04 set 2015

O que está por trás dos arquivos secretos do Vaticano?

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Tudo o que é oculto, secreto, proibido parece chamar mais nossa atenção. E, de fato, uma aura de mistério envolve os Arquivos Secretos do Vaticano.

O local é um imenso repositório de informações. Em seus 85 quilômetros de prateleiras estão livros, documentos, papéis e imagens, contando cerca de dois milhões de registros, que a Igreja Católica acumulou em oito séculos. 85 quilômetros é a distância aproximada entre Belo Horizonte e Pará de Minas.

Mas o que há de tão secreto em tudo isso? O local, apenas parcialmente aberto para consulta, não é um simples depósito de dados, mas uma espécie de área proibida, que guarda detalhes que mudariam não apenas a história do cristianismo, mas também a da humanidade como a conhecemos. Lá seria possível encontrar informações “perigosas”, como os Evangelhos Apócrifos, o código da Bíblia, o verdadeiro terceiro segredo de Fátima, documentos confidenciais e outros, incluindo os relacionados à renúncia do papa emérito Bento XVI.

Se há algo que fascina as pessoas é a possibilidade ter acesso a dados considerados “proibidos”, que desafiam a realidade como a conhecemos e provocam nosso imaginário a conjecturar qual seria, na verdade, a realidade.

O “Saúde e Literatura” entrevista Sérgio Pereira Couto, 48 anos, autor do livro “Arquivos Secretos do Vaticano, jornalista e escritor especializado em história do esoterismo, da ciência criminal, de teorias de conspiração e das sociedades secretas. Foi redator das revistas História Oculta e Biblioteca Negra, publicadas pela Editora Mythos, além de ter participado das revistas Geek, Discovery Magazine e outras. Hoje continua a trabalhar com outras revistas da mesma editora (Biblioteca Secreta, Sociedades Secretas e Arquivos Negros), enquanto prepara novos livros que serão lançados em livrarias e bancas de jornais. Confira:

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Aquivo pessoal

Adriana Santos:  O que são os Arquivos Secretos do Vaticano e quais os principais assuntos abordados nos documentos?

Sérgio Pereira Couto: Os arquivos são a coleção de documentos comuns a qualquer administração. Só que, em vez de conter apenas documentos comuns, estes contém, inclusive, papeis históricos e importantes do vasto e amplo espectro de atuação da Igreja com o passar dos anos. E o mais interessante é verificar que há, por exemplo, a carta de Henrique VIII da Inglaterra requisitando o divórcio de seu primeiro casamento com catarina de Aragão ou trabalhos apreendidos pela Inquisição de autoria de Galileu Galilei, que foi investigado por eles por heresia ao afirmar que o Sol era o centro do universo, não a Terra.

Adriana Santos: Por que o tema despertou o seu interesse?

Sérgio Pereira Couto: Tudo que é secreto á passível de ser interpretado de maneiras diferentes. Tive uma oportunidade de viajar para o Vaticano e lá conheci o prefeito dos arquivos, que me disse algumas coisas interessantes, como o fato de que as pessoas interpretam mal os arquivos secretos e que a verdadeira definição deveria ser “arquivos do secretário”, já que o secretário do Vaticano, na época do pontificado de cada papa, é quem alimenta o órgão com os papéis, que ficam pelo menos 75 anos mantidos em segredos e só depois desse período é que são liberados para consulta pública.

Adriana Santos: O que há de tão interessante nos Arquivos Secretos que pessoas do mundo todo, pesquisadores ou não, se interessam tanto pelo assunto?

Sérgio Pereira Couto: Por ter muita coisa apreendida pela Santa Inquisição convencionou-se achar que os arquivos conteriam muitos documentos que provariam as mais variadas coisas. Os conspírólogos, os “especialistas” em conspirações, acham que lá há até correspondência entre os papas e ETs e coisas assim. Os arquivos viraram uma espécie de Área 51 europeia e temática, já que pertencem ao Vaticano.

Adriana Santos: Quais foram suas fontes de pesquisa? Quanto tempo demorou para reunir todas as informações disponibilizadas no livro?

