02 fev 2019

Leishmaniose visceral canina: sacrificar é a solução?

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Por Adriana Santos para MEU GUIA PET

Quanto vale a vida de um ser amado? O que você faria para salvar a vida do seu melhor amigo, seja humano ou não humano? Você concordaria que o poder público decidisse executar as pessoas que estão seriamente doentes? Certamente, a grande maioria reuniria todas as forças possíveis para manter um ente querido com saúde e feliz. São pessoas que valorizam a vida, independentemente da espécie. A cada dia, reconhecemos o espaço afetivo dos animais em nossas vidas e lutamos pelo bem estar deles.

No entanto, o poder público ainda tem dificuldades de valorizar a vida animal, quando, aparentemente, a vida humana corre algum tipo de risco, como é o caso das medidas de controle da leishmaniose visceral canina (LVC) – uma doença infecto contagiosa, causada pelo parasita Leishmania chagasi.

No ambiente urbano, os cães são os principais hospedeiros e vítimas, aumentando o risco de transmissão aos seres humanos. A doença é uma zoonose de evolução crônica, com acometimento sistêmico e, se não tratada, pode levar a morte até 90% dos casos. Você acredita que o sacrifício de animais é a melhor opção de controle da LVC?

No Brasil, há ampla discussão em torno da opção por medidas repressivas, como o extermínio animal, desconsiderando ações preventivas, como o saneamento, o enfrentamento da proliferação do mosquito transmissor e programas de educação e conscientização ambiental. Uma extensa bibliografia científica mostra que o animal soropositivo para LVC, adequadamente tratado, sob supervisão de médico veterinário e protegido pelas medidas de prevenção, não apresenta protozoários na pele, não podendo, portanto, ser considerado infectante para o inseto transmissor, podendo conviver com seres humanos e outros animais.

Um artigo questionando a eutanásia em cães com leishmaniose visceral foi lançado pelo pesquisador do Icict/Fiocruz (RJ), Carlos Saldanha, juntamente com os pesquisadores Érica Gaspar Silva, da Uerj, e Rodrigo Vilani, da UniRio – “O uso de um instrumento de política de saúde pública controverso: a eutanásia de cães contaminados por leishmaniose no Brasil”. No texto, os pesquisadores levantam questionamentos, tomando por base “evidências científicas atuais e análises do ordenamento jurídico brasileiro, realizadas a partir do princípio da precaução e do reconhecimento dos animais como seres sencientes”.

Para Carlos Saldanha, duas questões motivaram os pesquisadores a escreverem o artigo: “A primeira, de caráter geral, está relacionada à atuação da Administração Pública de forma fragmentária, imediatista e sem a observação de evidências científicas. Esta medida está longe de se apresentar como solução e demonstra a ausência de uma perspectiva holística das mazelas sociais e urbanas no Brasil.

Um dos argumentos utilizados no artigo é o arcabouço legal que põe em xeque a legislação da Anvisa, citando inclusive uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais que deliberou “ainda que existente exame positivo para Leishmaniose Visceral Canina, a verificação da real condição do cão, ainda que urgente deve ser apurada antes da determinação da medida extrema de sacrifício do animal” (Minas Gerais, 2013).

Uso do Milteforan

O documento com perguntas e respostas sobre a Leishmaniose Visceral Canina (LVC) foi atualizado, em outubro de 2017, pela Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CNSPV/CFMV). A atualização foi feita levando em conta a autorização do registro do produto Milteforan, indicado para o tratamento da LVC, junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

No documento, a comissão esclarece a permissão do uso do Milteforan no tratamento individual de cães com diagnóstico laboratorial confirmado para Leishmaniose. Também aponta que o registro do fármaco não inviabiliza o cumprimento da Portaria Interministerial nº 1426/2008 e que continua proibido o tratamento da LVC em cães infectados ou doentes, com produtos de uso humano ou não registrados no Mapa.

O documento ressalta ainda que o produto não provoca a cura parasitológica para a doença e sim que alguns estudos demonstram, com seu uso, o declínio da carga parasitária e a redução do potencial de infecção e transmissibilidade da doença.

