28 fev 2019

Como identificar os sinais de depressão no idoso?

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O Brasil é campeão de casos de depressão na América Latina. Quase 6% da população, um total de 11,5 milhões de pessoas, sofrem com a doença, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).  A quantidade de casos de depressão cresceu 18% em dez anos. Até 2020, esta será a doença mais incapacitante do planeta, na previsão da OMS.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que pessoas, entre 60 e 64 anos de idade, representam a faixa etária com maior proporção (11%) de diagnóstico de depressão. E este índice só vem aumentando com o passar dos anos. Mas como identificar os primeiros sinais de depressão, principalmente em idosos? Entreviste o Dr Jonas Jardim de Paula, professor de psicologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Confira:

Adriana Santos: Como identificar alguns sintomas de depressão em idosos?

Dr. Jonas Jardim de Paula: Os sintomas de depressão nos idoso costumam ser um pouco diferente dos apresentados em crianças, adolescentes e adultos. A grande diferença consiste-se nos sintomas físicos ou somáticos da doença, como mudança no apetite, sono, desejo social e energia. Muitas dessas mudanças ocorrem no envelhecimento típico, e nem sempre são indicativas de um transtorno depressivo. Sendo assim os sintomas mais importantes são cognitivos e afetivos, como tristeza, desesperança, retraimento social, perda de prazer ou motivação pelas atividades e falta de energia.

A depressão em idosos pode ser consequências de doenças crônicas e degenerativas?

Sim, ela pode. Quando fazemos o diagnóstico de depressão há um especificador chamado “depressão devido a outra condição médica”. Ele é usado quando para o profissional que faz o diagnóstico do paciente todo quadro depressivo é decorrente da doença em questão. Um dos exemplos é a depressão na doença de Alzheimer. Contudo a presença de uma doença, sobretudo as crônicas, predispõe o paciente a desenvolver um quadro de depressão tradicional. Nesse sentido a depressão pode ser tanto uma causa ou consequência da saúde geral do paciente.

A medicação é sempre necessária nos casos de depressão em idosos?

Na maioria das vezes sim. O melhor tratamento disponível atualmente é a combinação entre as medicações atuam no controle dos sintomas depressivos (há várias classes diferentes, selecionadas à critério médico) e a psicoterapia, sobretudo um tipo específico chamado terapia cognitivo-comportamental. Esse seria por assim dizer o “padrão-ouro” do tratamento. Ele gera o melhor benefício ao paciente, de forma mais ágil, mais duradoura, com menos efeitos adversos. Consiste-se também no melhor custo-benefício. Pode-se usar também uma das duas de forma isolada, a psicoterapia ou a medicação, mas com ganho clínico em geral pior que a combinação de tratamentos. Outras intervenções possíveis mas pouco utilizadas, e reservadas a pacientes que não respondem ao tratamento habitual são a estimulação magnética Transcraniana e a Eletroconvulsoterapia.

A mudança de hábitos prejudiciais à saúde pode ajudar na prevenção da depressão?

Podem. Sabemos que o sedentarismo, a baixa participação social, ausência de rotina e poucas atividades cognitivas (sobretudo aquelas que nos fazem pensar descobrir coisas novas) são fatores de risco para se desenvolver depressão. Um estilo de vida física, mental e socialmente ativo pode ajudar na prevenção do transtorno.

Qual o papel da família?

A família tem um papel central na depressão do idoso. Por anos a depressão nessa fase do desenvolvimento foi interpretada como um medo ou receio do fim da vida, uma angústia existencial. Estudos clínicos com os pacientes idosos contudo retratam que a depressão parece um quadro mais calcado nas relações pessoais e sociais que propriamente a esse senso de finitude. Uma das queixas mais frequentes dos idosos deprimidos é a pouca participação da família (filhos e netos) em momentos positivos do dia a dia. Por outro lado famílias disfuncionais, sobretudo os atritos e desavenças entre filhos, netos e irmãos são um fator de risco importante para a depressão do idoso.

As terapias alternativas podem ajudá-los no enfrentamento da doença?