Sérgio Pereira Couto: Minhas fontes de pesquisa foram quatro visitas de 20 minutos ao local, além de entrevistas com os encarregados. Todas as informações no livro demoraram cerca de sete anos no total para serem reunidas.

Adriana Santos: Quem tem acesso irrestrito aos Arquivos Secretos do Vaticano?

Sérgio Pereira Couto: Em geral os documentos mais modernos são apenas para os funcionários da cúria romana, enquanto o acervo é aberto para o público, mas mesmo assim é necessário passar por uma espécie de pré-seleção para obter acesso aos papéis.

Adriana Santos: Você acredita que o Papa Francisco possa facilitar o acesso dos arquivos que abordam o “Terceiro Segredo de Fátima”, um assunto que interessa grande parte dos católicos?

Sérgio Pereira Couto: Até onde sabemos, o terceiro segredo de Fátima foi revelado ao público pelo papa João Paulo II. Não há nenhum indício de que haveria mais para ser revelado sobre esse assunto. E não acredito que o papa Francisco saiba de algo espúrio e que ainda não foi divulgado.

Adriana Santos: O que se trata o Código da Bíblia?

Sérgio Pereira Couto: O código da Bíblia é uma sequência de letras equidistantes que pode ser revelado a partir do momento que se insere no computador i texto original do Velho Testamento em hebraico em forma de matriz de texto sem linhas ou parágrafos. A partir de então o computador pode procurar as passagens onde essas sequências revelam profecias ocultas e que podem citar o nome de qualquer um. O estudo, originado em Israel por um cientista matemático, ganhou o mundo quando foi divulgado pela mídia norte-americana, que encontrou no texto sequências que previam mortes como as de Yitzak Rabin e da princesa Diana Spenser, além de acontecimentos como a invasão do Iraque e o 11 de setembro. Especula-se, sem provas, de que uma cópia bem guardada do software que faz as análises estaria nos Arquivos Secretos, guardada a sete chaves, e que ela teria como realizar o mesmo estudo na Bíblia inteira, ao contrário do programa original, que só analisava o Antigo Testamento.

Adriana Santos: O que está por trás da renúncia do papa emérito Bento XVI?

Sérgio Pereira Couto: Razões administrativas fortes demais para que um papa pudesse enfrentar todos os problemas que uma Cúria Romana envolta em casos de corrupção e até de lavagem de dinheiro pudesse resolver por si mesmo. Quando se é um sacerdote que só tem força no campo espiritual e não no administrativo, essas coisas acontecem. Uma andorinha só não faz verão.

Adriana Santos: Por que os evangelhos apócrifos são tão “perigosos” para o “status quo” da Igreja Católica?

Sérgio Pereira Couto: Porque trazem ideias que são díspares ao que é pregado pelos evangelhos canônicos. Desde a descoberta no fim da década de 1940 a quantidade desses textos aumentou muito e ideias como a do suposto casamento entre Jesus e Madalena começaram a surgir. A intenção é manter uma unidade na administração espiritual, não promover separações e cismas, como aconteceu muito durante a história da Igreja.

Adriana Santos: Os Arquivos Secretos do Vaticano guardam segredos de seres extraterrestre?

Sérgio Pereira Couto: Que eu tenha visto, não. Isso é mais uma bobagem propagada por conspirólogos.

Adriana Santos: Para finalizar, o Vaticano ainda hoje faz alguma pressão política com relação às descobertas científicas que tentam provar a reencarnação?

Sérgio Pereira Couto: Que eu saiba as autoridades católicas tem como premissa não aceitar a noção da reencarnação. Sendo assim, não monitoram nada que corresponde ao assunto, preferindo se preocupar com astronomia, física, matemática e outros assuntos que ocupam as principais correntes de pensamento científico moderno.

01 set 2015

Precisamos conversar sobre drogas

Arquivado em Saúde & Literatura

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O Saúde & Literatura apresenta o livro Redes de Atenção aos Usuários de Drogas; Políticas e práticas – dos organizadores Telmo M. Ronzani, Pedro Henrique A. da Costa, Daniela Cristina B. Mota e Tamires Jordão Laport, lançado pela Cortez Editora. A apresentação foi feita por Julio Calzada,  ex-secretário geral da Junta Nacional de Drogas do Uruguai.

