21 jul 2015

Médico lança guia sobre comunicação e tratamento de câncer

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comunicacao medico paciente

Complexa e delicada, a comunicação entre médico e paciente é fundamental para o sucesso do tratamento. Quando o assunto é o câncer, ela é ainda mais vital. Partindo da experiência de mais de 30 anos em oncologia, o médico Ricardo Caponero criou um guia de orientação sobre como estabelecer, de forma respeitosa e franca, uma comunicação efetiva e terapêutica com os portadores de câncer.

Apesar de todos os avanços médicos e tecnológicos das últimas décadas, o câncer ainda é considerado tabu para a maioria das pessoas. Assim, quando o indivíduo tem o diagnóstico de câncer, por vezes depara com uma espécie de “conspiração do silêncio”, o que pode prejudicar o tratamento e provocar consequências psicológicas profundas. Por outro lado, a equipe médica nem sempre está preparada para transmitir ao paciente informações claras, precisas e verdadeiras. Partindo de uma experiência de mais de 30 anos na área, o oncologista Ricardo Caponero dispôs-se a criar um guia sobre como dialogar com esses pacientes. No livro A comunicação médico-paciente no tratamento oncológico – Um guia para profissionais de saúde, portadores de câncer e seus familiares (184 p., R$ 53,10), lançamento da MG Editores, ele explica como estabelecer e manter uma comunicação respeitosa e franca e, ao mesmo tempo, efetiva e terapêutica.

Embora seja uma atividade comum e rotineira na área da saúde, a arte da comunicação assume um papel muito mais significativo em situações particulares em que a mobilização de grande quantidade de conteúdo emocional está em evidência. Na oncologia, ela se dá entre o profissional e um paciente que não gostaria de estar ali, que sabe que vai ouvir muitas coisas que não desejaria ouvir ou nega a doença que tem. Se a comunicação já apresenta dificuldades, nessas circunstâncias ela se torna ainda mais desafiadora.

Por isso, segundo Caponero, os oncologistas deveriam conhecer em profundidade os meandros da comunicação dinâmica, já que ela é parte fundamental do tratamento. “Os profissionais que participam do diagnóstico devem estar minimamente esclarecidos sobre a importância e o impacto que a comunicação exerce – tanto como alento quanto como sofrimento”, afirma.

Entrevista com o oncologista Ricardo Caponero

Adriana Santo: Qual a melhor maneira de comunicar o diagnóstico de uma doença com tantos esteriótipos, como é o caso do câncer, sem perder a esperança e adesão ao tratamento?

Ricardo Caponero: Com sensibilidade e sinceridade. É exatamente sobre como fazer isso, e as dificuldades que encontramos, que discorremos no livro. A infomração correta e adequada é o principal fator para garantir a adesão do paciente ao tratamento. Ele fica sabendo exatamente o que está tratando, como e porquê.

Adriana Santos: O paciente deve ser informado sobre todos os aspectos do câncer?

Ricardo Caponero: Sim, sem dúvida, mas essa informação deve ser gradual, dosada com as suas necessidade em cada momento da evolução da doença.

Adriana Santos:  Como a família pode colaborar no entendimento do câncer, em especial em casos terminais?

Ricardo Caponero: O mais importante é sendo franca, aberta, e mostrando-se pronta para conversar sobre as questões delicadas da existência. O que não ajuda é o fazer de conta que a situação não é grave, que nada está acontecendo. Isso é o que chamamos de conspiração do silêncio, e impede o paciente de falar diretamente sobre os assuntos que lhe são caros e delicados.

Adriana Santos: Qual o papel da mídia no entendimento do câncer?

Ricardo Caponero: Bom por colocar o tema frequentemente em pauta, mas ruim por muitas vezes se esquivar de discussões sérias e voltar-se mais para o “marketing” da cura

Adriana Santo:  O paciente tem direito à informações sobre o tratamento do câncer, mesmo que a família rejeite essa ideia?