Em relação ao sacrifício, a Assessoria de Comunicação do Conselho Federal de Medicina Veterinária informa que somente os cães positivos que estiverem em tratamento exclusivamente com o Milteforan não precisarão ser submetidos à eutanásia. No entanto, o responsável pelo cão com LVC deverá apresentar ao profissional de saúde que visitar sua residência, um atestado médico emitido pelo médico veterinário regularmente inscrito no Conselho Regional de Medicina Veterinária. “Este atestado deve constar as informações de tratamento do animal acompanhado do resultado de sorologia realizada nos últimos 04 meses. Em qualquer outro caso, o CFMV apoia as medidas de controle preconizadas pelos serviços de saúde, que, como dito, devem ser implantadas de forma integrada. Ainda, os métodos para o controle do reservatório canino devem obedecer às Resoluções de bioética e bem-estar animal”.

O Conselho informa ainda que é contra a eutanásia indiscriminada de cães sadios ou falso-positivos, contra o sofrimento animal, contra os métodos não autorizados e/ou realizados por pessoas que não tenham a formação em medicina veterinária, contra o abandono animal, contra a propriedade/posse/guarda irresponsável, contra o comércio ilegal de medicamentos e insumos veterinários e contra a falta de iniciativa do governo em encontrar e padronizar medidas para minimizar o impacto da problemática da LVC na população de cães no país, de forma ética e efetiva.

A eutanásia é, geralmente, uma forma mais prática e rápida para o poder público de tentar solucionar a questão, mas antes de se pensar nela, é necessário mudanças ambientais significativas sejam feitas sobre determinadas regras, como saneamento básico. A profilaxia é a melhor opção, com uso de inseticida, coleiras nos animais em regiões endêmicas e orientação à população para cuidar do seu entorno, evitando focos do mosquito

Prevenção. Informações do Ministério da Saúde

A prevenção ocorre por meio do combate ao inseto transmissor. É possível mantê-lo longe, especialmente com o apoio da população, no que diz respeito à higiene ambiental. Essa limpeza deve ser feita por meio de:

* Limpeza periódica dos quintais, retirada da matéria orgânica em decomposição (folhas, frutos, fezes de animais e outros entulhos que favoreçam a umidade do solo, locais onde os mosquitos se desenvolvem);

* Destino adequado do lixo orgânico, a fim de impedir o desenvolvimento das larvas dos mosquitos;

* Limpeza dos abrigos de animais domésticos, além da manutenção de animais domésticos distantes do domicílio, especialmente durante a noite, a fim de reduzir a atração dos flebotomíneos para dentro do domicílio.

* Uso de inseticida (aplicado nas paredes de domicílios e abrigos de animais). No entanto, a indicação é apenas para as áreas com elevado número de casos, como municípios de transmissão intensa (média de casos humanos dos últimos 3 anos acima de 4,4), moderada (média de casos humanos dos últimos 3 anos acima de 2,4) ou em surto de leishmaniose visceral.

18 set 2015

75% das famílias brasileiras vacinaram seus pets nos últimos 12 meses

Arquivado em Animais, Direito Animal
Close-up of a Golden Retriever puppy sticking its tongue out

Imagem Google

O Brasil tem cerca de 70 milhões de cães e gatos interagindo diariamente com as famílias. De acordo com o IBGE,  44% dos lares brasileiros possuem pelo menos um cachorro e quase 18% das famílias convivem com gatos em casa.

A pesquisa do IBGE mostrou que 75% das famílias vacinaram todos os animais contra a raiva nos últimos 12 meses. A raiva é uma zoonose, doença transmitida entre os animais e o homem. Leishmaniose, febre amarela, leptospirose, tuberculose, dengue e toxoplasmose são outros exemplos.

É bom lembrar que o profissional de Medicina Veterinária é fundamental para que a relação entre humanos, pets e o ambiente onde vivem seja harmoniosa e saudável. O país conta atualmente mais de 142 mil médicos veterinários registrados. Deste total mais de 105 mil estão em atuação.

Assim como você, seu filhote peludo precisa ser vacinado e visitar o médico regularmente para conquistar uma vida longa e saudável. Os peludinhos idosos precisam de uma atenção ainda mais especial. O veterinário do seu pet é a melhor fonte de informações sobre cuidados especiais, alimentação e higiene.

