23 set 2019

Suicídio entre Policiais Federais é seis vezes maior que a média nacional

A Polícia Federal  está no imaginário popular como uma das profissões mais excitantes dentro da polícia.  “Os Anjos de Preto” são homens e mulheres, geralmente muito jovens, que fazem parte de um time qualificado, mas nem sempre preparados para enfrentar os desafios “trevosos” da profissão.

Nos últimos 10 anos, 33 servidores da corporação tiraram a própria vida, revela levantamento inédito da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef).  Em 20 anos – de 1999 até 2019 – foram 49 suicídios mais sete tentativas. Dos 49 casos, 27 foram de agentes. A maior quantidade de suicídios ocorreu no Distrito Federal. Em seguida: Rio de Janeiro,  Santa Catarina e Paraná. Outro dado importante: 30% do quadro utiliza algum tipo de medicamento relacionado a questões psicoemocionais, segundo enquete realizada pela entidade em 2016.

Direitos Humanos/Segurança Pública

Publicada em dezembro de 2010, a Portaria Interministerial SEDH/MJ nº 2 estabelece as Diretrizes Nacionais de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos dos Profissionais de Segurança Pública. O documento aponta dez medidas específicas de saúde que deveriam ser oferecidas aos servidores.

Entre elas, assegurar o acesso ao atendimento independente e especializado em saúde mental; desenvolver programas de acompanhamento e tratamento destinados aos profissionais de segurança pública envolvidos em ações com resultado letal ou alto nível de estresse; implementar políticas de prevenção, apoio e tratamento do alcoolismo, tabagismo ou outras formas de drogadição e dependência química; desenvolver programas de prevenção ao suicídio, disponibilizando atendimento psiquiátrico, núcleos terapêuticos de apoio e divulgação de informações sobre o assunto; criar núcleos terapêuticos de apoio voltados ao enfrentamento da depressão, estresse e outras alterações psíquicas.

Entrevistei Roberto Uchôa, policial federal, bacharel em direito, especialista em gestão de segurança pública, mestrando em sociologia política, integrante do NUC/UENF, núcleo de pesquisa sobre conflito da Universidade Estadual do Norte Fluminense, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, sobre os desafios da Polícia Federal. Confira:

Adriana Santos: Qual o maior desafio de ser um policial?

Roberto Uchôa: O maior desafio de ser um policial no Brasil é querer servir da melhor forma possível à sociedade e não poder fazê-lo em razão das inúmeras dificuldades existentes. Ninguém decide arriscar a própria vida em defesa de outros por outro motivo que não seja vocação. Porém só a vontade não basta. Sem estrutura de trabalho, remuneração digna que permita ao policial descansar na sua folga e um ambiente laboral saudável, não há como o policial prestar o serviço que deseja.

Por que tantos policiais estão emocionalmente fragilizados?

Policiais convivem com o amor e ódio da população. Quando ajudam são adorados, quando fiscalizam e punem são odiados, mas todos sabem como isso funciona. O problema é que além de conviver com os problemas ao lidar com a população no dia a dia e com a violência, os policiais encontram também inúmeros problemas internos. Temos modelos de polícia criados no século XIX. São polícias sem carreira, com castas distintas e constante assédio moral. Isso acaba provocando um estresse contínuo no profissional, que não encontra no ambiente interno o suporte necessário para aguentar a pressão do dia a dia, e muitas vezes esse ambiente interno é tão nocivo que agrava a situação.

As instituições de Segurança Pública estão aptas no acolhimento dos policiais que passam por depressão ou outros transtornos mentais?

A maioria das instituições policiais no país não está preparada para acolher os policiais com problemas pessoais e emocionais. Há muito preconceito interno, não há política de acompanhamento dos profissionais e sequer há quadros profissionais adequados para tal tarefa na maioria das polícias. Por isso o aumento expressivo no número de suicídios de policiais. Sem auxílio, muitos tem sucumbido aos problemas de saúde mental.

O que mais prejudica a saúde mental de um policial?

O dia a dia do policial é extremamente estressante. Estado de alerta constante, cobranças, altos níveis de violência e medo de errar fazem parte da rotina diária do profissional de segurança pública. O problema é que ao sair das ruas e voltar ao ambiente de trabalho, onde essa pressão deveria diminuir, isso não ocorre. Devido ao péssimo ambiente de trabalho em grande parte das polícias e ao assédio moral, esse estado de tensão normalmente piora.

O número de suicídios aumento muito entre os policiais. Você já perdeu algum colega de trabalho?

Essa semana perdi o segundo policial que conheci. É muito triste quando isso ocorre, mas ao mesmo tempo fica um sentimento de revolta. Saber que os gestores do órgão tinham conhecimento do grave quadro de saúde mental de um servidor e que não prestaram o auxílio necessário é revoltante. Uma família foi destruída por incapacidade do órgão em cuidar de forma adequada dos seus servidores, que são o maior ativo da instituição.

