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22 jul 2019

Psicólogo de BH indica livros contra a depressão e outros transtornos mentais

O livro é um bom companheiro, principalmente nos momentos de solidão. Podemos sonhar com os olhos bem abertos e desvendar mundos desconhecidos. Além dos aspectos literários e culturais, o livro pode ser um grande aliado no processo terapêutico dos transtornos mentais.  Considerando que toda forma de leitura é também uma forma de compreensão do mundo, deve-se entender que as experiências vivenciadas pelo leitor não se resumem a realidade exterior ao livro. Ela pode ser utilizada como ferramenta que promove a interação entre as experiências externas e internas ao sujeito, e num segundo momento, a ressignificação dos processos psicológicos.

No próximo sábado (27/07), na Livraria do Psicólogo,  a partir das 9:30h, Akauito Elcino Moreira Teixeira tem um encontro marcado no Coffee Lover & Leitura para abordar justamente sobre a importância da leitura na terapia contra transtornos mentais, como por exemplo, a depressão. “Discutiremos como a leitura pode ser uma via de mão dupla na psicoterapia, promovendo a estimulação cognitiva, o autoconhecimento e a maior compreensão e elaboração de estratégias terapêuticas eficazes contra os transtornos psicológicos”, esclarece Akauito.

Entrevistei Akauito. Ele é psicólogo graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas e especializando em Neurociência pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e em Avaliação Psicológica/Psicodiagnóstico pela PUC- Minas. Tem experiência na área de Psicologia com ênfase em Psicologia clínica, atuando em psicoterapia de crianças e adultos, supervisão profissional, avaliação psicológica e neuropsicológica. Confira:

Adriana Santos: Qual a importância do livro na abordagem terapêutica?

Akauito Elcino Moreira Teixeira: Considero imprescindível a utilização de distintas ferramentas na psicoterapia de alguns transtornos ou momentos de sofrimento psíquico. A leitura enquanto processo de estimulação cognitiva e emocional atua como um importante instrumento que o psicólogo poderá utilizar, adequando às demandas e às necessidades terapêuticas do caso.

Segundo Paulo Freire a ‘Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo’. Parafraseando o grande pedagogo pernambucano, posso falar que a leitura não muda por si só qualquer quadro psicológico, ela pode mudar a percepção do sujeito frente ao seu sofrimento. Mudar a percepção é uma forma de mudar a realidade. Nesse sentido, a grande aposta da leitura no tratamento psicológico vai de encontro a possibilidade de utilizar a linguagem como expressão da realidade e como forma ressignificação desta.

Desta forma, planejar, avaliar, intervir e reavaliar os efeitos da biblioterapia sobre as interpretações e ressignificações promovidas pela leitura devem ser realizadas com muita cautela, uma vez que tanto a temática, quanto as características do indivíduo devem ser consideradas para adequação da proposta terapêutica.

Quando você começou a utilizar o livro como ferramenta terapêutica?

Primeiramente identifiquei a necessidade de um maior conhecimento acerca dos transtornos psicológicos, dos mecanismos de prevenção a recaída e da promoção do autoconhecimento de que tanto os pacientes, quanto os familiares precisam ter para uma condução mais assertiva dos casos.

Após um período seguindo estes passos, os resultados promissores me despertaram para a possibilidade de utilizar outros livros (menos teóricos) como ferramenta de trabalho. Neste período passei a ter alguns pacientes adolescentes que começaram a escrever e pesquisar mais sobre literatura. Esta foi a oportunidade perfeita para compreender alguns processos psicológicos, ressignificar dores e traumas e num segundo momento, ou até mesmo concomitantemente, falar sobre as dores provocadas ou alegrias vividas por meio da escrita ou outras formas de expressão artística.

Como é feito a seleção das obras? 

Ao utilizar esta metodologia no projeto terapêutico, o clínico ou profissional responsável deve ter em mente de maneira muito clara o objetivo a ser alcançado com a leitura. Em casos de esclarecimentos ao paciente ou familiares, cabe utilizar livros elaborados com objetivos terapêuticos, com linguagem mais clara, elaborada e embasada cientificamente.

Em situações nas quais o objetivo visa promover a expressão das emoções ou ressignificação dos processos psicológicos, a literatura escolhida deve levar em conta o nível cognitivo, características de personalidade do paciente, temas abordados pelo autor e linguagem utilizada na obra.

Quais os livros mais indicados?

Utilizo distintos livros em diferentes faixas etárias. Na psicoterapia de adultos, alguns pacientes valorizam muito a poesia (Fernando Pessoa, Adélia Prado, Drummond, dentre outros), livros de séries (Como, por exemplo, As Crônicas de Gelo e Fogo) e biografias. Costumo introduzir eventualmente alguns livros que descrevem os mitos gregos.

Com crianças utilizo alguns livros como, Por que Vou à Terapia, Harry Potter, Diário de Um Banana, Alice no País das Maravilhas e O Pequeno Príncipe, pois estes livros podem abordar a linguagem infantil de maneira muito acessível e promissora.

Me recordo de uma intervenção na qual citei o Gato de Cheshire, personagem muito pitoresco do famoso livro de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas). Perdida diante em uma realidade estranha, Alice pergunta ao gato qual caminho escolher. Neste momento, prontamente o personagem sagaz responde estabelecendo a relação entre o caminho a seguir e o destino que se deseja chegar. E ainda mais perdida, a Alice afirma não se importar muito com o local de destino, contando que chegue em algum lugar. É nesta hora que o gato responde “Oh, isso você certamente vai conseguir, […] desde que ande o bastante.”. Se esta breve descrição foi capaz de promover distintas interpretações no leitor desta entrevista, imaginem no setting terapêutico.

Quais os seus autores preferidos?

Tenho profundo apreço por Machado de Assis, Guimarães Rosa e José Saramago.

Mas em grau de impacto, Fernando Pessoa ocupa uma grande parte da minha vida que vai da minha estante até a minha linguagem. Houve com ele uma forma de encantamento, ou até mesmo um envenenamento, do qual não quero tomar antídotos ou exorcizar-me.

(agradeço à Cleonice Baraldinelli por esta percepção)

Qual o impacto da leitura no cérebro, na mente e no sistema nervoso?

Enquanto processo de estimulação cognitiva, a leitura é capaz de estabelecer novas conexões cerebrais, ativar áreas específicas relacionadas a funções distintas no cérebro e consequentemente melhorar algumas funções cognitivas.

Dentre as mais sensíveis a estimulação, podemos citar a capacidade de memória de curto prazo e de longo prazo, atenção visual, raciocínio verbal, aumento de vocabulário e aumento de inteligência cristalizada.

Conclusões finais

Se ler um livro é uma forma de ler o mundo e a realidade, posso entender que esta forma de leitura não é só do mundo externo e da realidade fora do sujeito. Existe uma dimensão muito importante do autoconhecimento a ser desvendada na divisa entre um livro e o processo terapêutico.

Também é comum na evolução do caso, a escolha, por parte do paciente, pela escrita como outra forma de ferramenta psicoterápica. E, quando ela se faz presente, costuma vir com linguagem própria, muitas vezes com conteúdos metafóricos e em processos de elaboração. Por isso talvez nunca saberemos se a literatura é uma metáfora da vida ou se a vida é uma metáfora literária da nossa própria potência criadora.

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