“Durante décadas nos fizeram acreditar que a questão das drogas estava determinada por uma oferta que indicava uma demanda passiva, quase ingênua e inofensiva, sendo “seduzida” por uma oferta diabólica e perversa. Pretendiam nos convencer de que a forma de resolver esta relação maquiavélica era mediante as normas, a lei penal e a fiscalização” (Julio Calzada).

O assunto drogas nunca é “ingênuo e inofensivo”, mas ainda cercado de sombras e de informações contraditórias. Encarar o assunto tão polêmico de forma ética, transparente, despido de moralidades religiosas e políticas não é fácil, mas necessário para que possamos avançar enquanto sociedade.

Os autores deste livro nos apontam um caminho não instrumental nem mecanicista, mas levando em conta o bom senso que complexidade exige.

Conversei com o professor, Dr. Telmo M. Ronzani, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia e Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Drogas-CREPEIA
Departamento de  Psicologia Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF .

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Arquivo pessoal

Adriana Santos: Qual a proposta central do livro?

Telmo Ronzani: O livro é uma coletânea de capítulos de autores nacionais e internacionais, especialistas na área. Estamos já há algum tempo trabalhando e planejando o livro. Escolhemos com bastante critério e cuidado quem seriam os colaboradores, bem como a temática escolhida. Temos um número considerável de livros sobre drogas e não gostaríamos que fosse apenas mais um livro, mas sim que trouxesse uma temática importante e atual. Por isso, pensamos focar no tema da rede de cuidado dos usuários e nas políticas sobre drogas, que são temas muito discutidos, mas com necessidade de uma literatura condensada e sistematizada.

Adriana Santos: O Brasil avançou com relação ás políticas de proteção contra o abuso de drogas no cenário mundial?

Telmo Ronzani: Acho que temos avançado, mas ainda temos muito ainda para conquistar. Essa é uma temática polêmica, com várias visões, interesses e pontos de vista. Por isso, é uma área que algumas vezes observamos avanços e ampliação da discussão e outras vezes, retrocessos. De qualquer maneira, apesar dos imensos desafios e lacunas ainda existentes, poderíamos dizer que temos mais mobilização e discussão sobre a temática. No Brasil, até o final dos anos 90, o tema se restringia à esfera policial e à filantropia e não havia um interesse muito grande de opinião pública. Agora já podemos observar uma rede se formando, o interesse de outros setores da sociedade e o fortalecimento de ações mais amplas e com maior qualidade e cuidado com os usuários. Mas, como disse, ainda há um longo caminho a percorrer.

Adriana Santos: Como promover o acesso de pessoas com transtornos mentais e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas e suas famílias aos pontos de atenção?

Telmo Ronzani: O caminho é a ampliação e o fortalecimento dessa rede de atenção. Rede esta que deve ser pública, gratuita, acessível, aberta, de base comunitária e que respeite minimamente os direitos dos cidadãos. E que tenha uma qualidade técnica aceitável. Devemos compreender que o uso de substâncias apresenta um componente social e cultural muito forte e que os problemas decorrentes do consumo não se limitam a somente um tipo de usuário. Por isso, além de uma rede amplamente disponível, ela precisa ter também uma organização e oferta de serviços variados, de acordo com a gravidade ou caracterização do problema. Por isso, como não existe somente um tipo de usuário, não devemos oferecer somente um tipo de tratamento.

Adriana Santos: Na sua avaliação os profissionais de saúde do SUS de Minas Gerais estão qualificados para receber na atenção primária pessoas em situação de crise provocada pelo abuso de drogas?