Você já passou por algum problema emocional e precisou ajuda de um profissional de saúde mental?

No ano de 2012 tivemos uma greve relativamente longa no órgão e os ânimos se acirraram entre os cargos de policiais e delegados, que são os que dirigem o órgão. O ambiente interno que já não era dos melhores piorou bastante, destruindo muitas relações pessoais. Foi uma época difícil, de muito desânimo e desesperança quanto ao futuro, mas consegui lidar da melhor forma possível, canalizando minhas energias para voltar a estudar e tentar propor mudanças para que as instituições de segurança pública sejam modernizadas.

O que dificulta o pedido de ajuda por parte de um policial?

Além do preconceito interno a falta de estrutura de atendimento. Quando um policial busca o auxílio de um psicólogo ou de um psiquiatra é porque realmente está precisando, muitas vezes sendo na verdade um pedido de socorro, e ao negar uma estrutura mínima para acolher e ajudar esse profissional, a instituição policial mostra que sua preocupação se resume a números.

O  policial que passa por algum tratamento psiquiátrico continua portando arma de fogo?

Ao ser afastado por problemas psiquiátricos pode ser determinado que o policial entregue sua arma de fogo, porém essa decisão só ocorre após exame por uma junta médica pericial designada para avaliar o caso. Não sei como funciona em cada instituição policial, mas essa parece ser a regra geral.

Conclusões finais

O cenário de crescimento no número de suicídios de policiais deveria ter ligado o alerta das autoridades responsáveis, mas infelizmente isso parece não ter ocorrido. A crença de que armas mais modernas e viaturas mais possantes são a fórmula para a melhoria da segurança pública já se provou equivocada. O maior ativo de uma polícia são os policiais e o fator que pode melhorar a segurança pública é o investimento neles. Dar condições de trabalho adequadas, remuneração digna que permita o descanso na folga, cuidar da saúde mental e melhorar o ambiente de trabalho incentivando o crescimento profissional são a melhor saída para mudar o panorama existente.

Veja ainda: Assédio moral nas polícias é coisa séria

24 set 2018

Caminhada encerra mês de prevenção ao suicídio

Arquivado em Cidade, Comportamento

setembro

Uma caminhada pelo Parque Municipal de Belo Horizonte encerrará as atividades da campanha Setembro Amarelo, cujo objetivo é alertar e conscientizar para a prevenção ao suicídio. A atividade será no domingo (30/9/18), das 9 às 12 horas, comandada por voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV), ao som da Banda do Exército.

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), em parceria com a Associação Mineira de Psiquiatria (AMP) e os organizadores da caminhada, realizou uma programação especial ao longo do mês. Foi exibido o cine-debate, aberto ao público, com o filme Elena, e a Casa manteve uma iluminação especial amarela, no Palácio da Inconfidência.

O Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, 10 de setembro, foi criado em 2003 pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, a data passou a ser lembrada a partir de 2014.

Desde 2016, a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a considerar o suicídio como “um grande problema de saúde pública”. Dados da instituição indicam que no mundo 800 mil pessoas cometem suicídio todo ano e para cada ato concretizado existiram 20 tentativas frustradas.

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde, através do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), em 2017, mostram um crescimento do índice de suicídios no Brasil. Em 2011, foram 10.490 mortes: 5,3 a cada 100 mil habitantes. Já em 2015 o número chegou a 11.736: 5,7 a cada 100 mil.

O país com mais mortes é a Índia (258 mil óbitos), seguido de China (120,7 mil), Estados Unidos (43 mil), Rússia (31 mil), Japão (29 mil), Coreia do Sul (17 mil) e Paquistão (13 mil).

14 set 2017

Setembro Amarelo: os heróis também pedem ajuda

Arquivado em saúde, Saúde mental

heroi

A vida do Superman não é nada fácil. Além de enfrentar vilões de carne e osso, um dos heróis mais consagrados da Terra teve uma infância bem complicada, foi separado dos pais, foi um refugiado, não pode revelar sua verdadeira identidade e acumula duas profissões. Você lembra da história? Ele nasceu no fictício planeta Krypton e foi chamado pelos seus pais de Kal-El (que significaria Filho das Estrelas no idioma kryptoniano). Foi mandado à Terra por seu pai, Jor-El, um cientista, momentos antes do planeta explodir. O foguete aterrissou na Terra na cidade de Smallville onde o jovem Kal-El foi descoberto pelo casal de fazendeiros Jonathan e Martha Kent. Conforme foi crescendo, ele descobriu que tinha habilidades diferentes dos humanos. Quando não está atuando como Super-Homem, ele vive como Clark Kent, repórter do Planeta Diário. Realmente, não está fácil para ninguém!