Terapias alternativas não são tratamentos válidos e carecem de qualquer lastro científico para seu uso. Contudo, ainda assim, foram adotadas pelo sistema de saúde a despeitos dos protestos da maior parte das entidades profissionais. Elas podem ajudar no enfrentamento da doença, mas nunca como tratamento em si. As terapias alternativas em geral funcionam como placebos, ou seja, geram benefícios clínicos indiretos para o paciente, não dependendo da terapia em si, mas do próprio paciente. Eu reservaria as mesmas como uma opção APÓS o tratamento com as técnicas cientificamente validadas.

Idosos com depressão foram jovens deprimidos?

Não necessariamente. Há quadros de depressão com início precoce, e são os que compreendemos melhor nesse momento. Tudo indica que essa depressão de início mais precoce, na adolescência o vida adulta jovem, pode se cronificar, gerando um transtorno chamado transtorno depressivo persistente ou apresentar múltiplos episódios ao longo da vida, adentrando a velhice. Contudo há um segundo tipo de depressão chamado de depressão de início tardio, onde os primeiros sintomas ou o primeiro episódio ocorre após os cinquenta anos de idade. Essa depressão parece ser biológica e psicologicamente diferente da depressão que se inicia mais precocemente. Ela apresenta pior resposta aos tratamentos e é um fator de risco para o desenvolvimento de outras doenças ou transtornos, incluindo quadros de demência.

Qual o melhor tratamento contra a depressão?

Como comentado brevemente no tópico três, o melhor tratamento é a combinação de medicações que gerem algum benefício aos sintomas (dentre elas os inibidores seletivos de recaptação de serotonina) com a psicoterapia, em especial a terapia cognitivo-comportamental. Essa seria a melhor abordagem inicial à maioria dos pacientes.

Depressão tem cura?

Não. Depressão não é uma doença propriamente dita, como uma infeção, cardiopatia ou neurodegeneração. Ela é compreendida atualmente como um transtorno, um conjunto de sintomas ou sinais, válidos e confiáveis, que comprometem significativamente o funcionamento, bem estar ou saúde do paciente. Apesar de termos descoberto muito sobre o desenvolvimento da depressão sua causa não é clara. Em geral é difícil desenvolvermos tratamentos que curam se não temos muita certeza das causas. Contudo o tratamento da depressão é eficaz na redução e alívio dos sintomas, melhor a qualidade de vida e bem estar do paciente, promove maior funcionalidade no dia a dia e deve ser adotado quando o diagnóstico faz-se presente.

26 mar 2018

Livro aborda a presença consciente e inconsciente dos animais

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Os animais nos encantam por vários motivos, conscientes ou inconscientes. Motivadas pela observação de sua importância no cotidiano e na prática clínica como analistas, as autoras do livro “OS ANIMAIS E A PSIQUE abordam na publicação um rico simbolismo ligado ao asno, ao camelo, ao gato, ao golfinho, ao morcego, à raposa e ao rato. Características biológicas, detalhes sobre o habitat e dados atuais acerca desses animais dividem espaço com lendas, mitos e fatos históricos de diversos lugares do mundo – da Amazônia brasileira à Romênia, passando pelo Japão e por muitas regiões longínquas. Este livro – segundo volume de uma obra produzida ao longo de anos de pesquisa – é mais uma contribuição aos inúmeros esforços desenvolvidos por grupos que lutam pelo respeito e pela preservação de nossos companheiros animais. Nesse sentido, o leitor passa a ser conosco mais um elo dessa corrente em prol da harmonia e da saúde da vida no planeta.

Adriana Santos:  Qual é o objetivo central do livro?

Autoras (Denise Gimenez Ramos, Maria do Carmo De Biase, Maria Helena Monteiro Balthazar, Neuza Maria Lopes Sauaia, Roseli Ribeiro Sayegh, Stella Maria T. Cerquinho Malta): O objetivo central deste livro é conhecer e explorar o simbolismo animal nas mais diferentes culturas e épocas, mostrando a relação íntima e plena de significados entre a vida humana e a vida animal. Além disso, se propõe a relacionar este simbolismo à psique, uma vez que os símbolos são essenciais para sua estruturação. Neste sentido o contato com a riqueza do simbolismo animal traz a possibilidade do homem conhecer e se relacionar com sua instintividade, promovendo um equilíbrio e uma integração entre a esfera intelectual e os instintos, fundamentais para o desenvolvimento da personalidade.