Ricardo Caponero: O paciente tem direito a sua autonomia. Ninguém melhor do que você mesmo para decidir sobre a sua vida. As Diretivas Antecipadas de Vontade, como definidas pelo Conselho Federal de Medicina, orientam os médicos que a família só deve ser ouvida se esse for o desejo do paciente. No entanto, o Código de Ética Médica permite ao médico omitir a informação ao paciente em uma única condição, se essa comunicação causar-lhe um mal maior.

Adriana Santos:  A internet é uma boa fonte de consulta para o entendimento é tratamento do câncer?

Ricardo Caponero: Sim, mas é preciso que os pacientes sejam orientados quanto aos melhores sites, e sobre o como procurar as informações e interpretar os dados encontrados. Ou seja, a internet é excelente se o paciente é auxiliado na busca e interpretação dos dados que ele precisa.

Câncer no Brasil

No Brasil, estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para os anos de 2015 e 2016 apontam a ocorrência de aproximadamente 576.358 casos novos de câncer por ano. Estima-se um total anual de 302.350 casos novos para o sexo masculino e 274.230 para o feminino. Nos homens, os tipos mais incidentes seriam os cânceres de pele não melanoma, próstata, pulmão, colón e reto e estômago; nas mulheres, os cânceres de pele não melanoma, mama, colo do útero, colón e reto e glândula tireoide.

O autor

Graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Caponero é especialista em Oncologia pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc) e em Cancerologia Clínica pela Associação Médica Brasileira (AMB), além de mestre em Oncologia Molecular pelo Centro de Investigaciones Oncológicas de Madri, Espanha. Membro da American Society of Clinical Oncology (Asco), da European Society for Medical Oncology (Esmo), da Multinational Association of Supportive Care in Cancer (Mascc), da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO) e da Associação Brasileira de Cuidados Paliativos (ABCP), é ex-presidente e atual diretor científico dessa última instituição. Atua como oncologista na Clinonco – Clínica de Oncologia.

15 jul 2015

Raphael Rocha: a face do artista que aposta na liberdade criativa

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luarrafa

Sempre fui uma “faz tudo” nas redações de jornalismo, onde tive a felicidade de trabalhar, e uma curiosa de plantão. Por isso, hoje, me considero uma multimídia, com experiência em rádio, audiovisual e internet. Acho que é uma tendência cada vez mais forte que motiva, em especial, profissionais da comunicação, da arte e da literatura.

Mas o objetivo da minha postagem é apresentar um artista que tem este perfil. Ele cuida de cada detalhe de sua produção, com muito carinho, dedicação e curiosidade. Raphael Rocha é autodidata e nasceu no Rio de Janeiro no final do verão de 1980. Recentemente publicou os livros: “No passar dos ventos – Poemas de outros tempos (2014) e Lua dos infantes (2015).

De 2002 a 2006 colaborou como ilustrador e designer gráfico freelancer em jornais e revistas do Brasil e do exterior. Publicou ilustrações no antigo Jornal dos Sports (Rj), Il Romanista (Itália), revista Forza Roma (Itália), revista Tatame (Brasil), Revista “A+” do diário esportivo o Lance!

O livro “Lua dos infantes” acabou de sair do forno. São poemas amorosos, reflexões metafísicas, transfigurações do real e jogos de linguagem, carregados de lirismo, delicadeza e força, amor e nostalgia. A publicação traça um pouco dos possíveis caminhos que a alma de coração aberto é capaz de percorrer e de relembrar.

“Lua dos infantes é uma edição autoral e toda a produção, do design de capa à concepção gráfica do livro num todo, é também de minha autoria, exceto a diagramação. Por se tratar de uma tiragem pequena será vendido apenas na livraria Folha Seca (Rio de janeiro) ou comigo através das redes sociais (Facebook e blogger). A poesia de um estreante, muitas vezes, está para o mercado editoral como os legumes, frutas e verduras para muitas crianças quando entram em um supermercado. É sempre a última das últimas opções”. diz Raphael Rocha.

