28 mar 2021

Por que o Brasil é alvo de espionagem internacional até em águas profundas?

Arquivado em Cidade, Comportamento

Crédito: Agência Brasil

A espionagem é uma estratégia de poder adotada em todos os tempos da humanidade, envolvendo as mais diversas civilizações. O general chinês Sun Tzu escreveu, no século IV antes de Cristo (544 a 496 a.C), no clássico livro “A Arte da Guerra”: “Os líderes brilhantes e os bons generais que consigam ter bons espiões vão ter muitos êxitos”.

Na Roma antiga, os líderes políticos tinham a sua própria rede de controle, que lhes fornecia informações privilegiadas  sobre as intrigas de poder. Júlio César construiu uma rede de espionagem para ficar informado sobre as conspirações contra ele, no entanto não escapou do assassinato. Ele foi morto em 15 de março do ano 44 a.C. por uma conspiração dirigida por Cássio e Brutus (senadores romanos), que alegaram que César era um tirano.

Vigiar, disfarçar, recrutar agentes, roubar cartas, interceptar comunicações, fazer escutas clandestinas são alguns exemplos de espionagem. Encontramos registros de espionagem até mesmo nos tempos da Bíblia, em especial no Antigo Testamento.

[NÚMEROS 13.1-3a]

Então disse o Senhor a Moisés:

— Envia homens que espiem a terra de Canaã, que eu hei de dar aos filhos de Israel. De cada tribo de seus pais enviarás um homem, sendo cada qual príncipe entre eles.

Enviou-os, pois, Moisés a espiar a terra de Canaã, com a instrução de percorrem as montanhas e os vales, verificarem as defesas militares, visitarem as cidades e as aldeias e observarem a produtividade do campo.

[13.21-26] Assim subiram, e espiaram a terra desde o deserto de Zim, até Reobe, à entrada de Hamate. E subindo para o Neguebe, vieram até Hebrom, onde estavam Aimã, Sesai e Talmai, filhos de Anaque. (…) Depois vieram até o vale de Escol e dali cortaram um ramo de vide com um só cacho, o qual dois homens trouxeram sobre uma verga; trouxeram também romãs e figos. (…) Ao fim de 40 dias voltaram de espiar a terra.

ESPIONAGEM MODERNA

Nos tempos modernos, a espionagem é considerada crime. No entanto, a prática é adotada indiscriminadamente por grandes potências mundiais, em especial contra países em desenvolvimento e, até mesmo, contra o cidadão comum. É fácil constatar que as modernas tecnologias permitem ações mais eficazes de obter informações, como escutas telefônicas, invasão de computadores por hackers, controle por aplicativo doméstico, captação de informações por satélites ou via cabos submarinos.

Nas águas profundas, o Brasil é destaque. Atualmente, os cabos submarinos são responsáveis por 99% das comunicações transoceânicas feitas em todo o mundo. Com fibra óptica, os cabos conseguem transmitir dados como voz, imagens e mensagens. O litoral brasileiro é uma das principais conexões (os chamados hubs) da rede de cabos submarinos de fibra óptica que transmite grandes quantidades de dados entre os países.

Não é novidade para ninguém que a América Latina é alvo de espionagem e que o Brasil é um país muito visado pelos agentes de serviços de inteligência, desde a década de trinta, passando pelos governos: Vargas, JK, Dilma Rousseff até o governo atual com Jair Bolsonaro. Ninguém escapa: presidentes, parlamentares, cientistas, jornalistas, empresários e cidadãos.

Qual a razão de tanta vulnerabilidade? Se o Brasil é alvo certo, os nossos governantes precisam criar mecanismos de defesa de dados. O Brasil não é uma “terra de ninguém”. Somos parte de um país potencialmente rico, não apenas de reservas naturais, mas de conhecimento científico e militar.

Entrevistei Thiago da Silva Pacheco, doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde defendeu a tese Da Ditadura a Democracia: Uma comparação das atividades de Inteligência da Polícia Política no Estado Novo e na República de 1946. É autor de vários artigos no campo da espionagem, Operações Encobertas, Serviços Secretos, Crime Político e Terrorismo. Pesquisador do Ateliê de Humanidades. Confira:

Adriana Santos: Por que o período Vargas foi considerado um dos mais visados pelos agentes secretos internacionais?

Thiago Pacheco: Depende de qual período falamos. Vargas ocupou a presidência entre 1930-1945, depois entre 1951-1954. Até onde foi possível apurar, não temos relatos significativos de espionagem internacional entre 1951 e 1954.