Quais foram os critérios para a escolha dos animais analisados?

Nossa opção foi pesquisar os mamíferos, dada a sua proximidade com o ser humano na escala evolutiva. A escolha de cada um dos animais dependeu do interesse das autoras, sem o uso de um critério de maior ou menor importância ou popularidade dos animais eleitos. Independentemente do animal escolhido, o método utilizado para estudar seu simbolismo pode perfeitamente ser aplicado ao estudo de qualquer outro animal, dada a impossibilidade real de elencar todos os animais existentes no universo, para tal proposta de trabalho.

Qual a relação simbólica dos animais apresentados com o comportamento humano?

Simbolicamente a energia dos animais manifesta-se como diferentes forças no homem. Cada ser humano contém em si todos os animais: dentro de nós está o gato, o rato, o camelo, o golfinho … cada um exemplificando parte de várias convenções comportamentais, que podem ser encontradas nas expressões populares como “esperto como uma raposa”, “teimoso como um asno” ou “trabalhar como um camelo”.  Cada uma dessas e de outras expressões tão comuns na fala popular, retrata uma característica do animal, que corresponde a um sentimento ou a uma qualidade humana.

Qual o marco teórico do livro?

Embora o livro tenha sido escrito tendo como base teórica a Psicologia Analítica de Jung, ele é muito mais amplo já que apresenta os dados de uma enorme pesquisa qualitativa sobre os animais estudados. Para cada um dos animais são apresentados, além dos dados biológicos e etológicos já citados, uma enorme quantidade e diversidade de mitos, contos, lendas e folclore do mundo todo. Do Ocidente ao Oriente, do Norte ao Sul, da Antiguidade até os nossos dias. Nada foi desprezado, nele estão descritas histórias folclóricas da pequena ilha de Samoa, da Europa, do Antigo Egito, das tribos nativas americanas de norte a sul e em especial as brasileiras. Isto o torna um livro totalmente diferenciado, realmente uma referência.

Porque os animais estão tão presentes nas manifestações culturais e folclóricas?

Os animais, presentes na vida de todo ser humano, mesmo que não direta e objetivamente, representam uma instância importante da psique humana – a vida instintiva – tanto no plano pessoal quanto no plano coletivo. Desta forma trazem a possibilidade do homem relacionar-se, através desses símbolos, com seus aspectos instintivos, tão vitais na experiência e na vida humana. Por essa razão são frequentemente encontrados nas produções culturais dos mais variados povos, assim como nos sonhos, fantasias, na arte e em tantas outras expressões do inconsciente.

Que tipo de influência recebemos do mundo animal?

Não nos esqueçamos que pertencemos a ele e que evolutivamente estamos associados à classe dos mamíferos. Vivemos e evoluímos conjuntamente a milhares de anos. Esta interação vem sendo modificada durante toda a história da evolução em nosso planeta. Certamente mecanismos de defesa, de sobrevivência e reações instintivas da mais variada amplitude estão entre as maiores influências que recebemos. Estamos passando atualmente por mais uma transformação na relação homem/animal, a maioria de nós deixou de compartilhar o mesmo ambiente selvagem ou campestre para vivermos nos centros urbanos, mas não conseguimos nos separar deles e os trazemos para dentro de nossas casas… de nossas vidas…

Os animais analisados, qual é o mais surpreendente? Qual o motivo?

Vários deles nos revelaram aspectos surpreendentes e por vezes desconhecidos, assim como atributos presentes com muita força e relevância em seus simbolismos. Como exemplo podemos citar a dimensão da capacidade de resistência do camelo, a qualidade de guia e salvador do golfinho, a importância do morcego por eliminar insetos nocivos e seu aspecto polinizador/fertilizador, sua imagem sendo usada por muitos povos como amuletos provedores de sorte e proteção, a gratidão da raposa, a visão do rato como animal benéfico em algumas culturas, simbolizando prudência e retidão, e sendo adorado num templo na Índia e o gato preto tendo um caráter positivo nas culturas orientais.

O que é um animal de poder e qual a relação com nosso inconsciente?