Telmo Ronzani: O que defendemos quando falamos da rede de atenção ao usuário de drogas é que “qualquer porta é a porta certa de entrada no sistema”. Portanto, qualquer profissional, de qualquer nível de atenção à saúde, ou mesmo de outros setores como assistência social por exemplo, deveria minimamente acolher de forma adequada a todos que procuram o serviço, que saiba avaliar a demanda apresentada, que faça uma intervenção inicial e que insira esta demanda na rede de acordo com essa necessidade. Sabemos que a atenção primária é um nível importante pela base comunitária de ação, mas as situações de crise devem ser atendidas em outros níveis de atenção como Prontos Socorros ou os CAPS AD III, que tem uma infraestrutura mais adequada para esses casos. De qualquer maneira, os profissionais de APS podem acompanhar aquele usuário, pois sabemos que os casos de crise são resultados de comportamentos de consumo diário que acontece na comunidade.

Os profissionais do SUS de Minas Gerais, assim como outros estados, geralmente não tem formação adequada para lidar com tal problema. Além disso, ainda temos o problema da articulação da rede e de cobertura necessária para tratamento. Por isso, defendemos não só a formação adequada, mas também maior articulação da rede e maior investimento no SUS para lidar com os problemas do uso de droga no sistema público.

Adriana Santos: Muitos leitos psiquiátricos foram desativados por conta de políticas de favoreciam a não institucionalização. Como ficam as pessoas que enfrentam problemas relacionados ao abuso de drogas lícitas e ilícitas?

Telmo Ronzani: A literatura na área já demonstra que tratamentos com longos períodos de internação não demonstram maior eficiência em comparação aos demais. Além disso, já é muito conhecido os maus tratos e total desassistência ocorridos nos tempos dos grandes hospitais psiquiátricos no Brasil. Sabemos também que muitos leitos foram ocupados por usuários de álcool e outras drogas inadequadamente. Isso não quer dizer que a internação não traz benefício algum. O mais adequado é que tenhamos uma rede de cuidado aberta, que tenha capacidade técnica e organizacional para avaliar as necessidades do usuário para saber qual a modalidade de tratamento indicada. Algumas vezes a internação pode ser a melhor opção, desde que haja um plano terapêutico bem estabelecido, tempo limitado e com um acompanhamento pós-alta definido.

Na população geral, ainda há a ideia de que dependência de drogas é uma “doença” de evento único e que se resolve com internação longa e com o isolamento social, mas a literatura na área já demonstra que é uma condição que necessita de um cuidado contínuo, interdisciplinar, de base comunitária e que algumas vezes se beneficiará da internação. Portanto, é preciso que os chamados serviços substitutivos aos hospitais de fato cumpram seu papel dentro da rede e que tenha condições mínimas de funcionamento.

Adriana Santos: Sabemos que a promoção à saúde é o caminho mais ético e seguro para garantir mais qualidade de vida. No entanto sabemos também que a mudança de comportamento é um processo demorado e requer vigilância constante. Como fazer promoção á saúde para evitar o abuso de drogas no Brasil?

Telmo Ronzani:  Primeiramente é preciso mudar nossa percepção sobre o uso e usuário. Um dos grandes problemas em relação ao consumo de drogas é o preconceito e estigma associados. Isso acaba excluindo uma parcela importante da população de seus direitos, de cuidados e abordagens adequadas, de uma informação realista e verdadeira. Esses são pontos que muitas vezes pioram a qualidade de vida de usuários e seus familiares. Principalmente quando falamos da população mais pobre.

Além disso, precisamos começar a trabalhar com o tema de forma mais verdadeira e honesta. As informações sobre drogas que chegam para a maioria da população geralmente são de péssima qualidade e muitas vezes inverídicas. Essa má informação serve a muitos interesses de grupos que exploram o tema para diversos fins e gera um pânico e consequente controle sobre as pessoas. Uma boa rede de cuidados no tema se inicia com uma prevenção e promoção bem feitas.

Do ponto de vista da promoção, é preciso entender que o tema de drogas faz parte de um sistema social excludente e que esse consumo e tudo mais em sua volta são sinais dessa desigualdade social em nosso país. Do ponto de vista da prevenção, precisamos de ações amplas e sistematizadas, de qualidade sobre os riscos do consumo de drogas. Já vimos que a doutrinação amedrontadora não funciona. O que precisamos é de uma informação que leve à real conscientização dos jovens, que seja crítica, construtiva e libertadora.

