.

Adriana Santos: O que falta para garantir um tratamento mais humanizado para os pacientes terminais?

Cristiana Savoi: Faltam muitos fatores. Em primeiro lugar, é preciso priorizar a questão com a instituição de políticas públicas que permitam o acesso da população aos cuidados paliativos. Imprescindível é a criação de um programa nacional para o desenvolvimento e manutenção de equipes capacitadas para a assistência em cuidados paliativos e a interface com programas já existentes, como o Programa de Saúde da Família e o Melhor em casa.  Estimular a reformulação da grade das escolas médicas e de outras áreas da saúde, com a inclusão do tema desde a graduação; além de promover educação continuada aos profissionais da área. Importante ainda que haja um trabalho voltado para a sociedade em geral, no sentido de educar para a morte e permitir uma melhor aceitação do fim da vida.

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