O poder de um animal é conferido pela projeção de poder que o ser humano e/ou sua sociedade faz sobre ele. Esta projeção se dá de acordo com as características biológicas, etológicas ou simbólicas que damos a cada um deles. Animais fisicamente grandes e pesados, como o elefante, evocam projeções referentes principalmente a solidez, estabilidade, suporte, segurança, força e proteção. Já sobre a raposa é projetado o poder de ser esperta e astuta, não por suas características físicas, mas etológicas de conseguir sobreviver devido a sua capacidade de aguardar a melhor hora para atacar e criar estratégias para não ser pega. Estes poderes projetados sobre cada animal também estão presentes em nosso inconsciente, quando conscientes e desenvolvidos podem ser utilizados como qualidades protetoras frente a situações ameaçadoras por exemplo.

Qual a principal mensagem do livro?

A principal mensagem deste livro diz respeito à importância dos animais e do significado simbólico das caraterísticas de cada um deles para o homem, no que concerne à compreensão mais profunda da vida psíquica. Entendemos que tal compreensão promoveria uma ampliação do conhecimento de si mesmo e uma maior integração e equilíbrio no desenvolvimento da personalidade. Esta condição possibilitaria ainda ao indivíduo a consciência da importância da vida animal e da preservação da natureza para a viabilidade da vida no planeta.

27 jul 2015

Livro alerta sobre o luto não reconhecido

Arquivado em Saúde & Literatura

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O tema do luto não sancionado é pouco abordado na literatura clínica. Neste livro, profissionais da área de saúde preenchem essa lacuna tratando de temas como prematuridade, infidelidade conjugal, aposentadoria, morte de animais de estimação, perda de familiares por suicídio e o luto de cuidadores profissionais. A obra também traz estratégias para lidar com a perda e destaca os transtornos psiquiátricos decorrentes do luto.

O que sente uma mãe que sofre pelo filho desaparecido? Como alguém elabora a morte de um amado animal de estimação? De que forma um profissional que convive com pacientes diariamente encara a perda? Muitas são as experiências de luto ignoradas ou desacreditadas. No livro O resgate da empatia – Suporte psicológico ao luto não reconhecido, lançamento da Summus Editorial, profissionais da área de saúde contribuem de maneira fundamental para o entendimento do luto não reconhecido. Organizado pela psicóloga Gabriela Casellato, o livro aborda as diversas faces da perda com embasamento teórico, estratégias e ferramentas úteis para ajudar psicoterapeutas e demais profissionais de saúde a reconhecer o que ainda é irreconhecível.

“O processo de luto é normal e necessário, mas a falta de empatia em relação às perdas que enfrentamos é um importante determinante de nosso adoecimento físico e mental”, afirma Gabriela. Segundo ela, o não reconhecimento do luto é um fenômeno que se estabelece em diferentes situações e suas características são minimizadas ou negadas pelo próprio enlutado e/ou pela comunidade e suas regras socioculturais.

O livro traz uma profunda reflexão sobre diferentes situações: o luto de um filho prematuro e suas consequências para a formação do vínculo mãe-bebê; a questão da infidelidade conjugal; as especificidades e consequências do luto pela aposentadoria, fenômeno que ganha espaço com o aumento da população de idosos; o luto por bichinhos de estimação, em especial, nas cidades grandes, cujo papel do animal nas teias familiares é essencial; o luto pelo desaparecimento, que é abordado com profunda riqueza, dando enfoque ao luto materno; e também o luto em situações de suicídio, um assunto quase tabu na sociedade.

Dois capítulos também exploram o luto dos cuidadores profissionais, mostrando um pouco mais de perto a dor de quem cuida da dor. Em depoimentos tocantes e corajosos, as autoras expõem suas próprias dores diante das perdas pessoais e das de seus pacientes.

A obra apresenta ainda diferentes aspectos e recursos que a psicologia vem desenvolvendo no que se refere ao enfrentamento desses lutos. Um deles relaciona o conceito de luto não reconhecido à teoria do apego, mostrando a influência que a formação de vínculos tem sobre a ruptura e, consequentemente, sobre o luto. O outro mostra intervenções importantes como a arteterapia.

Por fim, o livro traz também uma lista de serviços de atendimento psicológico para enlutados no Brasil. “O objetivo é tornar a ajuda acessível nos mais diferentes cantos de nosso país para enlutados que surgem aos milhares a cada dia, muitos deles de modo silencioso e vulnerável”, afirma.