Mas, de fato, o período do Estado Novo (1937-1945) foi o auge da história da espionagem no Brasil, que, devido a sua relevância na América do Sul, sua posição marítima e o fato de que sediava significativas colônias alemã, italiana e japonesa, se tornou um espaço de espionagem disputado. Aqui operava o FBI, o MI-6, a Abwher e espiões da França, Itália e Japão.

O presidente JK tirou do papel o projeto do Serviço Federal de Informações e Contra Informações (SFICI) criado em 1946. Já a partir de 1959, o SFCI produzia conhecimento acerca do comunismo, transportes, energia e economia. É a primeira tentativa de profissionalização e especialização da atividade na história do Brasil.

Por que os governos brasileiros são tão visados pelos serviços de espionagem internacional?

Depende do contexto histórico. Mas, de uma forma geral o Brasil é um país rico em minérios, com economia poderosa, e é uma potência na América Latina. Nenhuma potência estrangeira pode ignorar um país desta magnitude, em especial os EUA que, pela proximidade, tem um histórico mais intenso destas atividades em relação ao Brasil.

Conforme suas pesquisas, como os governos conseguem administrar com mais segurança de dados sigilosos?

Há vários sistemas de arquivamento que regulam quem e em quais circunstâncias se pode acessar dados, sendo os graus mais elevados as informações classificadas como secretas e ultrassecretas. Na era da informação, isto depende por completo da cibersegurança e dos profissionais capacitados para o uso desta tecnologia. Mas significa também que não estamos mais na época dos arquivos de gavetas de aço, guardados em salas secretas por um punhado de homens e mulheres restritamente autorizados. O grau de proteção de dados sigilosos, não importa a nomenclatura que o demos, dependerá da tecnologia disponível para protegê-los.

Quais os outros governos brasileiros foram alvos de serviços de espionagem?

A CIA nunca deixou de espionar o Brasil e, embora não se trate especificamente de espionagem, a Revolta Comunista de Prestes teve apoio direto de agentes secretos treinados pela URSS, assim como a guerrilha durante a Ditadura Militar teve apoio de países comunistas.

Em especial, destaco a recente pesquisa de Mauro Kraenski e Vladimir Petrilak, que demonstrou como a Polícia Secreta da Thecoslováquia estabeleceu uma rede de espionagem no Brasil em favor do Bloco Comunista.

O livro toma um viés sensacionalista e ideológico ao exagerar estereotipadamente o poder de tal rede, como se o Brasil estivesse totalmente vulnerável aos espiões tchecos (ou seja, ignora o poderio de Segurança Interna por meio de nossa própria Polícia Política, historicamente muito eficaz no combate o comunismo).

Mas o interesse do Bloco Comunista no Brasil, demonstrado insofismavelmente na obra, e as fontes apresentadas, que permitem observar como se instala uma rede de espionagem praticamente do zero, são méritos inegáveis do livro.

Você considera que o Brasil é vulnerável em termos de segurança de dados sensíveis dos governantes?

Em recente artigo, foi demonstrado que a aparelhagem usada pela Marinha, Exército e Itamaraty era fabricada por uma empresa (Crypto AG) de fachada da CIA. Existe a possibilidade de que a falha tenha sido descoberta por nossos técnicos quando a aparelhagem foi adaptada ao sistema brasileiro, mas, se não o foi, significa que os dados estavam completamente expostos. Como disse anteriormente, isso dependerá de 1) quem está tentando ter acesso ilegalmente a estes dados e 2) da nossa tecnologia em protegê-los.

Na sua opinião, quais sãos as fragilidades dos governos brasileiros com relação à proteção de dados confidenciais dos principais representantes governamentais?

Considero que esta seja uma pesquisa ainda por ser efetuada. Novamente, depende da tecnologia disponível e dos atores que procuram penetrar nossos bancos de dados.

Os parlamentares também são alvos de espionagem governamental?

Sim, e não é um problema do Brasil. Atores estrangeiros mapeiam parlamentares conforme seu posicionamento econômico e ideológico, a fim de detectar quais estariam alinhados a seus interesses e quais seriam hostis. Não são incomuns tentativas sutis de direcionar a política doméstica por meio deste mapeamento.

Na sua opinião, o que deveria ser mudado para proteger as informações sensíveis dos presidentes e representantes do Senado e da Câmara dos Deputados?

Reitero a importância de investimento, tecnologia e treinamento no tocante ao sigilo de dados.

A segurança de dados sensíveis de governos de países desenvolvidos é mais criteriosa? Quais os pontos fortes?

Países como Rússia, EUA e Inglaterra têm muito mais tradição, expertise, tecnologia e, principalmente, orçamento. Isto resulta em sistemas mais eficazes contra invasores, ainda que não sejam infalíveis.