Adriana Santos: Na sua avaliação os grupos religiosos que abrigam pessoas com históricos de abuso de drogas realizam um trabalho que favorece a saúde pública no Brasil?

Telmo Ronzani: Esse é um outro tema bastante polêmico. Gostaria de falar especificamente sobre a modalidade de Comunidades Terapêuticas, que tem um histórico e base teórica e filosófica muito específica. Algumas delas de base religiosa, outras não. Esse grande crescimento de grupos que se intitulam comunidades terapêuticas tem gerado grande confusão e é importante fazermos tal distinção. Como já havia dito, podemos ter diferentes modalidades de tratamento que podem beneficiar algumas pessoas e outras não. As Comunidades Terapêuticas sérias e que asseguram os princípios dos direitos humanos, a livre escolha dos usuários, a não imposição religiosa, com infraestrutura adequada e profissionais capacitados, podem ser importantes na rede de atenção aos usuários, assim como outras modalidades. Sei que a defesa da qualidade dessas CTs vem inclusive por algumas associações da área, que lutam por uma regulamentação e maior qualidade. O que criticamos abertamente é o uso que alguns grupos fazem de algumas denominadas CTs que usam do desespero de famílias e pessoas para a exploração econômica e como capital eleitoral, sem o respeito mínimo dos direitos humanos. Portanto, as CTs podem ser modalidades complementares à saúde pública importantes, mas devemos criar mecanismos para separar aquelas que de fato objetivam cuidar dos usuários dos demais grupos.

Adriana Santos: A descriminalização das drogas é o caminho?

Telmo Ronzani: A descriminalização é apenas um aspecto da questão. É um aspecto muito importante pois traz para a esfera da saúde pública e não mais para a esfera criminal o tema do uso de drogas. Principalmente quando falamos da população marginalizada e das classes mais pobres de nosso país. Mas, por si só, acho insuficiente. Mesmo que o porte e consumo de drogas seja descriminalizado, se não trabalharmos numa ampla mudança de concepção sobre o uso e usuário; se não houver uma ampla rede de promoção, prevenção e tratamento disponível; que seja gratuita e de qualidade para todos os cidadãos, continuaremos com o processo de exclusão e dificuldade de acesso da população no cuidado sobre o problema.

Para conhecer melhor a publicação . AQUI

26 ago 2015

Meu Filho é Esquizofrênico

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Maione e Vilma1-foto Wilson Avelar

Foto divulgação

O “Saúde e Literatura” apresenta o livro , “Meu Filho é Esquizofrênico”, um relato denso de uma mãe em busca de respostas.

Sem a pretensão de ser um tratado sobre a doença ou um histórico manicomial de Minas Gerais, “Meu Filho é Esquizofrênico” relata a luta de uma mulher contra o preconceito em relação à esquizofrenia e a tentativa de entender a doença presente de forma dramática na família, inclusive na vida do próprio filho.

Em algumas ocasiões de crise, o filho da professora Maione Rodrigues Batista, conhecido como Djalminha, tentou matar a própria mãe. Nessa caminhada, ela passou por uma série de médicos, terapias das mais diversas até chegar ao que ela considera o sentido de sua vida: a Casa Hollos, uma casa de apoio idealizada por ela para amparar pessoas com esquizofrenia.

“Meu Filho é Esquizofrênico” foi feito a quatro mãos. Para realizar um sonho e ajudar mais pessoas a entender melhor a doença, Maione contou com a ajuda da experiente jornalista mineira, Vilma Fazito.

Conversei com as autoras do livro. Confira:

Adriana Santos: A esquizofrenia é uma doença mental cercada de preconceitos e desinformação. Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Vilma Fazito: A ideia de escrever o livro foi de Maione, uma amiga, que solicitou-me contar sua história, que é, na realidade, a luta constante de uma mãe pelo menor sofrimento do filho.

