13 out 2015

Terapia para além da neutralidade ajuda uma nova identidade familiar

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famílias

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Um dos temas mais controvertidos e em ebulição na sociedade atual, a família vem passando por grandes transformações, a partir de novas experiências, levando-se em conta laços de parentesco biológico e social, de afeto e de contratos formais e informais, entre outros. Diante desse variado leque de configurações, os psicoterapeutas somam esforços, compartilhando estudos e experiências com o intuito de suprir as demandas familiares. Organizado pela professora Vanda Lucia Di Yorio Benedito, o livro Terapia de casal e de família na clínica junguiana – Teoria e prática preenche uma lacuna existente na literatura da psicologia analítica no que se refere ao atendimento de casais e de famílias.

Os primórdios da psicoterapia de casal e de família deram-se na década de 1950 e sua grande expansão, nos anos 1970 e 1980, quando surgiram várias escolas e institutos de formação de terapeutas dentro dessa especialidade em diferentes partes do mundo. “Esse movimento expansionista contribuiu para o fortalecimento da abordagem em clínicas e hospitais, ofertando-nos um grande número de publicações até os dias atuais”, conta a organizadora, comentando que, apesar do avanço, ainda são insuficientes as pesquisas em relação ao tema e escassas as publicações científicas em livros, revistas e congressos.

“Nosso compromisso com esse trabalho nos motivou a sistematizar nossas experiências e nossas reflexões nesse campo com a realização desse livro”, afirma a psicoterapeuta. Para ela, ajudar a inserir o pensamento de Jung no campo da terapia de casal e de família é um modo de abrir mais espaços para o conhecimento de sua obra. “Dialogando com outras formas de pensar, potencializa-se a riqueza do trabalho simbólico, um dos eixos principais dessa abordagem”, complementa.

Dividida em duas partes, a obra inclui a apresentação de casos clínicos acrescidos de reflexões das autoras. Temas clássicos na psicologia junguiana, como o trabalho com a sombra, as polaridades, a traição e a morte, também são analisados ao longo dos capítulos.

“O trabalho com casais e famílias ampliou meu entendimento do que Jung chamou de unilateralidade da consciência”, diz Vanda Lucia. Segundo ela, esse campo terapêutico propicia o exercício da pluralidade, da incerteza, da relatividade, da aceitação das várias possibilidades de percepção, favorecendo assim a melhor integração do indivíduo na família e no casal. “Essa visão sistêmica promove a busca de contextos que podem ser entendidos como opostos entre si, de forma a ampliar nossa compreensão dos eventos”, explica a psicoterapeuta.

Ao longo da obra, as autoras mostram que a conjugalidade é um dos possíveis sistemas nos quais diferentes imagens arquetípicas orquestram percepções e comportamentos que medeiam o encontro de dois adultos por uma relação em que se busca a satisfação de várias necessidades, desde afetivas até econômicas. “Na prática da psicologia analítica, procuramos entender esse sistema dentro da perspectiva simbólica, caminho apontado por Jung para considerar a psique como um todo”, diz a organizadora. Ela explica que o casamento apresenta aos cônjuges a difícil empreitada da transformação com o outro e por meio dele, conservando e respeitando a própria essência, no processo de individuação.

No capítulo sobre psicologia analítica e terapia familiar, as autoras mostram que o terapeuta não é um observador externo que busca uma neutralidade. Segundo elas, é importante criar um vínculo, baseado no sentimento de empatia com cada um dos indivíduos, e fazer a família sentir-se acolhida como um todo pelo profissional. Ao abordar a traição na conjugalidade, foca-se nas questões que envolvem um dos temas mais importantes e frequentes na terapia de casal.

No capítulo sobre a vivência da morte e o resgate da vida na terapia de casal, há reflexões sobre um caso clínico. Lembrando que uma das mortes mais dolorosas é a de um filho, ela diz que é preciso haver uma reorganização, uma nova adaptação e a construção de uma nova identidade familiar. O livro aborda ainda a importância do sonho como recurso terapêutico para alcançar o equilíbrio do relacionamento. Algumas diretrizes metodológicas para a terapia de sandplay com casais na abordagem junguiana também estão contempladas.

images.livrariasaraiva.com.brA organizadora

Vanda Lucia Di Yorio Benedito é psicóloga formada pela PUC‑SP.

Analista junguiana pela Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA). Docente e supervisora no Curso de Formação de Analista da SBPA, além de coordenadora do Núcleo de Casal e Família da clínica da SBPA e do curso de Terapia de Casal pelo Instituto J. L. Moreno. Formação em Psicodrama pela Sociedade Paulista de Psicodrama. Autora do livro Amor conjugal e terapia de casal – Uma abordagem arquetípica (Summus). Coautora de vários livros com capítulos sobre casal e família.

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