Conversei sobre saúde animal, vacinação, alimentação, câncer, eutanásia e castração com o médico veterinário Dr. Mario Rennó, graduado em Medicina Veterinária pela Escola de Veterinária da UFMG em 2003. Especialista em Clínica Médica de Pequenos Animais (Residência Médico-Veterinária) Nível 1 em 2005 e Nível 2 em 2006 pela Escola de Veterinária da UFMG. Especialista em Ortopedia e Traumatologia de Pequenos animais pela Universidade de São Paulo (USP-SP). Área de atuação: Clínica Médica, Cirurgia Geral, Ortopedia, Anestesiologia, Radiologia Internação e Reprodução de Pequenos Animais. Facebook: Aqui

Dr-Mario (1)

Adriana Santos: Os animais domésticos estão vivendo mais. Mas ao mesmo tempo algumas antigas doenças continuam exigindo o sacrifício dos animais. Qual os motivos?

Mario Rennó: Algumas doenças antigas exigem a eutanásia de animais nos tempos de hoje devido a vários proprietários protelarem em os levarem para acompanhamento veterinário periódico, deixando dessa forma que patologias atinjam graus em que não possibilitem tratamentos. Além disso a falta de condições também atrapalha muito pois doenças como a cinomose que é de fácil controle pode se tornar fatal na falta de vacinação.

Adriana Santos: Qual o motivo do aumento no número de casos de câncer em animais?

Mario Rennó: O aumento da longevidade, a preocupação da capacitação do profissional e o avanço na tecnologia de meios diagnósticos

Adriana Santos: Quais os cuidados que os tutores devem ficar atentos no tratamento de animais oncológicos?

Mario Rennó: Cada caso oncológico exige um cuidado específico, como por exemplo, o manejo de medicações ministradas, o cuidado com excretas dos animais tratados, ter acompanhamento periódico do oncologista responsável, realização de exames necessários.

Adriana Santos: Os animais podem ficar deprimidos? O que fazer?

Mario Rennó: Sim. Os animais tem sentimentos e sofrem muito em determinadas situações como o abandono, castigos etc. O carinho, atenção e cuidados são essenciais para o bem estar de seu pet.

Adriana Santos: Animais que só se alimentam de ração são mais saudáveis?

Mario Rennó: A alimentação pode ser apenas com ração, ou também vegetais, frutas e proteínas de origem animal, o mais importante que seja balanceada e calculada por um profissional qualificado.

Adriana Santos: Alguns tutores vegetarianos estão optando por ração sem ingrediente animal e uma alimentação mais natural. O que acha?

Mario Rennó: A alimentação natural pode ser uma excelente opçao para seu animal, desde que balanceada e contenha os ingredientes necessários para saúde de seu pet. Alguns derivados de proteína animal são extremamente importantes para o bom funcionamento do organismo do animal, dessa forma é necessária presença destes, mesmo em pequenas porções. Nao é simplesmente oferecer frutas, vegetais e cortar derivados de proteína animal. A dieta deve ser formulada por um profissional.

Adriana Santos: Quais os cuidados que devemos ter quando os animais são criados dentro de casa?

Mario Rennó: Os animais criados dentro de casa precisam de enriquecimento ambiental, principalmente os felinos. Áreas separadas para alimentação, banheiro, recreação e descanso. Tomar cuidado com objetos jogados pela casa, lixos desprotegidos, janelas e portões abertos e se for ter um gatinho telas nas janelas!!

Adriana Santos: A castração deixa o animal mais submisso, alterando o comportamento. Isso é positivo para o animal?

Mario Rennó: A castração não deixa o animal mais submisso nem altera negativamente seu comportamento, pelo contrário, o procedimento traz muitos benefícios como controle populacional e prevenção de varias doenças.

Adriana Santos: A eutanásia animal no Brasil é feita de forma responsável ? Há abusos?

Mario Rennó: A eutanásia no Brasil as vezes é necessária em casos terminais ou que irão comprometer a qualidade de vida do animal, mas infelizmente ainda é feita de forma desrespeitosa e às vezes indiscriminada e desnecessária.

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Saiba mais.

Guia Brasileiro de Boas Práticas para a Eutanásia em Animais

Conselho Federal de Medicina Veterinária