15 jun 2015

Relação paciente e psicanalista do Século XXI

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jorge forbes

Vivemos num mundo sem garantias, com riscos e sem as referências de significado que orientavam os laços sociais no século passado. Essa é uma parte da análise proposta pelo psicanalista e psiquiatra, Jorge Forbes, em seu livro “Inconsciente e Responsabilidade – Psicanálise do Século XXI“. O livro é fruto de uma tese de doutorado, mas oferece uma linguagem atual de fácil entendimento para o público leigo acerca das novas relações sociais e, consequentemente, da mudança na relação entre pacientes e psicanalistas.

Confira a entrevista com Forbes e suas considerações sobre o novo paradigma da sociedade e a ideia de uma nova psicanálise necessária, entre outros tópicos enfatizados na obra literária:

Saúde do Meio: Em sua obra, o senhor chama a atenção para a prática de uma nova psicanálise, que dialogue com as transformações do mundo, da população do século XXI. Como funcionava essa relação entre pacientes e psicanalistas?

Jorge Forbes: Há uma mudança fundamental. Até pouco, a perspectiva de quem fazia uma análise era se conhecer melhor. Isso quer dizer que as pessoas buscavam respostas sobre aspectos de si mesmos que ultrapassavam o seu conhecimento, ou que as surpreendiam de alguma forma, buscavam fazer uma análise para conhecer as manifestações ditas inconscientes dessas coisas que lhes eram esquisitas ou ‘mais forte que elas’, como se diz popularmente ‘mais forte que eu’. O que quer dizer que a psicanálise funcionava como a criação de um saber, preparando a pessoa para uma ação mais garantida e tirando-a da variação do inconsciente ou da variação daquilo que ela poderia não saber. Então, análise era garantir melhor a sua ação num conhecimento mais aprofundado sobre si mesmo.

Saúde do Meio: Por que esse modelo de análise não é mais o ideal e se faz necessária, como senhor coloca, ‘uma nova psicanálise’?

Jorge Forbes: Isto não é mais fato hoje em dia porque a matriz do conhecimento mudou de lugar. Nós tínhamos um conhecimento, até pouco tempo, que era passível de ser muito bem estruturado verticalmente, no sentido de padronizado. Ou seja, nós tínhamos pontos referentes de significação que faziam com que nós dividíssemos uma mesma forma de ser e nós pudéssemos dizer o que seria certo, o que seria errado, o que seria uma pessoa adequada, uma pessoa conformada e uma pessoa rebelde. Hoje em dia, nós não temos mais essas matrizes. Elas foram multifacetadas, foram pulverizadas pelo que a gente chama de globalização. Nós não temos mais matrizes de significação, nós não temos mais um laço social, estruturado verticalmente como até 20, 30 anos atrás.

Saúde do Meio: O que muda, hoje, na relação e no perfil do homem que busca análise?

Jorge Forbes: Quem vai procurar uma análise, hoje, não pode esperar ter um conhecimento ajustado para garantir uma ação. Ao contrário, tem que modificar a sua relação com a ansiedade de não ter o conhecimento ajustado para garantir uma ação. Ou seja, a vida do homem ‘desbussolado’ (como costumo dizer), do homem do século XXI, é uma vida com contrato de risco e não com contrato de garantia. Nós saímos de um mundo menos criativo e mais garantido, que era o mundo moderno, e entramos no mundo pós-moderno, que é menos garantido e mais criativo. Esse mundo pós-moderno atual, mais criativo e menos garantido, necessita de um psicanalista que funcione além do Complexo de Édipo, além das significações e que possa fazer com que o seu paciente, no laboratório que é a psicanálise, possa tomar decisões arriscadas e criativas e por elas se responsabilizar. A diferença, portanto, é de 180 graus.

Saúde do Meio: O senhor menciona as mídias sociais e a formação de um mundo sem garantias, onde há riscos a cada segundo. A manifestação do pensamento se dá no terreno do imediatismo, sem possibilidade de voltar atrás. Como o homem contemporâneo pode voltar a ter uma referência, nesse sentido?