IMG_20170630_081358Enquanto isso, em Belo Horizonte, o sargento do Hospital Militar de Minas Gerais, Daniel Xavier, 39 anos, sendo 16 anos de polícia, enfrenta um drama pessoal, antes de assumir a identidade de Super-Herói do Projeto Social Liga da Justiça. Em 2013, o mundo parecia desabar nos ombros do jovem policial. “Fui diagnosticado com quadro de depressão. Minha mãe estava doente, meu pai em estado grave no CTI, vindo a falecer. Meu casamento já havia praticamente chegado ao fim. Além de estar passando por uma intensa pressão no meu ambiente de trabalho”, explica.

O sargento Daniel sentia que não tinha forças para continuar a viver. Foi aí que o sinal alerta foi acionado. “Quando comecei meu tratamento, já apresentava os principais sentimentos de quem pensa tirar a própria vida: depressão, desesperança, desamparo e desespero. Tanto que, ao ser abordado pelo psiquiatra sobre o que eu queria fazer a respeito de tudo aquilo, minha resposta foi: eu só queria apertar um botão e desaparecer”.

No entanto, o sargento Daniel contou com uma rede de proteção, envolvendo os amigos, os colegas de trabalho e a Mulher Maravilha.

DSC06420Nunca fiquei afastado da Polícia. No período mais difícil, tive a licença médica de alguns dias e, logo em seguida, minha chefe Ten Cel Elaine autorizou o pedido de férias prêmio. Minha amiga me incentivou a criação do Projeto Social Liga da Justiça (saiba mais).

No mês de junho de 2017, participei de um minicurso sobre Suicídio, realizado pela LASME – Liga Acadêmica de Saúde Mental da UFMG. Durante o curso, vi o quanto o tema do suicídio ainda é tabu na nossa cultura. Números são omitidos. Quando o tema é abordado pela mídia, muitas vezes é feito de forma negligente com informações distorcidas. 

Em 2016 o Projeto Social Liga da Justiça realizou seu primeiro Setembro Amarelo, no Hospital Militar, pois policiais, bombeiros e agentes de saúde estão entre as profissões mais propensas ao suicídio, fato reiterado no próprio curso da LASME.  Alguns membros da Liga já tiveram experiência de auto extermínio na família e o convite da LASME foi quase que um presente, pois nos trouxe um pouco de conforto ao sabermos que não estamos sozinhos nessa luta e que um tema tão delicado está sendo abordado por pessoas altamente qualificadas para ajudar”.

SETEMBRO AMARELO – CAMPANHA DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O SUICÍDIO

O suicídio é um fenômeno complexo, que envolve várias facetas da existência humana. No entanto, os dados recentes apontam que o assunto não pode ficar restrito aos poucos grupos de discussão acadêmica, filosófica ou religiosa. Todos devem estar atentos ao tema – que afeta direta ou indiretamente à população.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que ocorram, no Brasil, 12 mil suicídios por ano. No mundo, são mais de 800 mil ocorrências, isto é, uma morte por suicídio a cada 40 segundos, conforme o primeiro relatório mundial sobre o tema, divulgado pela OMS, em 2014.

Na maioria dos casos, a vontade de acabar com própria vida é provocada pela falta de esperança, de uma luz no fim do túnel, além de uma insustentável sensação de desamparo e angústia. O quadro de transtorno mental, quando não diagnosticado ou não tratado, como depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar afetivo, crise psicótica e transtorno de personalidade (borderline) pode levar uma pessoa a cometer suicídio. É claro que a prevenção é uma grande aliada da vida. Segundo a OMS, 9 em cada 10 casos poderiam ser prevenidos.

IMG_9745Adriana Santos: Como é sua situação atualmente?

Daniel: Atualmente estou bem. Me monitoro sempre para perceber algum sinal de recaída, porque eles se manifestam, só que a gente e quem está ao nosso redor não percebe.

Como você consegui superar a depressão?

Estava consciente da minha situação. Sabia que seria um processo a longo prazo. Segui as recomendações médicas. Fiz terapia. Pratiquei e ainda pratico atividade física (artes marciais). Tentei focar na solução ao invés do problema e tentei não me entregar. Pude contar com algumas pessoas. Tive uma amiga que ficou ao meu lado na pior hora. Acho que ela foi essencial porque eu mesmo já estava duvidando da minha capacidade de sair dessa. Ela sempre acreditou e isso me deu forças. Hoje atuamos juntos na Liga da Justiça.

O trabalho voluntário foi importante na sua recuperação?

Embora não tenha criado o grupo para uma ser um tipo de terapia, é claro que ajudar as pessoas nos faz bem. Sentir a gratidão das pessoas, tirar sorrisos, fazer as doações, tudo isso num trabalho de equipe. Alcançar essas metas tem uma atuação direta na liberação de hormônios que nos ajudam na nossa felicidade (endorfina, oxitocina, dopamina e serotonina).

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