Adriana Santos: Quanto tempo foi necessário para as amigas amadurecessem a ideia de relatar uma experiência pessoal, íntima e afetiva sobre a esquizofrenia?

Vilma Fazito: Era uma ideia antiga da Maione e que ela somente agora conseguiu concretizar, sobretudo porque precisava estar pronta para começar a falar sobre o assunto.

A vida de Maione nunca foi um mar de rosas, muito pelo contrário, daí a necessidade de ser acompanhada por psicólogos, psicanalisas e psiquiatras desde tenra idade, fato que lhe deu forças suficientes para suportar todos os reveses que surgiram ao longo de sua existência e não foram poucos.

Tenho para mim, que, desde que se entende por gente, minha amiga se preparou para essa catarse. Isso mesmo, o relato trata-se de uma catarse, difícil demais de ser processada pela inquieta mente da protagonista. Para se ter uma ideia, demorei mais de um ano para escrever um livro de 128 páginas, tão denso o assunto e a situação.

Adriana Santos: O livro contou com a ajuda de profissionais da saúde mental?

Vilma Fazito: Contamos com a colaboração do psiquiatra de Belo Horizonte, Paulo Roberto Vaz de Melo, que me orientou quanto à utilização dos nomes corretos de doenças e medicamentos, inclusive, produzindo os textos para as notas disponibilizadas no final do livro.

As informações sobre o transtorno e outras doença citadas no livro e a sua linguagem ideológica são da responsabilidade da própria Maione em função de sua larga experiência com o problema. Mas gostaria de deixar bem claro que o livro “Meu filho é esquizofrênico” não é nenhum tratado científico sobre o tema, nem foi escrito com esse propósito.

Não coloca em questão a luta antimanicomial, embora o assunto tenha sido levantado “en passant”, e não é nenhuma obra para prêmio Nobel de Literatura. É apenas a história de uma mãe que dá a vida pela felicidade do filho doente.

Adriana Santos: Qual a narrativa do livro que foi mais difícil escrever?

Vilma Fazito: Acredito que todas as narrativas foram difíceis, até mesmo as hilárias. Embora a dureza do assunto, houve momentos de descontração sim. E por incrível que pareça, o momento mais difícil para Maione e para mim, consequentemente, não foi nenhum relacionado ao seu filho, nem mesmo ao irmão com problema parecido, mas a relação de Maione com a mãe. Esse sim foi o mais difícil, mais contundente, mais triste.

Adriana Santos: Como foi a experiência de escrever “Meu filho é esquizofrênico”?

Maione Rodrigues Batista: Para mim, esse livro é uma lavagem de alma no sentido da missão cumprida. Acredito que, com essa obra, contribuo para desmistificar uma doença que não tem cura e que, embora os psiquiatras afirmem que tem tratamento, eu digo que o mesmo não é tão eficaz quanto se imagina.

O tratamento medicamentoso aliado a terapias reduz os sintomas mas não acaba com todos eles, nem faz a mágica de tornar a vida do paciente “quase normal”. O portador da doença continua incapaz de desempenhar funções sociais básicas diárias, como higiene pessoal, trabalho, estudo e relacionamento em geral. Essas questões ficam comprometidas.

Acho que o livro pode contribuir para diminuir o preconceito da maioria da população sobre a doença e servirá, certamente, de exemplo para outras famílias que sofrem com o mesmo problema. O relato deixa uma mensagem de otimismo. Passei pela fase de desespero, pela fase de esperança de cura. Hoje passo pela fase de aceitação, sem estigma, sem “frescura”. Não tenho mais medo de enfrentar a esquizofrenia.

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“Meu Filho é Esquizofrênico” conta com o prefácio do jornalista e psicólogo Mauro Werkema. Valor do livro: 40 reais.

Esquizofrenia

A esquizofrenia é um transtorno mental psicótico que acomete 1 por cento da população mundial, sem distinção de raça, credo ou poder aquisitivo.

As pessoas que apresentam esquizofrenia têm alucinações, manias de perseguição. Muitos ficam apáticos em determinadas fases da doença.O uso de álcool e drogas pode ser considerado agente desencadeador de paranoias.

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