Jorge Forbes: Identificar qual seria a referência é um aspecto que estou trabalhando neste momento. Nós já tivemos grandes referências na história da humanidade que eu resumiria, rapidamente, da seguinte forma: primeiro, tivemos o homem natural, com referência na natureza. Depois, o homem religioso, com referência no Deus e nos Deuses. Em seguida, o homem da razão, do Iluminismo, seguido pela quebra de referências, que foi no início do século passado, com a desconstrução Nieztchiana. Atualmente, acredito que estamos caminhando para um segundo tipo de humanismo, não mais baseado na razão, mas baseado no dividir sentimentos. Nesse contexto, o sentimento é comum a todos, mas o significado é singular para cada um. Acredito que esse é o momento que a gente está vivendo – o momento do ressoar. Estamos numa sociedade viral, completamente diferente da anterior, mas que pode fazer com que nós, hoje em dia, não morramos mais por guerras, por revoluções ou por religiões, como diz meu amigo Luc Ferry, mas por outro homem. É o novo amor.

Saúde do Meio: Partindo do nome da obra “Inconsciente e responsabilidade – Psicanálise no Século XXI”, o senhor considera que, no mundo atual, estamos diante da reflexão de que nada é, hoje, como já foi um dia. Qual o impacto disso na vida das pessoas?

Jorge Forbes: Acredito que muito mais pessoas vão fazer psicanálise. Eu diria mesmo que estamos quase no início de uma nova era para a psicanálise. Nós tivemos, nos primeiros 100 anos, um belo exercício no que a gente chama da psicanálise de sentido ou da primeira clínica de Lacan. Agora, temos uma oportunidade única, porque acredito que a psicanálise seja talvez um dos mais potentes discursos para entender a globalização e o homem ‘desbussolado’. Eu só espero que os analistas se lembrem disso, porque eu acho que nós – analistas – ainda estamos em dívida com o homem do século XXI. Assim, é necessário apressar um pouco o passo para gerar respostas a essa modificação essencial às nossas vidas.

Saúde do Meio: Como devemos retrabalhar, por exemplo, os conceitos de ‘inconsciente’ e ‘responsabilidade’ nesse novo momento do século XXI? O senhor acredita que, na atualidade, as pessoas se comprometem menos com as suas decisões e perspectivas?

Jorge Forbes: Inconsciente e responsabilidade eram dois termos que nunca andavam juntos, muito menos na psicanálise, porque responsabilidade era do ponto de vista consciente, e o inconsciente era sempre ligado a uma irresponsabilidade, a uma não legitimidade da pessoa na sua ação, a ponto de ela dizer ‘só se foi o meu inconsciente!”. Hoje em dia, eu vejo que a globalização, ao quebrar essa ideia entre mundo de fora, mundo de dentro, e todas essas dicotomias, exige que nós nos responsabilizemos pelo incompleto do nosso mundo e pelo incompleto de nós mesmos. Ou seja, se cometo um ato falho, ou se me surpreendo, eu devo dizer: “Isso sou eu”.

Saúde do Meio: As mudanças no perfil da sociedade, seus anseios e expectativas, representam um entrave na busca por uma vida melhor? Como o homem moderno pode atuar na busca por soluções, reconhecendo a sua responsabilidade na construção de uma vida qualificada?

Jorge Forbes: Reconhecendo a sua responsabilidade, que essa é uma responsabilidade singular, eu diria que é fundamental, que as pessoas abandonem a ideia malfadada de qualidade de vida. Digo isto porque qualidade de vida é uma tentativa de dizer um bom para todos, como seria um bem viver para todas as pessoas. Eu diria, junto com o filósofo italiano Giorgio Agamben, que é fundamental substituir o termo ‘qualidade de vida’ por ‘vida qualificada’, no qual o substantivo não é mais ‘qualidade’, e sim a ‘vida’. Ou seja, uma vida qualificada está associada à responsabilidade de inventar uma satisfação pessoal e passá-la no mundo

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